Ninguém sairá igual
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Ninguém sairá igual

Profissionais destacados da Medicina falam sobre os desafios e aprendizados decorrentes da pandemia

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 07h30

A pandemia de covid-19 certamente ocupará um espaço importante na história da humanidade – e, claro, também da Medicina. “Daqui a 100 anos, esse período vai ser revisitado por todos os ângulos – econômicos, políticos e sociais –, e a Medicina continuará sendo o centro dessa análise”, diz o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. “Tivemos os médicos éticos, que permaneceram com seus pacientes, e aqueles que se deixaram levar muito mais por critérios econômicos. É uma história que ainda está para ser contada.”

 A cardiologista Ludhmila Hajjar, que foi cotada para assumir o Ministério da Saúde no início deste ano, diz que a pandemia certamente a transformou numa pessoa e profissional melhores. “Hoje acredito ainda mais na ciência, aprendi a compartilhar conhecimento e fiquei mais solidária. A pandemia evidenciou a importância de tratar as pessoas com humanidade, tanto os pacientes quanto os familiares dos pacientes”, ela descreve. “Estou ainda mais convicta de que ser médico é muito mais do que fazer um diagnóstico e definir um tratamento.”

A médica observa que a experiência ao longo da crise representou, também, um mergulho na desigualdade do País, representada pela comparação entre os hospitais privados, com alta tecnologia e todos os recursos à disposição, e os hospitais públicos, nos quais faltam recursos humanos e equipamentos básicos. “A pandemia despertou em mim uma grande vontade de fazer mais, um senso de cidadania gigantesco. Quero ser uma médica melhor, mas também transformar meu entorno. Se era sonhadora antes da pandemia, agora certamente sou ainda mais.”

Para muitos profissionais da área médica, a pandemia proporcionou um encontro, em proporções inéditas, entre a vocação pessoal e a necessidade coletiva.

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, diz que se sentiu extremamente preparado para o enfrentamento da pandemia por causa de toda a experiência acumulada até então como gestor, cientista e desenvolvedor de tecnologias. “Certamente era um grande desafio que tínhamos à frente, mas o meu único temor desde o início era o de não conseguir enfrentá-lo, por motivo de saúde ou outro qualquer.”

Conforto mútuo

Para o cirurgião Nacime Salomão Mansur, gestor de 16 hospitais públicos integrados à rede da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), as duas palavras que melhor definem o período da pandemia são “emoção” e “resiliência”. “Passamos a lidar com a morte frequente de gente próxima, sejam parentes, amigos ou pacientes, e a proximidade com a morte pesa muito para todos que lidam com saúde, mesmo para quem já tem 40 anos de carreira”, ele descreve.

A emoção precisava ser controlada por conta da urgência que a crise pedia – na tomada de decisões, nas orientações para os mais de 34 mil funcionários subordinados, na preparação dos ambientes. A SPDM ampliou sua capacidade em mais de mil leitos num curtíssimo espaço de tempo. Nacime conta que a parceria com os colegas de trabalho, especialmente os gestores de cada hospital da rede, foi reconfortante e deu força para que todos enfrentassem situações extremas. “Às vezes estava mais para baixo e o outro me dava força, às vezes era o contrário. Foi uma relação de muito apoio mútuo. Certamente nos sentimos mais próximos e humanos depois de tudo isso.”

Um desses parceiros constantes é Carlos Maganha, diretor do Hospital Municipal Dr. José de Carvalho Florence, em São José dos Campos (SP). Maior hospital da cidade, com 400 leitos – sendo 100 de UTI –, a instituição foi parcialmente destinada ao atendimento de pacientes com covid-19. Aos 50 anos, Maganha diz que se sente honrado por ter estado à frente da missão num momento tão crucial para a sociedade. “São histórias que vou contar para os meus netos.”  

 Remanejamentos da pediatria e da maternidade para outras instalações chegaram a ser feitos para acomodar a demanda decorrente da pandemia. O hospital teve 250 leitos reservados para a covid, com uma taxa de ocupação que passou de 80% no momento mais crítico, entre maio e junho deste ano. A situação melhorou muito desde então, mas Maganha faz questão de ressaltar que a batalha contra a pandemia não acabou – e lembra que, na realidade, ainda vai durar muito tempo, por causa das sequelas e doenças crônicas que surgirão em decorrência da contaminação pelo coronavírus. 

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