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‘Não mandamos parar a quimioterapia’, diz médico

Cancerologista que ajudou a desenvolver a fosfoetanolamina sintética afirmou que a cápsula não é para ganhar dinheiro

Entrevista com

Renato Meneguelo

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2015 | 03h00

O médico cancerologista Renato Meneguelo, que participou do desenvolvimento da fosfoetanolamina sintética, disse que a cápsula contra o câncer não é para ganhar dinheiro. Autor de um estudo que mostraria a eficácia da substância contra alguns tipos de tumores, o médico defende seu uso e diz não entender por que até agora hospitais e laboratórios não se interessaram em avançar nas pesquisas. 

Meneguelo faz parte do grupo de pesquisadores que detém a patente da substância. Ele trabalhou com o químico Gilberto Orivaldo Chierice, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), no Instituto de Química de São Carlos. Meneguelo lamentou as críticas de colegas e as restrições ao uso da substância. Ele se mudou de São Paulo para o Ceará e atende seus pacientes com roupa escura, dizendo-se de luto.

Oncologistas dizem que não há nada que comprove a eficácia das cápsulas e que o uso pode ser um risco. 

Como podem dizer se não conhecem os estudos? Em minha dissertação de mestrado, defendida em 2007 na USP, a conclusão foi de que a fosfoetanolamina inibiu a progressão e disseminação das células tumorais, sem efeitos colaterais. A tese foi publicada. Só nosso grupo teve sete trabalhos publicados com impacto internacional. Existem 96 artigos publicados sobre a fosfoetanolamina, mas nós fomos os primeiros a estudar para o câncer. A fosfoetanolamina age como marcador das células cancerosas. Ela denuncia a célula doente para o sistema imunológico, que entra em ação e a elimina.

Se os resultados eram bons, por que a pesquisa não avançou?

Houve testes em células e animais. Tivemos de parar com a pesquisa há alguns anos, porque no Brasil pesquisa não é levada a sério. Nosso grupo levou a patente para ser doada ao Ministério da Saúde e à Anvisa, porém, ninguém quis a continuidade de nossa pesquisa. Pedimos apoio a vários hospitais da capital e do interior, incluindo o Hospital das Clínicas. Não conseguimos. Estamos tratando com hospitais de Estados do Sul.

O grupo de pesquisa ficou com a patente da substância. Não seria por interesse econômico?

Nunca ganhamos dinheiro com isso. Só comigo, o composto está há mais de 15 anos. A patente foi requerida para proteger uma pesquisa feita no Brasil. A Fiocruz manifestou interesse, mas, além de abrir mão das patentes, não teríamos acesso aos testes clínicos nem aos resultados.

Se a patente não é da USP por que ela deve fornecer o remédio?

O Gilberto (Chierice) fornecia às pessoas que tinham interesse em participar da pesquisa. Eu achava errado até ver o resultado. Tanto que, quando houve a suspensão, muitos recorreram à Justiça. Sabemos que não é um remédio - não tem registro na Anvisa. Nós não divulgamos; as pessoas usaram a internet. Nunca dissemos que era remédio. Deixar de fazer cirurgia para tomar a cápsula é errado. Não mandamos ninguém parar a quimioterapia. Apenas dissemos que funciona melhor com o sistema imunológico bom. Meus pacientes são terminais, que foram mandados para casa para morrer, o que tem dar um pouco mais de esperança? Se melhorar 20%, já é um ganho.

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