Fethi Belaid/AFP
Fethi Belaid/AFP

Ninguém segura a mão de ninguém

Novo coronavírus leva pessoas a reverem a interação social e a etiqueta dos cumprimentos

Alexandre Bazzan, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 15h20

Depois da vitória de Bolsonaro, a tatuadora Thereza Nardelli criou uma ilustração com a frase "Ninguém solta a mão de ninguém" como ato de solidariedade e resistência de grupos que se sentiam ameaçados pelo novo presidente. Pois o novo coronavírus tratou de deixar o gesto obsoleto.

Ao redor do mundo, eventos com grandes aglomerações foram adiados ou cancelados, como shows, desfiles de moda e jogos. Na Itália, antes da grande quarentena decretada, os restaurantes ainda podiam funcionar desde que mantendo uma distância de 1 metro entre as mesas. Quem já foi para grandes cidades como Roma e Milão, sabe que os restaurantes costumam ser apinhados com mesas bem próximas.

Contudo, ainda existem interações cotidianas que podem servir como transmissão do vírus. Um vídeo que mostra o presidente Trump apertando a mão de parlamentares que tiveram contato com uma pessoa contaminada no CPAC, evento conservador que teve o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) como palestrante, gerou certa ansiedade na mídia americana. Trump aparentemente não tem intenção de fazer o teste para a doença. Existe até uma certa "revolta" da imprensa local pelo fato de o presidente continuar com os apertos de mão.

Mas qual a etiqueta correta na hora de cumprimentar pessoas conhecidas? A correspondente do Estado em Washington diz que o contato físico se tornou deselegante no país.

Na Holanda, o primeiro-ministro fez um apelo para as pessoas evitarem o aperto de mão. "Você pode tocar os pés ou bater os cotovelos, como quiser", disse ele antes de apertar a mão de um oficial do departamento de saúde e quebrar a sua própria regra. O governador do Estado de Nebraska, nos EUA, adotou o toque de cotovelo em um evento público e até a premiê alemã, Angela Merkel, ficou no vácuo ao tentar apertar a mão do ministro do interior em uma reunião.

A diretora do departamento de doenças epidêmicas e pandêmicas da OMS compartilhou no dia 1º de março uma tirinha com os novos tipos de saudações. "Nós precisamos nos adaptar a essa nova doença", escreveu a dra. Sylvie Briand em sua conta de Twitter. Em um dos quadrinhos, uma ilustração do dr. Dale Fisher, especialista em doenças infecciosas, sugere evitar o aperto de mão e a adoção de cumprimentos alternativos, sem que haja contato físico.

Apesar de o assunto ser tratado muitas vezes com humor, ele é sério. O médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, alerta que o coronavírus precisa de proximidade para ser transmitido, então é bom que o contato, na medida do possível, seja evitado.

"O beijinho no rosto e o aperto de mão, vale a pena tentar reduzir", diz ele. O médico lembra que as igrejas já estão recomendando o distanciamento e a não realização de tradições como o abraço para desejar a paz de cristo. Oliveira sugere até que as crianças sejam reeducadas para esse tipo de interação, com tato para não criar uma preocupação excessiva e gerar algum trauma.

Aqui em São Paulo algumas escolas pediram para as crianças trocarem abraços por sorrisos, mas é bem pouco provável que os pequenos sigam à risca a nova regra.

Além de evitar o contato, o Ministério da Saúde recomenda lavar as mãos com maior frequência ou uso de antissépticos, como álcool gel, cobrir o rosto quando for tossir ou espirrar. Não compartilhar objetos pessoais de higiene, nem talheres ou copos, evitar aglomerações e manter os ambientes bem ventilados. O Ministério também pede um maior cuidado com idosos para prevenir contra a contaminação.

O toque de pés ou a batida de cotovelo obviamente não são tão legais quanto os apertos de mão complexos de LeBron James, que vai descansar por um tempo depois de a NBA suspender a temporada por contaminação de um jogador do Utah Jazz. As saudações alternativas também não são tão afetuosas quanto um abraço ou um beijinho no rosto (dois no Rio), mas eles são uma medida importante para evitar o contágio.

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