Alex Silva/Estadão
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No Congresso, Butantã diz que "politização" sobre imunização cria clima contrário às vacinações

Órgão federal e instituto paulista voltam a divergir sobre a interrupção dos testes da Coronavac, retomados na quarta-feira

Mateus Vargas / Brasília, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2020 | 13h49

BRASÍLIA - Em audiência realizada no Congresso Nacional nesta sexta-feira, 13, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Butantã voltaram a divergir sobre o acerto ou não de interromper testes da Coronavac, imunizante desenvolvido pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o laboratório paulista.

O diretor do Butantã, Dimas Covas, disse que a "politização" sobre este e outros episódios que envolvem a imunização cria clima contrário às vacinações. "Todas as questões relativas às vacinas obviamente têm impacto na população", afirmou ele, citando queda em coberturas de vacinação de poliomielite e sarampo.

Covas disse que "correr para essa vacina" é "fundamental". Além disso, pediu "bom senso" em decisões sobre a pandemia. "Vivemos tempos excepcionais, de urgência e calamidade. Nada melhor do que o bom senso em favor da vida. Obviamente que não deixaremos sem esclarecimento nenhum evento, nenhuma reação adversa que seja suficiente para interromper ou causar alguma dificuldade ao estudo", disse.

A agência anunciou a suspensão na noite de segunda-feira, 9, e o retorno dos testes na tarde de quarta, 12, após análise de um "evento adverso grave inesperado". O governo paulista negou relação do caso com a vacinação. O mal-estar entre a Anvisa e o instituto se agravou após o presidente Jair Bolsonaro tratar, nas redes sociais, a interrupção como uma vitória pessoal sobre o governador João Doria (PSDB).

No Congresso Nacional, o presidente da Anvisa, contra-almirante Antonio Barra Torres, afirmou que a interrupção dos estudos foi "técnica" e defendeu a autonomia e isenção do órgão. "Interferência política na agência, são duas palavras: não há."

O militar voltou a dizer que recebeu informações incompletas do Butantã. Segundo Barra Torres, não bastava a palavra do instituto para esclarecer o caso, mas do comitê internacional de segurança. "Não restava ao decisor nenhuma outra conduta na noite de segunda-feira, diante de informações incompletas, outra atitude senão parar o processo, sob risco de que outro cidadão fosse atingido pelo mesmo problema", disse.

Já o diretor do Butantã afirmou que não acionou antes o comitê internacional, pois a análise do centro de pesquisa que conduzia o caso era suficiente. "Essa é a conclusão importante, que foi oferecida à Anvisa. Um evento não relacionada ao produto", disse. 

Os parlamentares pediram que Anvisa e Butantã enviem ao Congresso a troca de informações feitas entre os órgãos, para avaliar se houve alguma falha.

Comunicação falha

Butantã e Anvisa também divergiram sobre a forma como a interrupção dos estudos foi comunicada. O presidente da agência reguladora disse que não houve falha. Para ele, o que pode gerar "resistência" na população sobre as vacinas não é a suspensão do estudo, mas dar tratamento diferenciado a uma pesquisa específica. "O que entendo que pode gerar resistência na população é não tratar rotina como rotina, tratar como caso especial. Interrupção de protocolo de desenvolvimento vacinal é rotina", disse Barra Torres.

Já o diretor do instituto reclamou do aviso na noite de segunda-feira, 9. Ele afirma que, mesmo notificado, só soube da decisão pela imprensa, pois "não existe funcionário de plantão" para acessar este tipo de informação à noite. 

Para Covas, a comunicação poderia ter sido feita na manhã seguinte, quando havia reunião marcada entre o instituto e a agência. "Aí já havia feito toda a comunicação de imprensa, politização, manifestação. Isso obviamente não é positivo. É negativo", disse ele. 

O diretor do Butantã disse que não houve "efeito prático" por causa da interrupção. "Efeitos maiores foram políticos, decorrente da forma como aconteceu, no momento que aconteceu."

Guerra política

Dimas Covas voltou a afirmar que espera apoio do governo federal na compra de doses da Coronavac. Segundo ele, o impacto financeiro será "imenso" sem o investimento do Ministério da Saúde. 

Ele lembrou que houve acordo preliminar com o Ministério da Saúde sobre a compra das vacinas. "Esperamos que esse interesse permaneça." No fim de outubro, no entanto, Bolsonaro desautorizou o ministro Eduardo Pazuello e disse que a parceria não será feita. 

A "guerra política" sobre as vacinas também pressiona a Anvisa. O presidente da agência reconheceu que a disputa existe, mas negou impacto no órgão. Parte das críticas à Anvisa, no entanto, ocorrem justamente porque Barra Torres esteve em ato pró-governo, sem máscara, ao lado de Bolsonaro, em 15 de março. A manifestação foi marcada por aglomerações, pedidos de intervenção militar e provocações ao Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF). 

No momento em que isenção da agência é questionada, Bolsonaro indicou na quinta-feira, 12, o nome do tenente-coronel Jorge Luiz Kormann à direção do órgão. Nas redes sociais, o militar endossa manifestações contrárias à Coronavac, OMS e outras teses reprovadas dentro da própria Anvisa. A aprovação do novo diretor exige aval do Senado.

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