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No Amazonas, cena chocante mostra paciente de coronavírus recebendo oxigênio em saco plástico

Equipe médica decide por conta própria e com autorização da família 'usar uma técnica experimental não-invasiva para mantê-lo estável'

Rosiene Carvalho, especial para O Estado

22 de abril de 2020 | 20h36

MANAUS - Três dias após o governador do Amazonas Wilson Lima (PSC) admitir não ter mais leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI), um vídeo com um paciente respirando numa câmara improvisada e feita de saco plástico viralizou e virou mais uma das cenas chocantes do avanço da pandemia no Amazonas. O Estado tem uma explosão de casos da covid-19 e lidera a taxa de incidência da doença em todo País.

A última atualização emitida pelo governo é de 2.270 casos confirmados e um total de 193 mortes, o que deve ser muito maior em função da subnotificação, também admitida pelo governador do Amazonas em entrevista à Rádio Tiradentes, em Manaus, na sexta-feira, dia 17. Na ocasião, ele destacou que os enterros diários eram numa média diária de 30 e saltaram para cem, só na quinta-feira passada.

Sem UTIS, o Estado providenciou contêineres para os corpos ao mesmo tempo em que o governador declarou que “em algum momento” não terá onde colocar corpos. De acordo com a Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), a medida de usar um saco plástico para ajudar na respiração do paciente foi adotada como alternativa de assistência enquanto o mesmo aguardava transferência para outra unidade.

Segundo o governo, a equipe médica da unidade em que isso ocorreu decidiu por conta própria e com autorização da família “usar uma técnica experimental não-invasiva para mantê-lo estável”. Ainda segundo a nota da Secom, após estabilizado, o paciente foi transferido para uma unidade da rede privada.

O vídeo viralizou no domingo, dia 19, e repercutiu pelas redes sociais. Nesta quarta-feira, dia 22, o Estado entrou em contato com o governo e questionou sobre o quadro do paciente, se a medida será admitida em outros casos e em que unidade o fato ocorreu, mas não obteve resposta.

Desde o fim de semana, vídeos feitos por profissionais de saúde e por parentes de pacientes em Serviço de Pronto-Atendimentos (SPAs) de Manaus mostram a revolta da população até com funcionários da saúde por falta de atendimento.

No SPA do São Raimundo, o filho de um paciente filmou o pai num leito e diz que não tem funcionário para dar assistência a ele. Outro vídeo, na mesma unidade, aparece um paciente numa cadeira de roda enquanto os acompanhantes dele batem em portas e gritam em desespero chamando funcionários para socorrê-lo.

Houve ainda vídeo mostrando pessoas depredando a unidade de saúde, também revoltadas com atendimento. A diretora do SPA do São Raimundo, Ana Valéria Costa de Matos, de 51 anos, e um técnico de enfermagem do SPA estão entre os mortos da covid-19 no Amazonas. As cenas se repetem em outras unidades de saúde do Estado desde a última semana em que, segundo classificação do Ministério da Saúde, o Amazonas entrou na fase de “aceleração descontrolada da doença”.

O Hospital João Lúcio teve sala em que pacientes com covid-19 estavam em macas ao lado de 14 cadáveres ensacados de pacientes mortos pela doença. Outra imagem que chocou a população foi a de enterros em vala comum para dar conta da demanda de sepultamentos que disparou e não acompanha os registros oficiais do governo.

'Novos leitos simbólicos e desorganização do sistema'

O governo do Amazonas inaugurou um hospital de campanha no sábado, 18, e anunciou 66 leitos, sendo 16 de UTIs. No dia seguinte, o Ministério Público do Estado do Amazonas fez uma inspeção no local e disse que a inauguração foi simbólica e que faltam equipamentos para funcionamento dos leitos de terapia intensiva. Outro problema apontado pela inspeção do MP-AM é a falta de equipamentos de proteção aos profissionais.

A promotora da saúde do MP-AM, Silvana Nobre, indica problemas de gestão que potencializam o agravamento da crise. Entre eles, a promotora aponta que o Amazonas se omitiu em usar estruturas e leitos já disponíveis na rede, descentralizou a entrada de pacientes da covid-19 para todas as unidades - o que colocou em riscos pacientes e funcionários da saúde - e concentrou esforços num hospital de campanha que ainda não foi concluído.

Para a promotora, as ações do Governo desorganizaram o sistema que deveria ter maior controle e administração de fluxos como toda rede funcionando de forma coordenada. "Esse fluxo foi estabelecido. Aliás, a falta de fluxo foi estabelecida em razão de o Estado ter se omitido em abrir leitos clínicos no Delphina, que era onde ia se dar a concentração de pacientes com covid. Na medida em que o Estado não abriu leitos lá, as pessoas tiveram que ir para os prontos-socorros (...) Os fluxos dos prontos-socorros não foram estruturados para esta situação", declarou. Segundo ela, o resultado se vê no que está ocorrendo nos SPAs e hospitais de Manaus. A mesma crítica tem sido feita por médicos.

“Estamos adoecendo e adoecendo nossas famílias”, afirmou Graciete Mouzinho, presidente do Sindicato dos Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem do Amazonas. Ela declarou que o atendimento precarizou muito com a pandemia e com a falta de Equipamentos de Proteção Individual aos profissionais da saúde e que até estes estão optando por evitar buscar atendimento na rede estadual. “Muitos ficam em casa. Melhor se cuidar em casa”, indicou.  “Estamos adoecendo e adoecendo nossas famílias. Recebo ligações desesperadas destes funcionários. Todo tipo de pressão. As condições dos pacientes e de trabalho, atrasos de pagamentos, ameaças nas unidades e o medo de morrer e de infectar suas famílias. Não é fácil”, lamentou.

A enfermeira disse que há plantões de 12 horas em que um técnico de enfermagem ficou só cuidando de dez pacientes graves. Ela afirmou que, em função da covid-19, acompanhantes não podem ficar com os pacientes e os técnicos precisam ajudar eles a se alimentarem porque estão fracos. “Imagine o que é um técnico fazer isso em todas as refeições para dez pacientes, porque, de tão fracos, não conseguem levar uma colher até a boca”, disse. A enfermeira disse também que o risco de infecção é grande. “Se eles ficam na sala rosa (unidade semi-intensiva), onde estão isolados até o fim do plantão, tem que se alimentar ali num local cheio de vírus. Teria que ter uma orientação melhor”.

Associada à exaustão do trabalho e à defasagem de profissionais em função de terem se afastado por infecção ou por serem grupo de risco, Graciete disse que os enfermeiros e técnicos de enfermagem convivem com atrasos no pagamento. “Tem gente com oito meses de atraso. Sei de técnicos que levavam a refeição servida a eles no plantão para alimentar filhos. Não temos EPI adequado e quando adoecemos vamos para o rabo da fila também. Como vamos retornar a trabalhar e dar assistência à população, se estamos adoecendo e não temos medicamentos para nos tratar?”, denunciou.

Ela relatou que alguns enfermeiros e técnicos de enfermagem tiveram de mandar os filhos para o interior do Estado para ficarem com avós ou outros parentes, por não terem onde deixá-los e por medo de infectá-los. As aulas estão suspensas no Amazonas, nas redes pública e privada. “Tanto hotel desocupado. Por que o governo não organiza isso e coloca um espaço para que os profissionais não voltem para casa e infectem suas famílias?", questionou.

A enfermeira disse que, em parceria com Ministério Público do Trabalho, e sem recursos do Governo, o sindicato adquiriu 10 mil kits de máscaras e roupas para proteção dos profissionais. Graciete contou que alguns deles estavam comprando material de proteção com recursos próprios e outros pedindo cotas de amigos. A encomenda foi feita a um clube de mães e o material usado é TNT. “Não é o ideal. Mas já é uma ajuda. Tem gente levando máscara N95 para casa para lavar e reutilizar”, disse.

Para ela, a sensação entre os profissionais é de abandono. “Falta experiência na Secretaria de Saúde, ele não tem noção. E o nosso governador parece estar perdido. Vejo ele perdido e nos sentimos sós. Pode até ter boa vontade, mas vejo ele perdido.”

O Governo enfrenta ações judiciais que questionam contratos durante a pandemia e denúncias em relação ao hospital de retaguarda e aquisição de respiradores, com valor acima do mercado. O Estado, há anos, enfrenta crises na Saúde e escândalos de corrupção com desvios de dinheiro que deveriam ter sido usados no setor. Em 2016, uma cena de improviso no atendimento repercutiu em todos os jornais do País. No Hospital de Jutaí, a 751 quilômetros de Manaus, um bebê prematuro recebeu uma garrafa pet como improviso de equipamento para receber oxigênio. A criança morreu.

De acordo com o Ministério Público Federal, entre 2014 e 2016, cometeu crimes de licitação, peculato e lavagem de dinheiro, provocando prejuízo aos cofres públicos de, no mínimo, R$ 50 milhões. Segundo o MPF, os desvios de dinheiro foram para bancar vida de luxo dos investigados e denunciados. Entre os investigados por envolvimento nos casos estão o ex-governador do Amazonas, José Melo, ex-secretários de Estado e o senador Omar Aziz (PSD). Todos negam participação nos esquemas de corrupção.

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