Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

‘Ninguém diz e o adulto não sabe que vacina tomar’

Grupo de entidades busca no País formas de ampliar conscientização; esquema de imunização atual foca as crianças

Entrevista com

Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2018 | 18h00

Entidades da área da saúde estão unidas para enfrentar um desafio: fazer com que os adultos mantenham a caderneta de vacinação atualizada e participem das campanhas de imunização. Neste mês, houve a primeira reunião de um grupo permanente de discussão sobre vacinação para adultos e idosos, formado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e representantes de entidades como as Sociedades Brasileiras de Pediatria, Geriatria e Gerontologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). O objetivo é propor mudanças na conduta de profissionais de saúde, no comportamento desse público e até nos horários de oferta dos imunizantes.

Ao Estado, a presidente da SBIm, Isabella Ballalai, falou sobre a cultura de só incentivar a vacinação de crianças.

A necessidade de vacinar crianças é consolidada no País, tanto que as pessoas acompanham o calendário do Programa Nacional de Imunizações. Por que isso não ocorre com os adultos?

Ninguém diz para ele tomar e ele não sabe a vacina que deve tomar. Estudos mostram que 80% dos adultos que tomaram vacina procuraram o imunizante por prescrição médica. Mas os médicos não estão falando de vacina, ainda não é uma rotina como é na pediatria. Outro ponto é a questão do acesso: na rede pública, o posto funciona no horário comercial e para no almoço. Que horas o adulto vai se vacinar?

Qual a situação vacinal dos adultos no Brasil?

Conhecemos bem a cobertura vacinal do menor de 1 ano, mas o Ministério da Saúde precisa lidar com a vacinação dos adultos como faz com a de crianças. Para o adulto, a gente só tem metas em campanhas, não há um programa de metas e de acompanhamento dessa cobertura vacinal. Sabemos quantas doses foram aplicadas, mas não em quem, e isso é importante para podemos correr atrás dessa pessoa. 

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É comum ouvir pessoas dizendo que perderam a carteira de vacinação. O que fazer?

Quem perde a caderneta fica sem as informações e precisa fazer todo o esquema vacinal de novo. A recomendação é sempre vacinar, porque não traz nenhum problema.

Quais vacinas devem ser tomadas pelos adultos?

O calendário nacional ainda não tem todas as vacinas que a gente gostaria, mas oferece as da hepatite B, a dT a cada dez anos, tríplice viral até 49 anos, influenza para quem faz parte do grupo de risco, febre amarela e, para as gestantes, hepatite B, influenza, dTpa. O calendário da SBIm inclui nesse rol a dTpa para todos e hepatite A. Para maiores de 60 anos, as pneumocócicas e herpes zóster. Também a do HPV, que não se restringe a crianças e adolescentes. Os Cries (Centros de Referência em Imunobiológicos Especiais) oferecem essas vacinas para pessoas com diabete, que têm direito à vacina pneumocócica; e quem tem doenças hepáticas recebe a da hepatite A. Para cada grupo de risco, há vacinas que não estão no calendário.

Como a não imunização de adultos pode interferir nas doenças entre crianças? 

Quase todos os óbitos em bebês de até 3 meses por coqueluche acontecem após eles pegarem a doença de um adulto não vacinado. A vacinação faz proteção coletiva. Como o sarampo pode voltar a ocorrer no Brasil? Por meio dos adultos não vacinados.

A campanha da febre amarela está em andamento e a cobertura continua baixa. Quais são os riscos dessa situação? 

Ainda há 50% da população-alvo que não foi vacinada. As pessoas precisam pensar preventivamente. O adulto também tem a sua parcela de responsabilidade nisso.

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Imunização falha pode contaminar as crianças

Coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, Carla Domingues diz que a implementação de uma meta para o público adulto é algo “impossível”. “O adulto pode se vacinar aos 20 e aos 49 anos e não estará errado.”

O sistema que faz o cadastro das pessoas imunizadas com dados pessoais, como nome, endereço, data de nascimento e nome da mãe está sendo implementado desde 2012 e pode ser encontrado em pouco mais da metade das salas de vacinação.

“Hoje, estamos com 37 mil salas de vacinação e 65% estão com registro nominal. Nos outros 35%, coloca-se informação por sexo e idade. Com o cadastro no Programa de Saúde da Família, é possível ir atrás das pessoas que não tomaram a vacina.”

Carla explica que o procedimento ainda não foi finalizado porque demandou capacitação, presença de profissionais específicos para a função e computadores nas salas. O registro também envolve colocar a data e o lote da vacina que foi aplicada.

A coordenadora afirma que ações para incentivar o funcionamento das salas de vacinação aos sábados ou em horários alternativos estão sendo realizadas. Mas isso não exclui a necessidade de buscar a imunização. “O adulto hoje é a principal fonte de contaminação das crianças. A vacina traz qualidade de vida, melhora da saúde e proteção.”

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Vacinas para pessoas com mais de 20 anos que estão disponíveis no Programa Nacional de Imunizações (PNI):

Hepatite B: Três doses (situação vacinal é verificada)

Tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba): Duas doses (dos 20 aos 29 anos) e uma dose (dos 30 aos 49 anos)

Dupla adulto (difteria e tétano): Reforço a cada dez anos

Febre amarela: Dose única

Indicações específicas:

Idosos (acima de 60 anos): além das vacinas para os adultos, recebem imunização contra 

a gripe anualmente

Gestantes: recebem a vacina da hepatite B, de acordo com a situação vacinal, dupla adulto e, a partir da 20ª semana da gestação, tomam a dTpa (difteria, tétano e coqueluche)

Fonte: Ministério da Saúde

 

 

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