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Amanda Perobelli/ Reuters
Amanda Perobelli/ Reuters

No Senado, Queiroga cita 'dificuldade' para entrega de 2ª dose da Coronavac

Sem entrar em detalhes, ministro diz que irá divulgar nota técnica sobre a aplicação da vacina neste cenário; Butantan confirma que parte da remessa prevista até o fim deste mês vai ficar para o início de maio

Mateus Vargas e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 13h46
Atualizado 26 de abril de 2021 | 19h21

BRASÍLIA - O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse nesta segunda-feira, 26, que há preocupação sobre a falta da 2ª dose da vacina Coronavac. Em audiência pública no Senado, ele citou atrasos na entrega de novos lotes do imunizante contra a covid-19 envasado pelo Instituto Butantan. Sem entrar em detalhes, o ministro disse que irá divulgar nota técnica sobre a aplicação da vacina neste cenário.

No fim de março, o governo federal passou a orientar que não era mais preciso reservar metade dos lotes da Coronvac para garantir a segunda dose. No último dia 13, a Saúde disse que mais de 1,5 milhão de pessoas não retornaram para a receber o complemento da vacinação dentro do prazo. "Agora, em fase de retardo do insumo, há dificuldade com essa segunda dose", disse o ministro. Segundo Queiroga, nova entrega da Coronavac só deve ocorrer em 10 dias.

O ministro citou decisão da Justiça para garantir o estoque da vacina complementar em João Pessoa (PB). "Só que se todos judicializarem, não tem doses para todo mundo. Não é a judicialização que vai resolver esse problema", declarou. 

O ministério tem cobrado que municípios se organizem para garantir que o intervalo entre as aplicações das vacinas da covid-19 seja respeitado. Segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), divulgado no último dia 16, cerca de 1.426 municípios não reservaram a segunda dose da vacina. A entidade recebeu cerca de 3 mil respostas sobre o tema.

Na mesma reunião, o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, disse que o ministério tem se esforçado para equilibrar o envio de vacinas destinadas para cada etapa da imunização. "Estamos monitorando aqueles Estados com déficit da segunda dose. Hoje o quantitativo de segunda dose que estamos 'devendo' é relativamente pequeno", afirmou Medeiros. "O quantitativo para repor está dentro do prazo vacinal (da segunda aplicação)", completou.

Queiroga também disse aos senadores que mudanças feitas por prefeitos e governadores na ordem de prioridades da vacinação atrapalham a campanha nacional contra a covid-19. O ministro pediu respeito à lista elaborada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). "Ocorre que na 'bipartite' (reunião entre Estados e municípios), às vezes se muda orientação para incluir um grupo ou outro. Isso termina por alterar a harmonia do nosso programa. Atrapalha o processo de vacinação", disse o ministro. 

Segundo Queiroga, não há razão para criar polêmica sobre a diferença entre vacinas distribuídas e já utilizadas, pois muitas foram reservadas para a 2ª aplicação ou estão em rota de entrega até os municípios. "Tudo o que não precisamos nesse momento é polêmica", disse. Essa diferença tem sido usada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para criticar o desempenho de governadores de prefeitos. 

O secretário-executivo da Saúde, Rodrigo Cruz, disse que o grupo prioritário (cerca de 77,2 milhões de pessoas) deve receber a segunda dose até setembro. Na primeira quinzena de junho, todo esse grupo já terá recebido a primeira vacina, segundo Cruz. Assim, a partir desse período há expectativa de que o restante da população já comece a receber as vacinas.

Segundo Cruz, o ministério negocia com Pfizer e Janssen estoque para campanhas de 2021 e do próximo ano. Ainda de acordo com ele, 2,5 milhões de doses da Pfizer devem ser entregues em maio.

O Butantan confirmou o atraso no envio das doses da Coronavac. Das 46 milhões de unidades cuja entrega estava prevista até abril, 4,6 milhões não poderão ser ofertadas no prazo e ficarão para o início de maio. A mudança no cronograma se deve à demora no envio do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) vindo da China. Prevista para desembarcar em 9 de abril, a matéria-prima chegou ao Brasil no dia 19. "Os insumos recebidos pelo instituto no último dia 19/4 já foram envasados e um novo lote com mais 5 milhões de vacinas será entregue a partir do próximo dia 3/5, após passarem pelo processo de controle de qualidade", informou o Butantan.

O instituto reafirmou a previsão de entregar um total de 100 milhões de doses da Coronavac até o fim de agosto. Questionado sobre os impactos do atraso na aplicação de segundas doses, o Butantan disse ainda que o ministério é o "responsável por planejar e coordenar a campanha de vacinação contra a COVID-19 em todo o Brasil" e a definição do "esquema vacinal, definição de públicos-alvo e de intervalos entre as doses". Procurada pela reportagem, a Saúde não respondeu. 

Uso de máscaras

O ministro foi questionado por senadores sobre as aglomerações promovidas pelo presidente Jair Bolsonaro, além da falta de campanha eficaz de comunicação do governo federal sobre o uso de máscara e o distanciamento social. Na sua resposta, Queiroga ignorou o comportamento do presidente e disse que as campanhas devem ser ampliadas. "A gente ainda não conseguiu convencer a população brasileira em relação aos malefícios dessas aglomerações fúteis", afirmou. 

Na semana passada, o ministro acompanhou Bolsonaro em agendas em Manaus (AM) e Belém (PA). O presidente desrespeitou o distanciamento social e se aglomerou com apoiadores, mesmo após o governo do Amazonas alertar sobre risco de nova alta da doença no Estado.

Queiroga chegou a citar que o senador Izalci Lucas (PSDB-DF) andava de bicicleta, sem máscaras, no momento da audiência, mas ponderou que não era uma crítica. O senador, então, disse que há "muita dúvida" sobre a possibilidade de dispensar a máscara ao praticar esportes em locais abertos. "A gente não sabe, porque não há uma campanha, como deveria ter", disse Izalci. Queiroga respondeu que há "controvérsia" sobre a "real utilidade" da máscara nessas situações, mas que o ministério irá editar um protocolo como se comportar em transportes públicos, por exemplo.  

A reunião no Senado ocorreu na véspera da escolha de presidente e relator da CPI da Covid-19. Queiroga esteve na sessão por cerca de 1 hora. Em seguida, deixou seus auxiliares respondendo aos questionamentos dos parlamentares. Presidente da comissão mista da covid-19, senador Confúcio Moura (MDB-RO) disse que o ministro teve de deixar o debate para se reunir com a Pfizer. Ao deixar a audiência, Queiroga afirmou que iria a uma agenda no Palácio do Planalto. O governo negocia a compra de 100 milhões de vacinas para a covid-19 da empresa para a campanha de 2022. 

Queiroga afirmou que há uma redução de casos e óbitos da covid-19 no Brasil, mas não mostrou dados sobre o cenário da pandemia. Ele reconheceu que os números ainda são "muito elevados". O ministro também disse que a escassez de oxigênio medicinal "não tem sido tão forte como foi há 1 mês" e prometeu a entrega de mais medicamentos usados para a intubação de pacientes graves da covid-19. 

Cronograma das vacinas

O ministro afirmou que não reduziu metas de vacinação, mas que retirou do cronograma de entrega as previsões sobre doses que não receberam ainda o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como a indiana Covaxin e a russa Sputnik V. No sábado, 24, o ministério voltou a apresentar esse calendário após mais de 1 mês e por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). A atualização do documento tem previsão de 22% de doses a menos ao primeiro semestre. 

Segundo Queiroga, o ministério mantém diálogo com empresas e embaixadas para conseguir a compra de novos imunizantes. Ele citou que há negociação com marcas chinesas, mas disse que não pode dar detalhes sobre as conversas. 

O ministro também declarou que há conversas "técnicas" sobre a viabilidade de produzir vacinas contra a covid-19 em fábricas de imunizantes para animais. "É uma excelente alternativa". Queiroga minimizou o corte de recursos paro desenvolvimento de uma vacina nacional e disse que irá tratar sobre o tema com o ministro da Economia, Paulo Gudes, "no momento oportuno".  

Queiroga disse que irá pedir para a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avaliar a criação de um protocolo clínico para a covid-19, que trate desde casos leves aos graves. O ministro afirmou que a Saúde não irá "emitir juízo de valor sobre fármacos", no primeiro momento, pois a pasta pode ser acionada em recurso contrário à decisão da Conitec. 

O ministério deve pedir para a comissão avaliar se inclui neste protocolo desde drogas com aval da Anvisa para a covid-19, como o coquetel Regen-Cov2, além da cloroquina, que não tem eficácia para a covid-19, mas se tornou bandeira do governo Bolsonaro.

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