Tiago Queiroz/Estadão
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Daniel Martins de Barros
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O mundo não para de mudar

Existem coisas que talvez mudem mesmo, mas para melhor

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 05h00

Desde o começo da pandemia do novo coronavírus, há uma disputa inconfessa para ver quem acerta mais os vaticínios para nosso mundo pós-pandemia. Uns acham que o vírus veio para ficar e que os apertos de mão estão banidos para sempre. Outros acreditam que o medo é passageiro, mesmo que o vírus não seja. Muitos dizem que o mundo nunca mais será o mesmo, mas há quem defenda que ele nunca mudará.

É uma discussão meio tola, se pensarmos bem. Na verdade o mundo continuará exatamente como sempre: mudando o tempo todo. Como já dizia Heráclito, é impossível entrar no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez em que a pessoa entra no rio as águas foram renovadas; o leito foi remexido; suas próprias expectativas e percepções, modificadas pelo primeiro mergulho. O mundo mudou. Não só na forma como se apresenta, mas no modo que o enxergamos.

Há algumas semanas escrevi em minha coluna para o Na Quarentena que nos últimos meses desenvolvi o hobby de observar pássaros. E adivinhe o que aconteceu? O mundo mudou. Os sons, as cores e os movimentos que me cercam hoje não são os mesmos que antes. Isso acontece diariamente conosco em múltiplos níveis.

A gente aprende a ler e o mundo se transforma. Nos apaixonamos, temos filhos, sofremos um assalto, sobrevivemos a um enfarte, batemos o carro, ganhamos um concurso, perdemos um concurso, e o mundo muda. Dizer que depois da pandemia o mundo nunca mais será o mesmo é, portanto, um truísmo. Ele nunca é o mesmo. 

Ainda assim alguns insistem que a pandemia é diferente, já que trará mudanças coletivas e em escala global. Quando nasce uma criança só a vida da família é afetada, mas na pandemia o mundo de todos é transformado. Mas se de fato o alcance da pandemia é enorme, não se pode dizer com certeza que o impacto no dia a dia das pessoas terá a mesma escala.

Pense no 11 de setembro. O mundo nunca mais foi o mesmo, mas fora do microcosmo de aeroportos pouca coisa na vida prática da maioria das pessoas do planeta mudou. Pense na Aids. O comportamento sexual mudou muito por pouco tempo, mas pouco por muito tempo – jovens de hoje, na maioria, já não usam preservativos nas relações. “Mas deveriam usar”, disse-me um amigo psiquiatra. “O mundo mudou, os jovens é que continuam os mesmos.” 

Mas nem isso é verdade. As pessoas já deveriam usar preservativos muito antes da Aids. A sífilis era um problema muito sério antes da descoberta dos antibióticos. Mas bastou aparecer a penicilina que o sexo seguro saiu de moda. Conforme os tratamentos para o HIV se modernizaram, o mesmo voltou a acontecer. O que mudou então?

Só temos a sensação de que agora, com a covid-19, as coisas são diferentes porque as estamos vivenciando no calor da hora. Assim de perto tudo parece desesperador. Mas espere um pouco e o medo cede. Veja a profecia de que as máscaras vieram para ficar. Basta olhar fotos de praias e parques no Brasil e no mundo para duvidar um pouco disso – a pandemia nem acabou e o povo já está tirando a máscara, imagine após todos serem vacinados. 

Não duvido de que algumas mudanças serão permanentes. Para falar a verdade, até torço por algumas. Sempre tive uma cisma com o ritual de soprar velinhas nas festas de aniversário, imaginando perdigotos se misturando à cobertura de glacê. Se isso for banido, o mundo terá mudado para melhor. 

Quando ouço dizerem que o mundo nunca mais será o mesmo em tom de lamento tenho a sensação de que essas pessoas acreditam que a realidade será necessariamente pior, como se até 2019 vivêssemos um sonho dourado do qual despertamos contra vontade. Bobagem. Há coisas que talvez mudem mesmo, mas para melhor. Se só alguns a mais usarem máscaras no transporte coletivo durante a temporada de gripe, ponto para a humanidade. Ou se lavarmos mais as mãos. Se nos aglomerarmos menos. 

A pandemia é um momento marcante e será lembrado por toda a história. Algumas de suas mudanças serão coletivas e serão para sempre. Mas isso não é motivo para desespero. O mundo muda a cada instante. E só às vezes para pior. 

*É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP, BACHAREL EM FILOSOFIA E ESCRITOR

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