ColiN00B/Pixabay.com
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Nosso direito

Em movimento, ativistas autistas sustentam que ser neurodivergente é um jeito de existir

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2021 | 05h00

Cada indivíduo existe em sua singularidade, e vem o diagnóstico e você se descobre no espectro do autismo, sendo forçado a enxergar que o mundo é compreendido de outra maneira pela maioria das pessoas. Se você é como é também por causa do autismo, a ideia de cura parece o filme X-Men – O Confronto Final: tomar um remédio é perder seu poder e parte de quem você é, em troca de uma maneira normal de se relacionar, o que quer que isso signifique. Na busca pela compreensão do que é estar no espectro, reforcei a percepção de que seres humanos são plurais com as ideias de neurodiversidade e neurodivergência. 

Neurodiversidade, o termo, apareceu no fim dos anos 1990, na Universidade de Tecnologia de Sydney, criado pela socióloga (e autista) Judy Singer. Ela defende que há uma conexão neurológica atípica a ser respeitada, mais do que uma condição a ser curada. Além do TEA, TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) e dislexia, entre outras, não são anormalidades, mas diferenças neurológicas. Esse conceito é um subconjunto da biodiversidade, com seus complexos sistemas de genes, animais e ecossistemas, e Judy advoga que essa complexidade é importante para a vida no planeta. O movimento pela neurodiversidade ganha projeção com ativistas autistas, que sustentam que ser neurodivergente é um jeito de existir. E que, se existe neuroatípico, também há o neurotípico que, ausente de especificidade neurológica, apresenta dificuldade em ficar sozinho, intolerância às diferenças dos outros, e tendência a acreditar que sua experiência do mundo é única e certa.

A inserção na sociedade, tão batalhada por autistas, suas mães e pais, encontra eco quando o campo do espectro está no “altamente funcional”. No site do Fórum Econômico Mundial há um texto sobre as vantagens competitivas de pessoas neurodiversas, considerando-as uma categoria social como a etnia, gênero e classe socioeconômica. A roda acolhe quem lhe interessa, autista em surto no supermercado ainda termina morto sufocado. 

Nossa singularidade é posta à prova todos os dias, e a mediação para que sejamos aceitos, sem rótulos, é uma questão humana. Escrever aqui é fruto de particularidades neurológicas, escolhas e privilégios que garantiram meu desenvolvimento, que permitem apenas respirar fundo quando ouço: “Tem cura?”. O que vai acontecer aos autistas que necessitam de alto nível de suporte quando seus pais e mães não estiverem mais lá? Lutamos para que o mundo comece a respeitar e preservar também essa existência.

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