Reuters/Bruno Kelly
Reuters/Bruno Kelly

No Brasil, um homem à beira da morte e uma busca desesperada por um leito

O coronavírus afetou seu cérebro e a médica socorrista Alessandra Said percebeu. Não havia muito tempo

Terrence McCoy, Heloísa Traiano, The Washington Post

16 de maio de 2020 | 11h00

A chuva aumentava e a ambulância seguia em alta velocidade pelas ruas da cidade de Manaus. No seu interior, um homem de 78 anos de idade, deitado na maca, parecia desorientado, incapaz de dizer quem era e já perdendo a consciência. O coronavírus afetou seu cérebro e a médica socorrista Alessandra Said percebeu. Ele corria o risco de morrer. Não havia muito tempo.

Mas numa cidade isolada pela geografia e assolada pela doença, a médica não sabia de nenhum hospital com espaço para pacientes de coronavírus. A busca por um leito levaria horas e alguns pacientes não sobrevivem. Ela olhou para o homem - debilitado e se contorcendo na maca - e esperava que ele conseguisse sobreviver. “Não tínhamos nenhum lugar para levá-lo, iríamos ter de bater de porta em porta”, pensou Alessandra Said, de 45 anos, falando sobre o caso depois. “É desesperador. Você sente uma terrível dor no coração. Não sabemos o que vai acontecer”.

A incompetência do Brasil em oferecer leitos de hospital suficientes para o número crescente de pacientes do coronavírus em situação crítica está tendo resultados cada vez mais sombrios em todo o País, mas especialmente em Manaus, cidade de dois milhões de habitantes situada na região do Amazonas, em plena floresta tropical. A cidade está às voltas com os caixões. Centenas de pessoas estão morrendo em casa porque não conseguem vaga nos hospitais ou temem não achar lugar. As ambulâncias rodam pelas ruas sem um destino claro, esperando que alguém morra e libere um leito de hospital.

À medida que o coronavírus se propagou pelo mundo, países ricos conseguiram ampliar seus sistemas de saúde de modo a atender à necessidade crescente. A Espanha contratou mais 52 mil funcionários de saúde. A Alemanha aumentou o número de leitos de UTI em 12 mil. Os Estados Unidos disponibilizaram o USNS Comfort na costa de Nova York.

Mas com a pandemia entrando na sua próxima fase e atingindo nações mais pobres na África e América Latina, a possibilidade de expandir o sistema de saúde é muito mais limitada. Em Guayaquil, no Equador, corpos foram deixados nas ruas. Em Loreto, no Peru, eles eram empilhados numa pequena sala de um hospital. E no Brasil, que registrou mais de 200 mil casos de coronavírus e mais de 14 mil mortes, de longe o maior número de vítimas no hemisfério sul, os pacientes passam seus dias finais esperando em cadeiras.

Uma série de fatores - recursos limitados, negligência prolongada do sistema de saúde, uma competição global por suprimentos médicos permitiu que outros lugares tivessem acesso a eles, mas isto se tornou algo impossível para grande parte do mundo em desenvolvimento. Os sistemas de saúde já operando no limite não possuem material, pessoal, nem dinheiro para ampliar rapidamente sua capacidade de maneira a atender as necessidades que aumentam de modo excepcional.

“A maior parte dos problemas estruturais que esses países sempre tiveram -  disparidades do sistema de saúde, falta de pessoal - agora foram exacerbados por uma crise, juntamente com o desafio de competir em mercados que estão saturados”, avaliou Tatiana Bertolluci, diretora regional para a América Latina e Caribe da organização humanitária CARE.

“O que vimos em Guayaquil nós veremos em outras cidades latino-americanas. Já estamos vendo em Manaus”.

A médica Alessandra Said estava vendo agora. Olhou seu paciente idoso. Os olhos deles estavam cerrados. Ela pediu para o motorista da ambulância seguir para o norte da cidade. O veículo acelerou pelas ruas molhadas com a chuva. Começava outra busca desesperada por um leito de hospital.

Nos primeiros dias da pandemia, enquanto o presidente Jair Bolsonaro descartava a doença como uma pequena gripe, autoridades estaduais e municipais começaram a se preparar para a mais grave crise da saúde vista em uma geração.

No Estado do Rio de Janeiro, o governo anunciou a construção de hospitais de campanha para aumentar o número de leitos disponíveis. O Estado do Pará anunciou que iria adquirir 400 ventiladores da China. E em Manaus, um hospital de emergência seria destinado especificamente para pacientes com a covid-19, causada pelo novo coronavírus.

Semanas depois e as promessas no geral não foram cumpridas. O hospital de Manaus foi considerado insuficiente “em estrutura e equipamentos”, de acordo com análise do governo. Muitos dos ventiladores comprados pelo Pará ou nunca chegaram ou não funcionaram. Vários hospitais foram erigidos no Estado do Rio, mas na maior parte estão vazios, sem equipamento e sem pessoal médico. “Vamos sofrer atrasos”, disse Edmar Santos, secretário de saúde do Estado, no mês passado. “O número de infectados é enorme, mais do que nossa capacidade e, mesmo se construirmos mais hospitais, não há médicos e equipamentos suficientes”.

Mais de três quartos da população do Brasil - quase 160 milhões de pessoas - dependem do sistema público de saúde, um dos maiores do mundo. Conhecido como SUS, é considerado o mais forte sistema da América Latina, Mas durante a década passada, com a economia paralisada e o financiamento para a saúde secando, o número de leitos de hospitais caiu vigorosamente, para menos dois para cada grupo de mil pessoas - um número muito menor do que em países vizinhos como Chile e Argentina.

Durante semanas já havia sinais de que o Brasil teria dificuldade para expandir sua capacidade. Mesmo antes da chegada do vírus, grande parte dos leitos de UTI já estavam ocupados. Logo os governadores estaduais, autoridades de saúde e hospitais começaram a se queixar de que os fornecedores chineses de suprimentos médicos cancelaram as encomendas feitas depois de os Estados Unidos confiscarem os equipamentos.

As autoridades americanas disseram que não tinham nada a ver com as compras canceladas. “Os Estados Unidos não compraram nem bloquearam qualquer material ou equipamento da China destinado ao Brasil”, escreveu no Twitter o embaixador americano no Brasil, Todd Chapman. “Notícias contrárias são completamente falsas”.

Com falta de equipamento e médicos, os sistemas de saúde por todo o Brasil começaram a se render. “Estamos vivendo duas guerras”, disse Cassio Espírito Santo, subsecretário de saúde do Amazonas. “Uma é contra a covid-19 e a outra para obter equipamento e suprimentos médicos”.

À medida que a ambulância seguia às pressas por Manaus, Alessandra Said presenciava essa nova guerra. Por rádio, ligou para o Hospital João Lucio perguntando se podia levar mais um paciente. Temia já saber a resposta. Não há leitos, disseram. O hospital está totalmente cheio. Ela desligou o rádio, olhou para o paciente e rezou para ele resistir um pouco mais.

O olhar do homem era o pior. Ver o desespero no seu rosto quando disse que os hospitais estavam cheios foi algo difícil de suportar. Tentou consolá-lo, segurando suas mãos, tranquilizando e dizendo que ela continuaria buscando e que encontrariam alguma coisa.

O trabalho tinha se tornado tão intolerável às vezes que era difícil lembrar que ser médica foi tudo o que desejou na vida. Sabia que não seria fácil trabalhar num sistema de saúde tão frágil como o de Manaus. Isolado, sem financiamento, assolado pela corrupção, é o único sistema num Estado duas vezes o tamanho do Texas que se encarrega de procedimentos complicados. As pessoas viajam por toda a floresta tropical com destino a Manaus em busca de tratamento. Os hospitais sempre estão no limite da sua capacidade. Assim, quando as primeiras notícias da covid-19 surgiram na cidade, Said sabia que haveria problemas. Só não sabia até que ponto.

Ela não previu que a sua mãe de 78 anos contrairia a doença, teria uma febre de 40 graus e que acabaria cuidando da mãe na sala de casa usando uma roupa de proteção. Ela não sabia que os enterros em Manaus triplicariam, ou que as 35 ambulâncias da cidade logo estariam tão sobrecarregadas que algumas chamadas de emergência simplesmente não seriam atendidas.

Alessandra viu guardas na frente dos hospitais proibindo a entrada de ambulâncias. Familiares acompanhando pacientes batiam nas portas do pronto-socorro, gritando e chorando, pedindo em vão por ajuda. “Hoje é o dia da nossa maior aflição”, disse Ruy Ibrahim, diretor dos serviços de ambulâncias da cidade. “Nossos equipamentos, nossas macas e tubos de oxigênio, é o preço a pagar para um hospital receber os pacientes”.

“São tantas as pessoas morrendo em casa”, disse o médico da UTI Pietro Pinheiro Alves, começando a chorar. “Algumas não conseguem nenhuma ajuda”.

Alessandra Said sempre quis acreditar que encontraria uma saída, mesmo com os hospitais rejeitando doentes. Para um paciente, a busca dura três horas, para outros, quatro horas”.

O hospital só aceitou admitir uma mulher quando disse aos médicos que o problema dela era cardíaco e não covid-19. Quando os testes mostraram que ela estava com a doença, Alessandra implorou para os médicos e para Deus: por favor, não a recusem. O hospital finalmente encontrou espaço. Três horas depois a mulher faleceu.

Agora ela e o senhor de 78 anos tentavam outro hospital. E ainda desta vez, quando chegaram ao hospital Platão Araújo, suas esperanças caíram por terra. O pronto-socorro estava lotado de ambulâncias. De maneira nenhuma havia espaço. Mas ela entrou e chamou um médico: “Este paciente está com a covid-19, mas existe a possibilidade de ele ter também um problema neurológico”, ela disse. “Veja, você sabe que não temos mais leitos”, ele respondeu. O médico só poderia arranjar um espaço se ela cedesse a maca da ambulância.

Alessandra não sabia o que fazer. Sem a maca não poderia atender alguma outra chamada de emergência. E levaria horas até ela achar uma outra. Mas ao lado dela, neste momento, havia alguém que poderia ser salvo. Ela cedeu a maca. O paciente foi levado por um longo corredor, seu braço direito caído. Alessandra voltou à ambulância, pegou o telefone e começou a fazer chamadas, esperando encontrar uma maca. A ambulância voltou às ruas. Uma busca se encerrava e outra estava começando./Tradução de Terezinha Martino

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