‘No momento de maior sofrimento profissional e perdas, eu pude gerar uma vida’
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‘No momento de maior sofrimento profissional e perdas, eu pude gerar uma vida’

Médico conta como o nascimento do filho durante a pandemia mudou a rotina e a forma de enxergar a profissão

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 07h30

No dia em que descobriu que a mulher estava grávida, em maio de 2020, o médico Raphael Bastos Oliveira se emocionou. “Comecei a chorar de forma compulsiva, por mil motivos”, relembra. Dez meses depois, ele ainda fica com a voz embargada ao falar sobre a experiência de ter gerado uma vida em meio à pandemia do novo coronavírus, que já deixou mais de 600 mil mortos no Brasil.

Oliveira dava plantões em alguns hospitais privados no Rio de Janeiro quando a covid-19 chegou ao País. A percepção do médico é de que o cenário foi ficando gradualmente mais  preocupante até as primeiras semanas de março. Após alguns casos serem identificados no Brasil, a deterioração foi rápida. “Em março de 2020 eu trabalhava 90 horas por semana no CTI (Centro de Terapia Intensiva). Quando a pandemia iniciou, essas 90 horas pareciam 180, porque o trabalho duplicou, se tornou muito mais cansativo fisicamente e mentalmente”, relata.

A rotina do médico era composta por plantões de 24 horas às segundas e quartas-feiras, mais 36 horas entre sexta e sábado. Folgas apenas nas terças, quintas e um domingo a cada 15 dias. No início, Oliveira ainda estudava para passar na residência em anestesiologia, mas os planos foram postergados para 2021 com o aumento na carga de trabalho.

Em abril, ele se disponibilizou a passar a atender pacientes do SUS no Hospital de Campanha Lagoa-Barra, iniciativa liderada pela Rede D’Or São Luiz, onde trabalhava no Rio de Janeiro. Em um dia normal, ele saía de casa às 6h40, atendia entre 6 e 8 pacientes no período da manhã, ligava para as famílias no período da tarde e fazia uma nova rodada de assistência à noite. Isso tudo em meio ao atendimento e à chegada de novos pacientes diariamente.

“Falar com as famílias era o momento mais difícil e crucial, porque elas estavam muito desabastecidas de informação e com muito medo. Não é a mesma coisa se você não está vendo o familiar, para entender e materializar o nível de gravidade da doença”, conta ele. “Eu voltava para casa no dia seguinte destruído. Por isso, eu intercalava um dia de trabalho e um de folga, para que eu pudesse me restabelecer dessa pancada emocional e física.”

Por volta de um mês depois de começar a rotina intensa, Oliveira descobriu que seria pai. “Foi algo mágico, transformador, que veio para a gente refletir muito sobre a vida”, diz. “No momento de maior sofrimento profissional, de muitas perdas – infelizmente eu vi muitas pessoas morrerem –, pude gerar a vida, ver uma criança nascendo.”

Martin chegou

Pouco depois de descobrir que Isabela estava grávida, Oliveira testou positivo para covid. Ainda sem muitas informações sobre a doença, no primeiro semestre de 2020, o médico conta que tinha muito medo de contaminar a mulher e causar danos ainda desconhecidos à saúde dela e do bebê, o que acabou não acontecendo na época. “Sabia que não poderia estar próximo da minha mulher por vários motivos. Um porque ela estava grávida e eu queria acompanhar esse desenvolvimento, e outro porque ela era minha sanidade mental junto com a minha família naquele momento. Era uma gangorra de sentimentos e preocupações muito grande.”

Martin nasceu em 28 de dezembro de 2020, Oliveira passou na residência em anestesiologia e hoje o hospital de campanha em que ele trabalhou não existe mais. De um ano e meio tão intenso, o médico leva a dor das perdas que testemunhou, mas também novas alegrias. “Foram momentos difíceis, mas que nos engrandeceram, nos uniram como família. E para mim profissionalmente foi muito gratificante poder estar dentro do olho do furacão para ajudar com a minha profissão e marcar isso historicamente na minha vida profissional.”

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