Andreas Solaro/AFP
Andreas Solaro/AFP

'Não sabemos potencial da transmissão sem sintoma; coronavírus pode passar despercebido'

Especialista em infectologia explica qual é o status da epidemia de coronavírus com a propagação dos casos pela Europa e quais são os riscos de chegar ao Brasil

Entrevista com

Nancy Bellei

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 20h35

SÃO PAULO - Com a chegada do novo coronavírus na Itália e a rápida propagação dos casos no país, aumenta o temor de que ele se espalhe para a Europa e dali para outras partes do mundo. Já é hora de falar em pandemia? Com a comunicação mais intensa do continente com o Brasil, as chances de um passageiro com o vírus chegar ao País são maiores? Estamos preparados?

Para responder a essas questões, conversamos com a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ela explica que o risco é maior e que ainda há muitas dúvidas sobre a dinâmica da epidemia, o que gera insegurança sobre a melhor estratégia para conter a epidemia, se é que ainda é possível. 

De acordo com ela, muito provavelmente casos assintomáticos estão passando despercebidos e isso talvez possa explicar a rápida propagação na Itália. Do ponto de vista individual, diz que o risco da doença é baixo, mas para o sistema público de saúde, pode ser o caos. Para o Brasil, ela recomenda um diálogo franco com a comunidade. Se a epidemia chegar, as pessoas que tiveram quadros leves da doença devem saber que têm de ficar em casa, deixando os hospitais para os casos graves.

O rápido avanço da epidemia de coronavírus pela Itália indica que se está se caminhando para uma pandemia?

Não é só na Itália. Há um número grande também na Coreia, no Irã. Mas a maior parte dos casos italianos está em comunas próximas de Milão. São cidades pequenas, periféricas, onde fica mais fácil controlar os habitantes, então talvez seja possível ter uma certa contenção do vírus. Mas epidemias são imprevisíveis, não dá para saber se dali vai para o resto da Europa. É um momento extremamente difícil. Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) não declara que temos uma pandemia, gera uma instabilidade. Cada país toma uma providência sobre barreiras, sobre como lidar com voos. Mesmo no local que está com o vírus, alguns lugares são fechados, outros não. Uma agência de saúde pode ser mais agressiva, outros países podem deixar mais solto. Falta esse consenso internacional.

Muito se fala que apesar de ser transmitido muito rapidamente, o Covid-19 tem uma baixa letalidade. Há realmente motivo para preocupação?

Muitas pessoas têm comparado com a epidemia do H1N1, de 2009, em que se esperava uma coisa e não foi bem assim. De fato esse coronavírus tem uma mortalidade menor, mas há muitas diferenças. Ele não tem até o momento tratamento; o influenza tem, desde que comece cedo. Não existe imunidade para ele na população; O influenza nós sabemos que tem predileção por algumas faixas etárias. A transmissibilidade desse vírus, pelo que se vê, é mais elevada do que para outros vírus respiratórios. Mas temos incertezas ainda sobre a dinâmica da epidemia. Se durante o período assintomático, o vírus transmite com a mesma eficiência; se a pessoa continua transmitindo mesmo depois de ter se recuperado. O que sabemos até agora são de algumas publicações e relatos sobre alguns grupos na China, mas não temos, por exemplo, ainda, um estudo sobre o efeito na comunidade. Para o H1N1  isso tudo foi descoberto e compartilhado muito rapidamente. Tínhamos dados dos Estados Unidos, do México para entender como estava evoluindo. Mas a epidemia está lá na China desde dezembro e ainda não sabemos essas coisas. A OMS mesmo só entrou na China há cerca de duas semanas para entender a epidemia. Ainda não tivemos acesso ao panorama completo. 

Qual é o risco?

A gente tem de olhar a questão sob dois ângulos. Do ponto de vista individual, se uma pessoa me pergunta se ela deve ir para Milão, se ela tem chance de morrer, temos de considerar o seguinte. Se é uma pessoa jovem, sem nenhuma comorbidade, a chance é mínima, porque a maioria dos casos é leve. A chance de óbito nos casos críticos é de 3%. Mas do ponto de vista da saúde pública, temos de pensar que a epidemia pode gerar um caos. Imagine uma cidade com 3 mil habitantes que fechou escolas, comércio, fábricas, com um monte de gente procurando hospital, pessoas com a doença, mas também aqueles só com suspeita, mas que estão assustados. E os profissionais de saúde também podem ficar doentes, o que diminui a oferta de atendimento e não tem como aumentar. E mesmo que a mortalidade não seja alta, se um hospital tem três leitos numa UTI e eles são ocupados por esses pacientes, como ficam pessoas com outras doenças? Não é todo mundo que constrói um hospital novo em dez dias, como ocorreu na China.

Com o vírus sendo transmitido na Europa, aumentam as chances de chegar ao Brasil?

Com certeza, quanto mais países europeus ou americanos tiverem a doença, mais chance de ter um passageiro vindo para cá. O problema é que existe transmissão assintomática e não sabemos o potencial disso. Já podem ter chegado pessoas assintomáticas ou com quadro leve e ainda não sabermos.  Muito provavelmente o que aconteceu na Itália é que o vírus passou despercebido por algum tempo. De acordo com relatos do Ministério da Saúde local, dois chineses foram internados com a doença no final de janeiro em Roma. Deve ter sido feito um alerta na região, mas não foi suficiente para todo mundo ficar atento no norte do país. Casos leves provavelmente não foram notados. Afinal, é inverno, é normal ter gente espirrando ou tossindo por outros vírus respiratórios. Sem o alerta, alguém com febrinha ou tosse não vai procurar o serviço de saúde. Mas quando surge a notícia de um vírus novo na cidade, aí todo mundo procura, por isso tantos casos. Certamente a coisa não se espalhou somente em três dias. A literatura indica que quando aparece o primeiro caso grave de hospitalização ou de óbito, é porque o vírus já está circulando há pelo menos três semanas na comunidade. 

O Brasil está preparado para a epidemia, se ela chegar por aqui?

No momento, o que o País anunciou estar fazendo está correto: de fazer as orientações para a população, os alertas em aeroportos, os atendimentos para casos suspeitos. Para este momento em que ainda não temos documentação de transmissão local está correto. Mas se chegar aqui mesmo, aí vai ser a prova de fogo se houve treinamento dos profissionais de saúde, se há garantia dos suprimentos hospitalares para os serviços públicos de saúde. É preciso ter seriedade na comunicação com a população. Tem de explicar o que é a doença, quais são os sinais de alerta, quando se deve ficar em casa. É preciso ter planos de contingência para estabelecer quanto tempo uma pessoa contaminada não deve ir trabalhar ou ir para a escola. Tudo tem de ficar claro desde o início. Evitar que a epidemia tome um vulto grande ou que a situação fique caótica depende muito de as pessoas entenderem: se estou doente e não preciso do hospital, não vou a lugares públicos para mitigar a epidemia e vamos reservar os hospitais para quem precisa.

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