FELIPE RAU/ESTADÃO
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Nos 3 principais hospitais de SP, número de internações cai 17% em cinco anos

Houve menos 20 mil registros na soma de Hospital das Clínicas, Santa Casa e Hospital São Paulo; a explicação está na diminuição dos procedimentos eletivos (não urgentes), suspensos por falta de verba ou por readequação do serviço prestado

Fabiana Cambricoli e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 03h00

Principais unidades de referência do Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo e responsáveis pela formação de alguns dos maiores especialistas do País, os Hospitais São Paulo, das Clínicas e da Santa Casa de Misericórdia internaram, no ano passado, 20 mil pacientes a menos do que cinco anos antes.

Levantamento inédito feito pelo Estado, com base em dados do Ministério da Saúde divulgados no portal Datasus, mostra que entre 2011 e 2016 o número de doentes hospitalizados nas três unidades passou de 113,7 mil para 93,7 mil, uma queda de 17%. O dado chama ainda mais a atenção se considerado o aumento da população no período (2,9%) e o crescimento do grupo de paulistanos que perderam o plano de saúde por causa da crise econômica – fenômenos que indicam maior demanda pelos serviços públicos.

A queda nas internações é reflexo, em parte, da diminuição da realização de procedimentos eletivos (não urgentes), suspensos por falta de verba ou readequação do serviço prestado. A maior baixa foi registrada na Santa Casa, onde as internações passaram de 33 mil para 22,7 mil nos cinco anos analisados, uma redução de 31%. Desde 2014, a instituição passa por grave crise financeira, com dívida acumulada de cerca de R$ 800 milhões. No ano passado, cirurgias eletivas foram suspensas por tempo indeterminado.

Situação parecida vive o Hospital São Paulo (HSP), ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Lá, o número de pacientes internados caiu de 25,3 mil para 22,2 mil entre 2011 e 2016, diminuição de 12%. O quadro deve piorar ainda mais neste ano, com o agravamento da crise financeira da unidade.

Desde abril, a direção do hospital já havia suspendido as cirurgias e internações não urgentes por falta de recursos para a compra de medicamentos, materiais e insumos. Na ocasião, o conselho gestor informou que seriam necessários mais R$ 18 milhões por ano do governo federal para dar conta do custeio.

Desativação. Sem novos repasses do Ministério da Saúde, o HSP decidiu, no mês passado, desativar metade dos leitos da unidade. “Tivemos de juntar unidades afins para trabalhar com o orçamento que temos. Com a junção, conseguimos economizar em despesas como energia e limpeza”, explica José Roberto Ferraro, diretor-superintendente do hospital, que hoje tem aberto apenas 370 dos 750 leitos existentes.

Embora também tenha registrado queda nas internações, o Hospital das Clínicas, vinculado à Faculdade de Medicina da USP, é o que tem situação menos desfavorável. A queda no número de pacientes hospitalizados por lá foi de 3,5%, passando de 50,5 mil para 48,7 mil.

O hospital diz, no entanto, que, somados os atendimentos de todos os institutos do complexo (como o Incor), houve aumento de 7,1% nas internações feitas no período. Ressalta ainda que, desde 2012, o pronto-socorro passou por reestruturação para atender mais casos graves, com risco de vida, nos quais o tempo de internação é maior.

Já a Santa Casa informou, em nota, que a queda dos atendimentos se deve à crise financeira já “conhecida pela imprensa”. A instituição diz que retomou significativamente sua produção e realiza mais de 340 mil procedimentos por mês.

Já o diretor-superintendente do Hospital São Paulo afirma que o conselho gestor trabalha para tentar retomar os atendimentos, mas depende da liberação de mais verba federal. “Estamos fazendo nossa parte. Por exemplo: otimizando recursos e fechando vagas de profissionais que pedem demissão. Não queremos fechar leitos, mas esse foi o caminho que encontramos para não parar o atendimento nem colocar os pacientes já internados em risco.”

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Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 03h00

À porta do Hospital Municipal Souza Aguiar, a maior emergência do Rio, a dona de casa Graciela da Silva Fernandes, de 37 anos, tentava no início do mês manter a serenidade diante do que ouvira da enfermeira que atendera a mãe, com câncer de intestino e necessitando de cirurgia de urgência: “Não tem vaga”. Damiana da Silva, de 75 anos, chegara à unidade, no centro da cidade, no dia anterior, após três meses em busca de uma resposta para a longa crise de diarreia e de dores abdominais que lhe roubou 20 quilos. 

“Ela fez exame de sangue, fezes, urina e ultrassom, e tanto a Clínica da Família quanto a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) trataram com se não fosse nada. Mandavam para casa com remédio para desarranjo. Chegamos aqui, fez uma tomografia, e é um tumor, que tem que ser operado já”, contava.

Segurando as lágrimas, na tarde do dia 9, Graciela contava o que Damiana passara. “Deixaram minha mãe numa cadeira de plástico, sendo que ela tem histórico de trombose. Não conseguia ficar nem deitada sem dor, imagina sentada por horas e horas. No corredor, tinha gente no chão, coberto só com um lençol. É muita humilhação, é desumano.”

Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS mostram que o número de internações no Souza Aguiar passou de 9.571 em 2015 para 8.397 em 2016, uma redução de 12%. No Miguel Couto, da mesma rede, emergência de referência na zona sul, a queda foi de 11.035 para 10.391, ou 5,8%. A série histórica revela que de 2011 para cá a unidade registrou encolhimento das internações de 20%.

Integrante da Comissão de Saúde da Câmara Municipal e diretor do Miguel Couto nos anos 1980/1990, o vereador Paulo Pinheiro (PSOL) disse que a explicação está no aumento da chegada de casos complexos às emergências. Eles demandam tempo maior de internação. 

O recrudescimento da violência verificado nos últimos anos, afirmou ele, tem feito com que os ferimentos a bala sejam mais severos. “E as pessoas já chegam em estado muito grave porque não conseguem se tratar na rede básica. Muitas perderam o emprego e o plano de saúde.”

Já a Secretaria Municipal de Saúde do Rio afirmou que a ampliação da cobertura da rede básica, que trata quadros de cardiopatia, asma, diabete e hipertensão, por exemplo, fez cair a proporção de internações, por reduzir o agravamento das doenças. “Em 2008, das internações clínicas nas unidades, 31,9% eram por agravamento dessas condições. Em 2015, esse índice caiu para 19,6%, chegando a 18,8% em 2016”, informou a pasta.

Perda. Para o presidente da Federação Nacional dos Médicos, Jorge Darze, que acompanha o quadro da saúde no Rio desde os anos 1970, a mudança nos números passa pelo fechamento de leitos e a redução de equipe nos hospitais. “O Estado perdeu 4 mil leitos nos últimos anos, e não há concurso.”

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Fabiana Cambricoli, Felipe Resk e Nilton Fukuda, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 03h00

A queda nas internações nos três principais hospitais do SUS em São Paulo também tem dificultado a vida de pacientes que precisam de cirurgia ou atendimento de urgência na capital. Com dor de cabeça e problemas na visão, a auxiliar de administração Gisele Celso, de 34 anos, procurou o pronto-socorro do Hospital São Paulo no início do mês, mas foi informada de que a unidade estava atendendo apenas emergências.

Segundo conta a mãe da paciente, a auxiliar de limpeza Maria Amélia Celso, de 52 anos, o atendimento só foi feito após a filha “brigar” com os profissionais do local, exigindo que passasse pelo menos por um exame. A tomografia acabou detectando um tumor no cérebro, e a paciente foi internada.

Antes de passar pela cirurgia para remoção da lesão, Gisele ainda ficou quatro dias internada no corredor do hospital. “É triste, mas é melhor que ela fique no corredor do que não ter onde ficar”, diz a mãe da paciente. O Estado não conseguiu mais contato com a paciente após o dia 10, data da cirurgia.

Fila. Já o comerciante Isin Pereira da Silva, de 64 anos, ficou um ano e quatro meses na fila de espera para uma cirurgia de catarata no HSP, mas, sem conseguir passar pelo procedimento, procurou uma clínica particular. “Eu praticamente não estava enxergando”, afirmou.

Para pagar o procedimento, no valor de R$ 7,5 mil, a família precisou pedir um empréstimo de R$ 4 mil. “A gente se mobilizou, juntou todo mundo. Uma parte passou no cartão, outra fez o consignado”, disse a balconista Cláudia Pereira da Silva, de 35 anos, filha do comerciante.

Paciente do Hospital das Clínicas, a gerente de vendas Edna Paiva, de 62 anos, está há um ano na fila para fazer a segunda etapa de um procedimento cirúrgico relativo a um cálculo renal. “Primeiramente implodiram as pedras no rim e tinham de, em seguida, fazer a cirurgia para removê-las, mas estou esperando desde novembro”, conta. A assessoria do hospital informou que a cirurgia seria realizada até o fim deste mês. 

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