TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

No futuro, os cuidados devem focar o bem-estar, e não as doenças

Promover um acesso mais inclusivo à saúde e deixar de enxergar o envelhecimento como um problema estão entre os desafios

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

30 de outubro de 2021 | 05h00

Qual será o retrato do sistema de saúde no futuro? Além dos avanços tecnológicos, o setor terá de responder a mudanças em curso no Brasil e apresentar soluções para demandas históricas cada vez mais imperativas.

Uma das transformações é o acelerado envelhecimento da população brasileira. Em 2100, 40% da população será composta por idosos, de acordo com estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Isso trará impactos ao sistema de saúde do País, principalmente em relação ao seu custo.

“A questão do custo de saúde é um problema mundial. Um estudo apontou que, em 2040, o gasto mundial agregado de saúde vai ser de 25 trilhões de dólares anuais. Isso representa um aumento de 150% em relação ao gasto atual e um crescimento anual composto de 4%, o dobro do que as economias devem crescer”, afirma Fernando Silveira Filho, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para a Saúde (Abimed). “São dados irrefutáveis e que mostram que o sistema de saúde tal qual está colocado hoje não vai se sustentar.”

Nesse cenário, um passo importante é rever a forma como foi estruturado o sistema no País, o que envolve a capacitação das equipes de atendimento. “Dentro da saúde, o idoso sempre foi tratado como um problema, porque a característica dele não cabe no arcabouço que foi pensado. Toda a lógica ou a forma com a qual olhamos o envelhecimento é pensada como se fôssemos um país jovem. Eu não tive no curso um único dia de geriatria ou cuidados paliativos”, afirma Martha Oliveira, diretora executiva da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp).

Atender uma população mais velha exigirá profissionais mais aptos a lidar com as limitações naturais dos pacientes, bem como dotados da empatia necessária. “Precisamos capacitar os profissionais para um sistema de saúde adequado, mas o tempo já foi. Temos de fazer para ontem e entender a inserção do idoso no nosso país”, diz Martha, que também é ex-diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

É preciso também resolver a dívida histórica da falta de acesso. “Falamos de futuro, mas temos problemas seriíssimos a serem resolvidos. Para termos uma população mais saudável, não podemos tratar a saúde como um bem de luxo, e, sim, como algo inclusivo”, ressalta Vera Valente, diretora executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde). “O grande desafio para uma população mais saudável é o acesso, e isso envolve escolhas. Têm de existir orçamentos, sejam públicos ou privados, direcionados para trazer mais pessoas para dentro do sistema.”

De forma mais global, especialistas também consideram importante promover a reorientação dos objetivos da área da saúde: sai de cena o foco na doença e ganha destaque a atenção ao bem-estar. “Os holandeses que nascem hoje tem expectativa de vida média de 120 anos; isso se construiu com a capacidade de distribuir bem-estar social. Espero que tenhamos uma gota de Holanda distribuída para cada cidadão do planeta”, afirma Dirceu Barbano, consultor em regulação e saúde e diretor científico do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp).

Isso envolve uma abordagem de saúde além daquela atrelada a hospitais, clínicas e laboratórios. O tema deve estar na agenda das mais diversas pastas governamentais, o que inclui o planejamento de cidades acessíveis a todos – de crianças de colo a idosos com restrições de mobilidade – até ações de combate à crise climática e investimento em uma educação com mais equidade. “Temos de entender que a saúde não se faz e não se esgota nela própria. Precisamos compreender que o bem-estar se constrói ao longo do tempo e tem uma grande relação com os aspectos econômicos e sociais”, diz Dirceu.

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