Jorge Garcia
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Fernando Reinach
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Descoberta explica como é o mecanismo cerebral que inibe o apetite

Descoberta deve abrir novas possibilidades para o tratamento de desordem alimentar

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2021 | 05h00

A fome é um dos instintos mais fortes nos animais. É a vontade de comer que faz os animais buscarem comida desesperadamente quando ela é escassa e comer demais quando é abundante. E então a obesidade corre solta. A maioria de nós passa a vida combatendo a vontade de comer. Comer demais ou de menos é evolutivamente prejudicial e por isso a ingestão de alimento é cuidadosamente regulada por nosso cérebro.

Circuitos neuronais que nos estimulam a comer são bem conhecidos e estão localizados em uma área do nosso cérebro chamado hipotálamo. Quando estamos saciados, nossa vontade de comer desaparece. Faz tempo que se acreditava que isso se deve a dois fatores: os circuitos do hipotálamo (já conhecido) diminuem sua atividade e um outro circuito (até agora desconhecido) entrava em ação e induzia a saciedade. A novidade é que os circuitos que induzem a saciedade foram descobertos e eles estão em uma região completamente diferente do cérebro: o cerebelo.

Para localizar esses circuitos, os cientistas estudaram pessoas com uma síndrome chamada de Pradi-Willi. Essas pessoas nunca se saciam e comem sem parar. Num primeiro experimento, os cientistas compararam a atividade de neurônios de pessoas com essa síndrome com pessoas normais, procurando áreas do cérebro que eram ativadas em pessoas normais depois de comer muito (quando atingiam a saciedade), mas que não eram ativadas em pessoas com Pradi-Willi. Uma dessas áreas foi descoberta no cerebelo, uma região do cérebro que tem como função controlar a coordenação dos nossos músculos durante os movimentos e manter nosso equilíbrio.

Para terem certeza de que essa área realmente era responsável por causar saciedade, os neurônios dessa área foram localizados em ratos. Usando uma técnica que permite que neurônios específicos possam ser estimulados, os cientistas ativaram os circuitos aos quais esses neurônios pertencem. Esse truque permitiu observar nos ratos o que acontecia. Os ratos submetidos a esse tratamento perdiam totalmente o apetite e deixavam de comer mesmo quando sofriam com a falta de alimentos. E mais: apesar de perderem o apetite, os ratos continuavam a gastar a mesma quantidade de energia.

Esses experimentos demonstram que temos dois circuitos neuronais que controlam a ingestão de alimentos: um localizado no hipotálamo que ativado nos faz ingerir mais alimentos e outro no cerebelo que quando ativado provoca a saciedade. Assim, quando falta alimento o circuito do hipotálamo é ativado, provocando a fome, e o do cerebelo desativado. Quando comemos o suficiente, o do hipotálamo fica desativado (a fome passa) e o do cerebelo fica ativo, provocando a saciedade.

Essa descoberta deve abrir novas possibilidades para o tratamento de desordens alimentares, pois agora medicamentos podem ser desenhados para agir tanto inibindo a fome quanto induzindo a saciedade. Estamos longe de dispor desses medicamentos, mas a descoberta do mecanismo cerebral que provoca a saciedade é um primeiro passo.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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