THIAGO TEIXEIRA/AE
THIAGO TEIXEIRA/AE

Nem médicos reconhecem a dislexia

Estudo da Santa Casa diz que 70% dos profissionais de saúde e educação não identificam o transtorno

Felipe Oda, Jornal da Tarde

28 Março 2011 | 08h04

SÃO PAULO - As reguadas nas mãos e as aulas sentado sozinho, no canto da sala, são algumas das lembranças escolares de Dorival Câmara Leme, de 51 anos. Seus professores nunca conseguiram perceber que ele, em vez de preguiçoso, era disléxico. Essa dificuldade para identificar o transtorno atinge 70% dos profissionais de saúde e educação envolvidos diretamente no diagnóstico do problema, segundo um estudo da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP).

 

Leme só descobriu que tinha dislexia aos 49 anos. O distúrbio compromete a aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração. Em geral, a criança é bastante inteligente, mas seu desempenho escolar é fraco. Até descobrir o transtorno, Leme conta que viveu com a sensação de que tinha "alguma coisa errada" com ele. "Mas não sabia o que era. Quando descobri que era disléxico foi um alívio saber que eu não era um óvni, um estranho no ninho", brinca ele, que é engenheiro. "Se eu tivesse descoberto antes, acho que teria sido muito bom para a minha autoestima, eu cresceria ainda mais bem resolvido."

 

O diagnóstico precoce é capaz de evitar "sequelas emocionais", explica a psicopedagoga Debora Silva de Castro Pereira, doutora em educação pela Universidade Autonoma de Barcelona. "A pessoa (não diagnosticada) cresce achando que tem limitações e sofre por errar muito. Quando descobre que é disléxica na fase adulta, começa a entender as dificuldades", avalia.

 

Há vários sinais que podem servir de pista para suspeitar de dislexia (veja ao lado). Mas, na pesquisa da Santa Casa, os 186 profissionais analisados - entre pedagogos, fonoaudiólogos, pediatras e psiquiatras - tiveram um baixo desempenho ao responder um teste com 15 questões de múltipla escolha que traziam informações essenciais sobre o distúrbio.

 

"São profissionais de especialidades envolvidas com o diagnóstico e acompanhamento dos casos e, portanto, deveriam ter um conhecimento básico", explica Ana Luiza Navas, professora do curso de Fonoaudiologia da FCMSCSP e orientadora do estudo. Para ela, falta uma formação contínua para os profissionais. "Os melhores no teste foram os psicopedagogos e neuropsicólogos", completa.

 

"Quanto mais cedo for o diagnóstico, melhor para a criança, para a família e para a escola, que poderá trabalhar melhor com o aluno", explica a fonoaudióloga Maria Angela Nogueira Nico, psicopedagoga e coordenadora científica da Associação Brasileira de Dislexia (ABD).

 

Se não for diagnosticado, o disléxico fica mais suscetível a problemas emocionais. "Pode achar que é burro, quando na verdade o disléxico é inteligente", afirma Maria Angela. Ela frisa que o problema não tem relação com déficits intelectuais. O célebre físico Albert Einstein, por exemplo, era disléxico. "Qualquer problema cognitivo, intelectual, já descarta a possibilidade de a pessoa ser disléxica."

 

‘Diagnóstico não é tão simples’

 

As especialistas ouvidas pelo JT explicam que o diagnóstico da dislexia não é simples. "Depende de uma avaliação multidisciplinar", diz Ana Luiza Navas, professora do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP). Para o distúrbio ser confirmado, o individuo é submetido a avaliação de pedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, pediatras, entre outros profissionais.

 

Outra dificuldade no diagnóstico brasileiro são as falhas no sistema educacional. Há crianças que não aprenderam porque não tiveram oportunidades adequadas.

 

"O diagnóstico só pode ser feito após a alfabetização", ressalta Debora Silva de Castro Pereira, doutora em educação pela Universidade Autonoma de Barcelona. "Até lá, as dificuldades são comuns", explica.

 

Já o tratamento depende da faixa etária, segundo Maria Angela Nogueira Nico, coordenadora científica da Associação Nacional de Dislexia (ABD). "Os pequenos, no começo da alfabetização, são acompanhados por fonoaudiólogos e psicopedagogos. Adolescentes e adultos também costumam contar com o acompanhamento de psicólogos.

 

A dislexia afeta cerca de 4% da população estudantil, segundo estimativas da ABD. Há, inclusive, famosos que têm o problema, como é o caso do ator norte-americano Tom Cruise.

 

lista Conheça os sinais de alerta:

 

lista PRÉ-ESCOLA

O fato de a criança apresentar alguns dos sintomas abaixo não significa necessariamente que ela seja disléxica. Especialistas recomendam aguardar o processo de alfabetização, mas nessa fase há sinais que merecem atenção:

link Dispersão

link Atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem

link Dificuldade em aprender rimas e canções

link Baixo desenvolvimento da coordenação motora

link Dificuldade com quebra cabeça

link Falta de interesse por livros impressos

 

lista IDADE ESCOLAR

Caso a criança continue apresentando alguns dos sintomas é necessário um diagnóstico e acompanhamento adequado - para que possa dar continuidade aos estudos e evitar sequelas emocionais:

link Dificuldade na aquisição e automação da leitura e escrita

link Desatenção e dispersão

link Dificuldade em copiar conteúdos de livros e da lousa

link Desorganização geral

link Confusão entre esquerda e direita

link Vocabulário pobre, com sentenças curtas e imaturas ou sentenças longas e vagas

 

lista ADULTO

Sem receber um diagnóstico ou o acompanhamento adequado, o disléxico poderá apresentar uma série de problemas secundários, desencadeados pela dislexia:

link Dificuldade na leitura e escrita

link Memória imediata prejudicada

link Dificuldade na aprendizagem de uma segunda língua

link Dificuldade em nomear objetos e pessoas (disnomia)

link Dificuldade em organização

link Prejuízos afetivos e emocionais, tais como depressão, ansiedade, baixa autoestima e, em alguns casos, tendência ao consumo de drogas e álcool

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