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No Vale do Javari, indígenas fazem 'barreira' contra avanço da covid-19

São 9.750 casos confirmados de coronavírus entre indígenas em todo País, com 202 mortes, segundo os números oficiais

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2020 | 10h01

Da casca de uma árvore amazônica é feito um chá para minimizar os impactos do coronavírus, doença cuja cura até agora não foi encontrada. Além disso, as preces para Tamakori, deus dos Kanamari, ajuda a ter um pouco de fé no futuro. A covid-19 chegou e se instalou em um dos lugares mais remotos do Brasil, o Vale do Javari, no Estado do Amazonas, na fronteira com Peru e Colômbia. Só na aldeia São Luís, perto de Atalaia do Norte, foram 19 casos positivos. E vem de antropólogos o alerta sobre o perigo desse contágio numa população que está no limite de uma região onde habitam índios isolados.

"Já temos a contaminação confirmada dos índios Kanamari, e seria um perigo se a covid-19 chegasse aos povos isolados. Existe um risco real de genocídio", alerta Lino João Neves, professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra. "Temos um caso de negligência da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, que não estabeleceu um Plano de Contingência para barrar o avanço do coronavírus e que somente agora, muito tardiamente, toma as primeiras medidas de enviar EPIs e equipamentos para as aldeias indígenas", continua.

Segundo o Boletim Epidemiológico mais recente (de 11 de julho, às 17h) da Sesai, até o momento são 9.750 casos confirmados de covid-19 entre indígenas em todo País, com 202 mortes. No Vale do Javari foram diagnosticados 152 casos atualmente e um óbito registrado pelos dados oficiais. Mas relatos de lá já informam que houve duas mortes por coronavírus: a de um ancião do povo Marubo, de 83 anos, que mesmo há três meses sem sair da sua aldeia foi contagiado, e uma mulher que morreu no hospital na cidade de Tabatinga enquanto esperava remoção para Manaus.

Até por esse crescimento da pandemia na região, o temor é grande. "Essa é a região do mundo que mais tem povos isolados. Se a covid-19 entrar lá, esses povos vão desaparecer, inclusive sem termos notícia de que isso ocorreu. Em tese a área seria resguardada, mas não é. Os programas de proteção foram abandonados e há um estímulo para que garimpeiros e madeireiros invadam essas áreas", explica o professor.

Lino lembra que a doença chegou às populações que vivem mais distante de Manaus tanto pelo trânsito normal da doença, com os barcos que levam mercadorias, como por pessoas que não fizeram a quarentena ao deixar a capital, como agentes de saúde e missionários. No Vale do Javari e em outras regiões no interior, a situação de hospitais é precária. "O Estado do Amazonas tem 62 municípios, mas só tem UTI em Manaus. Muitos dos médicos que atendiam nas regiões mais remotas eram cubanos, mas o Programa Mais Médicos foi abortado", diz.

Desde que a pandemia começou a tomar grandes proporções no Brasil, e Manaus, capital do Amazonas, teve um período de colapso no sistema de saúde, os indígenas começaram a receber informações sobre a nova doença e tentaram se afastar das pessoas que não são da família. "Nós fugimos para a aldeia para não pegar a doença. Explicamos para os parentes que a doença era esquisita, que poderia chegar, e que não era para visitar outras pessoas. Como ficamos na fronteira com o Peru, pedi para que não fossem lá para fazer contato", explica Varney Thoda Kanamari, uma das lideranças locais e vice-coordenador da Akavaja (Associação do Povo Kanamari do Vale do Javari).

Foram eles próprios que tentaram fazer uma barreira sanitária preliminar para conter o avanço da covid-19 no extremo oeste do Brasil. Como em muitas localidades o transporte principal é pelo rio, foi nessa rota que o coronavírus se expandiu de Manaus para Tabatinga, depois Benjamin Constant, batendo na porta do território indígena. Até chegar a Atalaia do Norte. Foi então que uma equipe da Sesai partiu para vacinar os indígenas contra gripe. "Alguns dias depois da vacinação, os parentes começaram a ficar gripados, com tosse", conta Varney.

Ele explica que um enfermeiro testou positivo e a partir daí os índios ficaram bastante preocupados. "Todo mundo correu para o mato para ficar isolado. Em duas semanas tinha gente com gripe, com dor de cabeça", diz. A equipe de saúde foi retirada da área e chegou uma outra para testar os indígenas. "No primeiro teste que fizeram, o cacique Mauro Kanamari estava infectado. Depois foi a filha dele Cristina e o Hilton, que é genro dele. Foram três casos positivos. Uma semana depois fizeram novos exames e deu mais cinco casos. A comunidade morreu", relata, usando uma figura de linguagem para mostrar o quanto o povoado ficou triste.

Além da covid-19, alguns estavam ainda com malária. A médica que acompanhou a situação receitou alguns remédios para aliviar as dores e as sensações de mal-estar, mas os índios também buscaram alternativas que costumam usar. "A gente mora na aldeia e conhece a medicina tradicional. Temos de usar isso. Começamos a nos mobilizar, chamamos nosso curandeiro, nosso pajé, para tomar um chá que fazemos. Muita gente passou mal, mas buscamos a casca de uma árvore que a gente conhece. Não posso te dizer qual, porque teria de consultar meu povo para revelar. Mas garanto que isso nos ajudou. Eu mesmo depois testei positivo. Até que com o tempo fomos melhorando", comenta Varney.

Depois de três semanas os moradores começaram a voltar e a aldeia lotou de novo. No total foram 19 casos positivos e Varney precisou conversar com cada parente para explicar a situação e tentar acalmar os ânimos. "Se fala coisas negativas, que vai morrer, não vai aguentar, ele fica muito mal e pode até cometer suicídio. Queria tocar no coração de cada um para não desistir", afirma, lembrando que tiveram então a ideia de fazer uma campanha de arrecadação de recursos para poder comprar material de pesca, facão, machado e enxada para a aldeia onde pessoas foram infectadas. "É para que os parentes possam trabalhar na roça, fazendo sua canoa. Também algumas outras coisas tipo sal, para usar no peixe."

Eles também receberam a doação de um equipamento para atender as pessoas na região do médio Javari. "Não estamos curados dessa doença, mas deixamos ela fraca. Mas meu medo é essa doença chegar pelo rio Itaquaí nos Korubo, que são índios isolados. Ou se chegar no Jarinau, no sul da terra indígena. Isso será um enorme problema", avisa Varney, ciente do perigo que ronda a região. O professor Lino João completa: "Nessa região vivem sete etnias conhecidas e que já mantêm relações frequentes com a sociedade nacional, com uma população aproximada de 7.000 indígenas. Além desses, na mesma Terra Indígena Vale do Javari existem 18 povos isolados".

Segundo o Ministério da Saúde, a Sesai enviou uma missão para cuidar das comunidades da Terra Indígena Vale do Javari, que é a segunda maior área indígena do Brasil. "Ao todo, 23 profissionais de saúde do Hospital das Forças Armadas foram reforçar o atendimento aos indígenas na região junto às Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, que já atendem a população local. Entre eles estão um médico obstetra, um endocrinologista, um cirurgião geral, um ginecologista, um gastroenterologista, um anestesista, seis médicos clínicos, oito técnicos em enfermagem e três enfermeiros", disse. O grupo ainda levou, segundo a Pasta, cerca de 70 mil itens de proteção individual e insumos médicos.

"Também foram entregues três ventiladores pulmonares e testes rápidos para diagnóstico da covid-19 ao Hospital Municipal de Atalaia do Norte e ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Vale do Javari. Os cerca de 70 mil itens incluem: 30,3 mil máscaras cirúrgicas, 16 mil toucas, cerca de 12 mil aventais descartáveis, 400 unidades de máscaras N95, 3 mil aventais impermeáveis, 540 unidades de álcool etílico 70%, 1.320 unidades de testes rápidos para COVID-19, 300 protetores faciais, 500 unidades de macacões de proteção, além de medicamentos, como paracetamol, amoxicilina, ibuprofeno, entre outros", completou. Além disso, foi inaugurada em 21 de junho uma ala exclusiva para atendimento dos indígenas com 20 leitos, inclusive com armadores para redes, algo que faz parte da cultura indígena. Ela fica na Unidade de Saúde de Atalaia do Norte, cidade que é "porta de entrada" para a Terra Indígena Vale do Javari.

Apesar da ajuda que chegou, o temor de contaminação ainda existe na região. Como os indígenas brasileiros, em sua história, tiveram pouco contato com doenças contagiosas, o organismo deles acaba sendo um pouco mais vulnerável pela falta de anticorpos. E isso é ainda pior com os povos que vivem isolados. "A vulnerabilidade também é sócio-econômica. Esse contágio com os índios isolados pode ser acidental, mas também pode ser intencional. Isso já ocorreu na história do País e não me surpreenderia que possa ser uma técnica usada agora para fazer a 'limpeza' dessa terra e acabar com a população indígena de lá", lamentou Lino, reiterando que não tem informações de que isso já esteja ocorrendo.

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