Bruno Kelly/Reuters
Bruno Kelly/Reuters

'Não podemos fazer nada', é o que ouve família ao pedir socorro em Manaus

Avanço do coronavírus faz sistema de saúde colapsar na capital do Amazonas

Thaise Rocha e Bruno Tadeu, Especiais para o Estadão

15 de junho de 2020 | 05h00

Após ligar dois dias seguidos solicitando uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Rosinha Alves perdeu a tia Maria Portella, de 61 anos, que estava com suspeita de covid-19. Em Manaus, esse não é o primeiro relato de morte em casa por falta de estrutura no serviço de atendimento.

A família mora na comunidade São João, localizada na BR-174, que liga Manaus a Boa Vista, cujo hospital mais próximo é o Delphina Aziz, que tornou-se referência no tratamento do coronavírus no Estado. Maria Portella começou a manifestar sintomas como febre, dor no corpo e diarreia no dia 20 de abril. Ela chegou a ter uma melhora na sexta-feira, dia 24, mas no dia seguinte ficou debilitada. 

“Sábado (dia 25) ela ficou ruim mesmo, tossia demais e acabava desmaiando. Antes de ela sentir falta de ar pela primeira vez, eu já tinha ligado e disseram que não tinha ambulância. Liguei no domingo, 26, quando ela piorou mesmo e disseram: 'Não podemos fazer nada, procure o pronto-socorro mais perto’. Eu disse: 'Moça, a senhora sabe onde a gente mora? A gente mora na BR-174, a gente não tem dinheiro para alugar carro’”. 

Ainda segundo Rosinha, a atendente a teria chamado de ignorante. “É por que não é parente seu, senhora, a titia está morrendo”, ela lembra ter respondido. Maria pediu para a irmã lhe abanar e ficou apontando para os peitos, já que não consegui falar. Três horas depois, ela morreu. 

Além da dor da perda, a família também teria que lidar com as dificuldades para o sepultamento. A ambulância chegou a ser enviada à comunidade após a morte de Maria e os profissionais orientaram a família a registrar um boletim de ocorrência em uma delegacia próxima. 

“A ambulância veio e disse ‘vá na delegacia e faça um BO’. Só isso. Fui no 19º DIP (Distrito Integrado de Polícia) e mandaram eu procurar o SOS funeral. Fui e disseram que iam remover o corpo a meia-noite de domingo, dia 26. Não vieram. Quando deu 14h da segunda, o corpo ainda estava aqui. Procurei a imprensa e vieram remover às 22h da segunda-feira. Isso por causa da reportagem, se não, nem tinham vindo”, disse. 

Para Rosinha, se a ambulância tivesse sido enviada quando solicitada, talvez sua tia ainda estivesse viva, já que ela não fumava, não fazia uso de bebidas alcoólicas e nem possuía problemas de saúde. 

Dados

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), apenas em Manaus, de abril a até o início do mês de junho foram registrados 980 óbitos em domicílio, sendo 538 de casos confirmados de covid-19 e 91 suspeitos. Maio foi o mês com número mais expressivo de morte por coronavírus, registrando 348. Os dados para o interior do Estado não foram informados. 

Há também casos de pessoas que preferiram ficar em casa em vez de buscar atendimento, como o seu Raimundo Gama Leandro, que faleceu aos 93 anos, com suspeita de covid-19. Segundo o neto, Daniel Oliveira, o avô apresentava uma gripe que o fez definhar com o passar do tempo. O idoso estava sendo acompanhado por um dos filhos, que é enfermeiro, e pediu para não ser levado ao hospital porque não queria morrer sozinho. No dia da sua morte, 20 de abril, ele chegou a gravar um vídeo para família.

“Minhas filhas, eu estou muito ruim, eu não consegui dormir essa noite. Minhas filhas, venham para cá, estou precisando de vocês, eu estou muito mal e acho que não passo dessa noite. Por favor, venham para cá”, disse Raimundo na gravação, conforme relembra Daniel. “Veio um problema respiratório durante a noite, ele passou a noite inteira acordado, de manhã ainda gravou o vídeo e, às 20h, ele morreu. Ele falou que não queria morrer sozinho, ele queria morrer em casa”, acrescentou o neto.

Colapso

Em paralelo à superlotação de leitos clínicos e de UTI, que chegou a acumular mais de 1.300 pessoas internadas na capital, a repentina piora de doentes crônicos em isolamento domiciliar comprometeu o pronto-atendimento de inúmeras vítimas fatais.

Com o sistema de saúde à beira do colapso durante semanas, o Samu de Manaus, que recebia média de dez chamados por dia, passou a atender mais de 50 ocorrências diárias. 

A grande maioria dos casos eram de parada cardiorrespiratória, segundo o diretor médico do Samu, Domício Melo. “O solicitante informava que o paciente estava inconsciente e sem respirar. Outro fator é que, normalmente, não informam qualquer fato que possa relacionar com covid-19”, descreveu.

O rápido agravamento de uma gripe pegou de surpresa a família de Damião Antonio da Silva, de 80 anos. Muito debilitado, o aposentado, que era diabético e tinha problemas cardíacos, morreu nas primeiras horas do dia 21 de abril. Foi atendido pelo Samu cerca de 1h30 depois, segundo a sobrinha Leydianne Silva, de 31. “Ficamos tristes porque não teve um exame minucioso. No laudo dizia que foi de causa natural”, disse.

No período de pico da pandemia, a diretora da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS) do Amazonas alertou que muitos pacientes chegavam nas unidades de saúde em estágio muito avançado da doença, sem possibilidade de tratamento. “Começa com sintomas de febre, respiratórios, tosse seca e vão avançando, principalmente em pacientes hipertensos, diabéticos, ou que tenham outras comorbidades, como doenças cardíacas, pulmonares ou mesmo que sejam obesos”.

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