No século 20, vacinas reduziram em mais de 99% os casos no mundo
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No século 20, vacinas reduziram em mais de 99% os casos no mundo

Comunidade científica defende o uso exclusivo do imunizante injetável por ser mais eficaz e seguro

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2022 | 07h30

Apesar de a a poliomielite afetar a humanidade desde pelo menos o antigo Egito, as primeiras epidemias remontam ao fim do século 19. Décadas de estudo mais tarde, em 1950, surgiram dois imunizantes para combater o vírus causador da paralisia infantil.

O americano Jonas Salk e o também americano de origem polonesa Albert Sabin foram os inventores das duas vacinas, que receberam o sobrenome de cada um deles. O uso dos dois imunizantes diminuiu em mais de 99% os diagnósticos da enfermidade no mundo. Os casos despencaram de 350 mil, em 1988, para 29, em 2018, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A comunidade científica continua a pesar as vantagens e desvantagens dos dois produtos. Atualmente, porém, a balança pesa a favor da Salk.

Os resultados dessa vacina foram apresentados ao mundo em 1955, quando Jonas anunciou os efeitos de um imunizante injetável, produzido com o poliovírus morto e aplicado em mais de 1,3 milhão de crianças. Em um teste randomizado e duplo-cego, os participantes foram aleatoriamente designados para o grupo controle ou o imunizado. O produto revelou-se de 80% a 90% eficaz contra a poliomielite e foi aprovado pelo governo americano no mesmo dia.

Albert, entretanto, preferiu outro caminho. O pesquisador partiu para o desenvolvimento de uma versão oral da imunização, utilizando um vírus vivo e enfraquecido – assim como havia feito Hilary Koprowski, um pesquisador polonês radicado nos Estados Unidos que  poderia ter sido o grande pioneiro da imunização contra a pólio. Mas o imunizante que ele apresentou ao mundo em 1948 – o pesquisador pingou as gotinhas com poliovírus tipo 2 vivo e enfraquecido na própria língua – não recebeu aprovação do governo e, em seguida, acabou eclipsado pelos sucessos de Sabin e Salk.

O sucesso da vacina oral chegou em 1959, quando Sabin apresentou a sua descoberta a autoridades de saúde soviéticas, que estavam interessadas em uma alternativa mais barata ao imunizante de Salk. O pesquisador passou anos estudando e atenuando os três tipos de poliovírus para que fossem eficazes na indução de imunidade à poliomielite, mas fracos o suficiente para não desencadear a doença. Sua vacina oral foi administrada a 10 milhões de crianças soviéticas, mas sem nenhum grupo de controle para comparação, como fizera Salk. Em 1960, o produto foi aprovado também nos Estados Unidos.

Com duas opções no mercado, o governo brasileiro fez a sua escolha. “Optou-se pela vacina oral por dois motivos. Em primeiro lugar, pela facilidade de uso. Uma pessoa não precisava ter nenhum grande treinamento para aplicar duas gotinhas na boca de uma criança. Em segundo, pelo custo, porque a Salk precisa de injeção e treinamento”, recorda-se o epidemiologista José Cássio de Moraes, responsável pela execução da campanha contra a pólio no Estado de São Paulo na década de 1980.

Atualmente, o Plano Nacional de Imunização (PNI) recomenda a aplicação de três doses da Salk no primeiro ano de vida da criança, mais duas de reforço da Sabin aos 15 meses e aos 4 anos de idade. Diversos especialistas, no entanto, hoje advogam pelo uso exclusivo da versão injetável. Isso porque, mesmo enfraquecido, o vírus da Sabin está vivo. Quando a criança imunizada evacua, o poliovírus vai para o esgoto e pode sofrer mutações ao interagir com outros micro-organismos, tornar-se mais forte e contaminar indivíduos não imunizados. “Uma vacina oral em uma população com baixa cobertura vacinal pode gerar alguns casos de pólio, ainda que poucos”, afirma Moraes.

“As vacinas inativadas são as de preferência hoje no mundo. O objetivo da OMS é suspender o uso delas (via oral) até 2023 a partir de 2026”, concorda Sheila Homsani, diretora médica da Sanofi Vacinas. O pediatra Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, faz coro: “As crianças que ficam paralíticas hoje são muito mais consequência do uso da vacina oral do que pelo vírus natural. O mundo precisa migrar para a vacina injetável”, argumenta o médico.

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