‘Nariz eletrônico’ da USP identifica cocaína e maconha no ar em 1 minuto

Técnica pode encontrar droga escondida em pacote ou no corpo, mesmo em pequena quantidade

Agência USP

22 Setembro 2010 | 21h01

SÃO PAULO - A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), criou um equipamento que consegue identificar cocaína e maconha pelo ar em até 1 minuto. O aparelho foi desenvolvido pelo químico Matheus Manoel de Menezes em sua dissertação de mestrado pelo Departamento de Química, sob orientação do professor do departamento Marcelo de Oliveira.

"A técnica utilizada funciona como um ‘nariz eletrônico’, pois identifica as drogas pelo ar. Os métodos atuais necessitam da abertura e coleta de uma porção da droga. Mas, com o novo método, é possível encontrar a droga escondida [em pacote, mala ou no corpo de uma pessoa]”, afirma Menezes. Segundo ele, a cocaína e a maconha são identificadas pelo equipamento mesmo em quantidades ínfimas, de até 10 nanogramas por centímetro cúbico de ar.

De acordo com o químico, o método é ideal para batidas policiais em locais onde houve manuseio de drogas. “O equipamento poderia dispensar o uso do cão farejador, que fica vulnerável aos riscos do trabalho”, avalia. A técnica também pode ser utilizada em outros ambientes, como aeroportos e contêineres carregados por aviões, onde muitas vezes essas substâncias são escondidas.

Futuramente, Menezes lançará um protótipo com dimensões entre 10 cm e 15 cm de largura e entre 15cm e 20 cm de altura (mais ou menos o formato de uma caixa de giz), munido pelos sensores específicos de cada droga. Apesar de protótipos desse tipo já existirem para outras finalidades, esse seria o primeiro desenvolvido no Brasil para drogas de abuso.

“O estudo possui uma aplicação direta na sociedade. Há uma crescente preocupação com o uso de drogas entre as várias faixas sociais e uma deficiência muito grande no estudo de metodologias que forneçam parâmetros seguros para a polícia”, afirma o pesquisador.

Funcionamento

Os sensores usados no trabalho são constituídos por uma finíssima lâmina de quartzo, recoberta em parte por uma película de ouro que funciona como eletrodo, onde o modificador químico (substância orgânica que captura as drogas de interesse) é depositado.

O segredo da técnica consiste exatamente no modificador químico, que reage com as moléculas da cocaína e da maconha. Em seguida, um instrumento medidor de frequência aponta uma alteração nesse valor, fruto do contato das moléculas das drogas com o modificador.

“A substância do modificador químico ‘prenderá’ as moléculas da droga. Durante este processo, a frequência de vibração do cristal muda, até que um novo patamar seja atingido. Isso sugere que o modificador químico se encontra saturado pela droga”, explica Menezes.

O mecanismo funciona de forma independente para cocaína e para maconha, pois para cada droga há um sensor com um modificador químico diferente. O da cocaína detecta diretamente as moléculas, destacando-as de substâncias que normalmente são misturados à droga, como xilocaína, estricnina, cafeína e anfetaminas. Já o sensor da maconha reconhece alguns dos canabinoides, substâncias que compõem a planta da maconha.

“Os sensores para cada droga funcionam como os chips de um celular: eles são diferentes para cada operadora, mas podem ser usados no mesmo celular”, compara o químico. Agora, Menezes pretende aprofundar a pesquisa em sua tese de doutorado. “A próxima etapa pretende aperfeiçoar os estudos relacionados à cocaína e seus interferentes”, resume.

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