TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Nossas três opções

A mais palpável é afrouxar o isolamento e administrar o número de novos casos, deixando crescer lentamente a chamada imunidade de rebanho

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 05h00

Não existe dúvida que o isolamento social é a única maneira de amenizarmos o tsunami de casos de covid-19 que está assolando a humanidade. A questão é como sair do isolamento sem que a pandemia volte com força total. Apesar dessa discussão ser complexa e recheada de modelos matemáticos, no fundo só existem três opções. Duas delas são de longo prazo e não temos como controlar seu desenrolar. A terceira está sob o nosso controle, mas depende de informações confiáveis para que o desfecho seja favorável.

A primeira opção é esperar o desenvolvimento de uma vacina e simplesmente vacinar a população. Isso leva tempo e o cronograma não pode ser adiantado. Não falta dinheiro para os mais de 70 grupos de cientistas que estão desenvolvendo a vacina, mas isso não garante que tenhamos uma vacina com eficácia e segurança comprovada antes de 12 a 18 meses. Pode levar mais tempo, pode levar menos, é quase impossível prever. E depois da vacina pronta vão ser meses para produzir as doses necessárias e vacinar a população. Essa opção, portanto, está fora de nosso controle.

A segunda opção consiste em esperar que surja um ou mais drogas que ajudem no tratamento da covid-19 e que com seu uso a taxa de mortalidade seja reduzida em uma ordem de magnitude. Isso permitiria a liberação do distanciamento sem incorrer em um grande número de mortes. Tampouco falta dinheiro e esforço nessa direção, mas, como no caso da vacina, isso pode ocorrer logo ou levar muitos meses ou anos. Também está fora de nosso controle.

A terceira opção é afrouxar o isolamento e administrar o número de novos casos que vão aparecer de modo a evitar que o sistema hospitalar entre em colapso. Na sua essência essa opção consiste em deixar crescer lentamente a chamada imunidade de rebanho. Ou seja, deixar que a população se infecte com o vírus, de modo que os mais de 90% dos casos leves, que se recuperam em casa, reduzam a transmissão do vírus. Esse fenômeno acontece porque a medida que uma fração crescente da população se torna imune ao coronavírus ele encontra menos pessoas para infectar e a propagação diminui de velocidade.

Hoje essa é a única opção sobre a qual a humanidade tem algum controle e pode ser implementada após esse primeiro pico de casos. Pode ser que surjam outras opções, mas que eu saiba, por enquanto todas as estratégias giram em torno dessas três. E dada a crise econômica oriunda da paralisação econômica essa tende a ser a estratégia adotada ao redor do mundo.

Como bem lembrou o diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), para ter sucesso nessa estratégia é necessário que o governo (que tem o poder de abrir ou fechar a torneira do isolamento) tenha as informações necessárias para controlar o processo. Essas informações são basicamente de dois tipos: a taxa de ocupação dos leitos de UTI e informações sobre a propagação do vírus. Ambas as informações precisam ser confiáveis e obtidas com a frequência adequada.

A taxa de ocupação de UTIs é mais simples de obter, pois basta organizar um sistema eficiente de coleta de informações em hospitais. Mas os dados sobre a propagação do vírus exigem experimentos que permitam medir isso. Essa é a especialidade dos epidemiologistas. Coletando dados frequentemente seremos capazes de fazer previsões sobre os casos que vão chegar aos hospitais nas semanas seguintes o que, combinado com a taxa de ocupação das UTIs, permitirá tomar decisões sobre o relaxamento do distanciamento social. É por isso que enquanto os médicos estão lutando para salvar vidas nas UTIs, é necessário que os epidemiologistas estejam se organizando para coletar os dados sobre o progresso do espalhamento do vírus na população.

Um dos dados essenciais para orientar as ações governamentais é saber exatamente qual a fração da população já foi infectada pelo vírus em cada momento. Quanto maior essa fração mais difícil será para o vírus continuar a se espalhar e maior pode ser o relaxamento. O problema é que somente testar as pessoas que chegam ao hospital com casos moderados e graves subestima muito esse número. Isso porque sabemos que existem muitos casos assintomáticos e essas pessoas não entram nas estatísticas coletadas nos hospitais.

Durante as últimas três semanas eu tenho ajudado um grupo de cientistas a organizar um projeto piloto cujo objetivo é medir diretamente o número de pessoas já infectadas e que se curaram do coronavírus na região de São Paulo mais afetada pela pandemia. Se esse projeto piloto for bem-sucedido, ele vai poder ser expandido para toda a cidade ou em outros locais com muitos casos.

O grupo de São Paulo é uma colaboração entre médicos e epidemiologistas da USP e Unifesp, que desenharam o estudo, e o Laboratório Fleury, que validou os testes de laboratório disponíveis (isso levou o nosso consórcio a não utilizar os testes rápidos e a optar por testes feitos em amostras de sangue como as coletadas rotineiramente nos laboratórios de análise clínica). O consórcio conta também com a ajuda de uma matemática que teve sua carreira dedicada ao planejamento e execução desse tipo de estudo, e o Ibope, que ajudou no desenho do estudo. Funcionários do IBPE, juntamente com técnicos de enfermagem do Fleury, vão coletar as amostras de sangue. O Instituto Semeia custeou todo o projeto e auxiliou na sua estruturação.

Na semana que vem doze equipes de coleta vão visitar 500 residências sorteadas ao acaso nos bairros de São Paulo que hoje possuem o maior número de casos de covid-19. Essa região cobre os bairros de Pinheiros e Lapa. Ao chegar à residência os enfermeiros vão explicar os objetivos do teste e sortear um dos habitantes da casa com mais de 18 anos. Caso a pessoa concorde, vão coletar uma amostra de sangue depois da pessoa assinar um termo de consentimento. Essa amostra de sangue será levada ao Laboratório Fleury e a presença e quantidade de dois tipos de anticorpos contra o novo coronavírus serão medidas. Alguns dias depois a pessoa ficará sabendo se possui esses anticorpos. Caso ela possua o anticorpo isso indica que já foi infectada pelo coronavírus e está curada. Essa pessoa muito provavelmente já é resistente ao vírus.

Esse estudo piloto tem como objetivo demonstrar que todo o processo, desde as visitas, a receptividade dos moradores, a coleta e a análise do sangue, podem ser executadas eficientemente e a um custo baixo.

Caso o estudo corra como esperado, saberemos o número verdadeiro de pessoas já infectadas nessa região de São Paulo. E se esse estudo for repetido ao longo do tempo será possível saber como esse número de pessoas está aumentado. Essa informação poderá ajudar o governo a calibrar o relaxamento social.

Eu tenho aqui um pedido para meus leitores: por favor espalhem essa informação aos amigos. Pode acontecer deles estarem entre os sorteados, e se for o caso, eles podem ajudar nessa pesquisa recebendo a enfermeira do Fleury e o entrevistador do Ibope, concordando em participar do estudo e doando uma pequena amostra de sangue. Dessa maneira estarão ajudando o governo a relaxar o isolamento com segurança.

Adendo: Um grupo de pesquisa, de Pelotas, no Rio Grande do Sul, acabou de divulgar os resultados de um estudo semelhante. Infelizmente, devido ao pequeno número de casos na região estudada, os resultados me parecem inconclusivos. Em somente duas das 4.189 pessoas testadas foi detectado o anticorpo contra o coronavírus. Esse número é menor que o número esperado de falsos positivos (quando uma pessoa que você sabe que não tem o vírus testa positivo). Infelizmente o grupo usou um teste rápido, pouco sensível. Talvez esse tenha sido esse o problema. Ciência é assim, cheia de frustrações.

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