CLAUDIO GIOVANNINI/EFE/EPA
CLAUDIO GIOVANNINI/EFE/EPA

No primeiro dia de confinamento geral, surge uma questão: os italianos conseguem seguir as ordens?

Itália decretou quarentena nas regiões de Milão e Veneza e isola 16 milhões de pessoas; a medida representa o esforço mais abrangente fora da China para impedir a disseminação do coronavírus. O bloqueio deve durar até o dia 3 de abril

Jason Horowitz e Emma Bubola, The New York Times

09 de março de 2020 | 16h00

ROMA - O primeiro-ministro Giuseppe Conte encerrou a entrevista coletiva às 14h15, anunciando o confinamento extraordinário do norte da Itália com um apelo que outros chefes de Estado talvez não se sintam obrigados a fazer.

“Precisamos entender que todos devemos nos policiar e que não podemos desobedecer a essas medidas”, insistiu ele nas primeiras horas do domingo. “Não devemos nos arriscar nem tentar ser espertos”.

Conte tinha acabado de decretar uma série de medidas que representavam a maior reação contra o surto do novo coronavírus no mundo ocidental, restringindo os deslocamentos de cerca de um quarto da população italiana e comprometendo sua economia.

Mas, diferentemente da China, onde o surto começou, a Itália é uma democracia, e de imediato se questionou se o governo conseguiria impor as novas regras - e se os italianos realmente as obedeceriam.

“Somos a nova Wuhan”, disse Elena Lofino, 39 anos, que trabalha em um shopping na região da Lombardia, agora confinada, referindo-se à cidade chinesa de 11 milhões de habitantes onde se acredita que o vírus tenha se originado.

Passeando com amigas, Lofino disse que achava que as medidas faziam sentido. “Será um grande sacrifício”, disse ela, “mas vamos aceitá-lo”.

Horas depois que o primeiro-ministro anunciou as restrições, o número de mortos pelo vírus na Itália aumentou mais de 50% em um único dia, de 233 para 366 - o maior número oficialmente registrado em qualquer país fora da China. A Itália tem o pior surto da Europa, com mais de 7.300 infectados.

Muitas pessoas, entre elas Conte, apelaram para que os italianos deixassem de lado sua tendência à furbizia, palavra que designa o tipo de astúcia ou inteligência normalmente canalizada para contornar a burocracia e as leis inconvenientes.

A furbizia é, sem dúvida, um traço de caráter abrangente, muitas vezes atribuído aos italianos pelos próprios italianos.

No domingo, a palavra parecia estar na cabeça de todos, enquanto as autoridades repreendiam viajantes que correram para os trens que deixavam a Lombardia antes que o decreto entrasse em vigor e os especialistas em saúde imploravam para que a população cumprisse a lei e agisse com responsabilidade.

Os feeds das redes sociais italianas no domingo estavam cheios de cantores famosos e personalidades da mídia engajados em uma campanha contra as interações sociais.

“Você precisa ficar em casa!”, a médica Barbara Balanzoni disse em um vídeo que viralizou. Ela informou que não havia respiradores suficientes para ajudar as pessoas que ficaram doentes por causa do vírus.

“Ainda tem muita gente andando por aí”, protestou Balanzoni.

Quando os museus se fecharam em todo o país, o ministro da Cultura, Dario Franceschini, agradeceu “os muitos protagonistas da música, cinema e show business” que promoveram nas mídias sociais a hashtag “eu vou ficar em casa”.

“É uma mensagem muito importante para a nossa juventude”, escreveu ele no Twitter.

Em Roma, fora das “zonas vermelhas” confinadas mais ao norte, as autoridades recomendaram que as pessoas limitassem seus deslocamentos ao que seria “estritamente necessário”. Valeria Graziussi, napolitana que mora em Roma, disse que ela e suas amigas decidiram “fazer um experimento”.

Na tarde de domingo, ela saiu para tomar um café no Sant'Eustachio, um dos cafés mais conhecidos da cidade, sempre lotado. “Você quase nunca fica no balcão por mais de trinta segundos”, disse ela.

Ainda assim, Graziussi enfrentou filas para ser atendida e, portanto, considerou o experimento um sucesso.

“Não estamos tão apavorados assim”, disse seu amigo Davide d'Andrea, dando de ombros.

O decreto prevê três meses de possível prisão para pessoas que não observam algumas de suas disposições, entre elas as que proíbem reuniões e as que restringem o deslocamento de pessoas cujos testes para o vírus deram positivo.

As autoridades italianas adotaram algumas das medidas mais agressivas para impedir a propagação do vírus. Cancelaram voos da China em janeiro, impuseram quarentena a cidades inteiras em fevereiro e, agora, limitaram severamente os deslocamentos em toda a Lombardia (onde fica Milão, a potência econômica do país), bem como em áreas de outras regiões próximas e cidades icônicas, como Veneza.

Críticos disseram que os apelos ao dever cívico foram minados pela confusão. Segundo eles, as mensagens contraditórias do governo e das autoridades das regiões do norte do país sobre o que as pessoas podiam fazer e para onde podiam ir não estavam ajudando. Eles também criticaram o governo nacional em Roma por uma esquizofrenia que oscila entre alertas que ordenam que a população deixe de fazer tudo e mensagens tranquilizadoras que garantem que basta lavar as mãos.

Embora Conte tenha dito que os italianos são “obrigados” a permanecer nas áreas demarcadas do norte, a menos que tenham permissão para passar pelos postos de controle da polícia, a autoridade lombarda responsável pela resposta da região à crise disse que o confinamento não era assim tão rigoroso.

Giulio Gallera, principal autoridade da área de saúde da região da Lombardia, disse em um post no Facebook que o decreto assinado durante a noite por Conte havia gerado “dúvidas” entre os cidadãos. Gallera sugeriu que, para preservar a economia do país, os cidadãos deveriam se deslocar para trabalhar. E disse que o governo nacional deveria esclarecer qualquer confusão sobre o assunto.

Matteo Salvini, líder do partido da oposição, fez eco ao sentimento. “Clareza, clareza, clareza!”, ele disse em um comunicado. “Quem pode fazer o quê? Para onde você pode ir? O que você pode trazer?”.

Nos dias que antecederam o decreto, idosos dos arredores da cidade de Zorlesco, hoje em quarentena, brincaram dizendo que seus amigos muitas vezes escapavam às ordens e enganavam os postos de controle da polícia, pegando estradas antigas para ir ao bar tomar um drinque fora da área confinada.

Mas as autoridades italianas certamente não acham nada disso engraçado e perderam a paciência com qualquer manifestação de furbizia.

Nas regiões do sul do país, os governadores dizem que qualquer pessoa que chegue das áreas confinadas do norte deve ficar em quarentena.

Giuseppe Ippolito, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas Lazzaro Spallanzani, em Roma, declarou na televisão que “as pessoas que fugiram na noite passada são um risco potencial para o país”. Ele insistiu que essas pessoas deveriam entrar em contato com os serviços de saúde, relatar sua situação e “estar prontas para um eventual isolamento”.

Autoridades da região do Lácio, onde o governador disse no sábado que havia contraído o vírus, postaram no Facebook fotos de ruas e praças movimentadas de Roma com a legenda #nãopodemosfazerisso.

No clássico estudo que Luigi Barzini escreveu em 1964 sobre seus compatriotas, “Os italianos”, ele atribuiu o valor reputado à furbizia ao hábito italiano de ser conquistado e governado por uma longa fila de estrangeiros e pretendentes odiados, de Napoleão aos Habsburgo.

“Os italianos inventaram maneiras de derrotar o regime opressivo na surdina”, escreveu Barzini. “Como não podiam proteger sua liberdade nacional no campo de batalha, eles lutaram arduamente para defender a liberdade do indivíduo e de sua família, a única liberdade que conseguiam compreender”.

O escritor comparou as ordens impostas por esses líderes às “barreiras de uma corrida de obstáculos” na qual os italianos provam sua velocidade. As leis, disse ele, se tornaram um mal necessário, mesmo que só para “proporcionar o prazer de burlá-las”.

“Como alguém poderia burlar as leis se elas não existissem?”, escreveu.

Este é exatamente o tipo de pensamento que Conte pediu para os italianos evitarem. “Precisamos proteger nossa saúde”, indicou ele no domingo, “e a de quem nós amamos”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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