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Não podemos permitir uma destruição tão grande como a que está em marcha

Governos de todos os níveis resolveram, com raras exceções, que não vão contrariar eleitores e vão deixar a vida correr para o ralo. Estamos batendo recorde em cima de recorde no número de mortos por covid-19

Gonzalo Vecina*, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 05h00

A pandemia está ganhando contornos cada vez piores, estamos tendo um brutal crescimento do número de casos, as UTIs estão cheias, os hospitais não conseguem receber todos os pacientes. Mas as ruas também estão cheias, as pessoas não usam máscaras e se aglomeram. Parece que tudo que se tem falado não é ouvido. É um clima de já passou. Vamos viver como se fossem os últimos dias. 

Os governos de todos os níveis resolveram, com raras exceções, que não vão contrariar eleitores e vão deixar a vida correr... para o ralo. Estamos batendo recorde em cima de recorde no número de mortos. As vacinas não chegam e pior: as poucas doses disponíveis terminaram em todo o País. Atraso na chegada da matéria-prima da China por culpa das autoridades federais do Itamaraty rompe com as programações de entrega de vacinas da Fiocruz e do Butantan. O ministério, além de propor o uso de drogas que não funcionam, resolveu parar de financiar leitos de UTI – que estão em falta –, se recusa a comprar mais imunizantes, e se envolve em estéreis discussões sobre quem será responsável por reações adversas.

Os congressistas querem colocar a Anvisa de joelhos, justo o único órgão federal que cumpriu com todas as promessas de celeridade e de verificação de segurança e eficácia de pelo menos três vacinas até hoje. Mas o líder do governo quer que a Anvisa fique de joelhos e aprove produtos sem estudos de fase 3. Só precisam ser aprovados em seus países de origem, independentemente do tipo de vigilância sanitária que tenham e, pior, independentemente de terem ou não doses para vender. Parece inacreditável, mas são as vacinas russa Sputnik V e a indiana da Bharat Biotech.

Mas não bastam essas desgraças todas, que estão evoluindo e destruindo a nossa capacidade de sobreviver à pandemia. Enquanto países como o Chile estão vacinando a maior parte da população, e europeus saem de severos isolamentos sociais, nós estamos passando por uma tempestade perfeita.

Mas o Congresso e o nosso presidente não estão satisfeitos, ainda tem mais coisas para destruir. No passado pós-ditadura a sociedade brasileira se aproximou de criar um país melhor. Construiu um projeto de educação que ainda está longe do que precisamos, mas caminhamos, evoluímos um pouco e isso deve ser destruído. E, além de tudo, tem mais um problema: esse detestável SUS, que conseguiu evitar um total desastre sanitário ao longo da pandemia – ele tem de ser destruído. 

No altar do deus do mercado, a saúde e a educação devem ser imoladas. Com o que sobrar, veremos como usar para construir um país “DE” poucos “E” para poucos. Se esquecem nossos legisladores que estamos longe da civilização e as conquistas sociais recentes da educação e da saúde somente foram possíveis graças às imposições constitucionais. Não podemos permitir que nossos representantes nos imponham uma destruição tão grande como a que está em marcha. 

* É MÉDICO SANITARISTA, PROFESSOR DA FSP-USP E DA EAESP-FGV

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