Hélvio Romero
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Daniel Martins de Barros
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Nossos monstros

Casos como o da boneca Momo só nos assustam porque damos atenção

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2019 | 05h00

Os monstros alimentam-se de atenção. Quanto mais nos focamos neles, mais aterrorizados ficamos - seu poder sobre nós aumenta. Por outro lado, qual a influência em nossas vidas dos monstros que ignoramos? Nenhuma. O poder que eles têm depende de nós. Isso vale tanto para os monstros imaginários quanto para os reais.

Vejamos o caso da tal boneca Momo. Nos últimos dias, espalhou-se novamente o boato de que ela estava de volta para aterrorizar nossas crianças. Segundo a lenda - já se pode chamar essa história de lenda urbana -, em meio a vídeos exibidos no YouTube Kids, a imagem horrorosa apareceria mandando as crianças se cortarem. 

Foi um desespero. Grupos de WhatsApp em polvorosa, pais e mães desesperados, especialistas ensinando a falar com os filhos sobre o assunto. Detalhe: os vídeos nunca foram achados. ONGs de segurança infantil na rede não localizaram os links, a polícia procurou e não achou, Google e YouTube foram chamados a apresentar as imagens e não conseguiram. Ainda assim haverá leitores me xingando por não acreditar na Momo.

Assim como na lenda da Baleia Azul, esses casos só nos assustam porque damos atenção. Há pouco tempo, os pais deixavam os filhos com seus celulares e relaxavam, mas logo ficaram inquietos ao se darem conta dos perigos da tela não vigiada. A tranquilidade parecia ter voltado aos lares com os algoritmos que filtram automaticamente conteúdos impróprios. Mas eis que surge a Momo e nos acusam novamente de negligência. Daí o desespero.

Se nós entendêssemos que o mundo virtual é como o mundo real, não deixaríamos as crianças pequenas andarem sozinhas por ele. Estaríamos de olho no conteúdo que consomem e, quando surgisse um monstro, ele não teria poder, pois não alteraria nossa rotina. Mas dar atenção a uma criança real é mais trabalhoso do que a um monstro imaginário. Muitos monstros reais também extraem de nós mesmos sua energia.

A cobertura da tragédia em Suzano é o tipo de atenção que faz os monstros reais ganharem força. A veiculação em massa das imagens aumenta o alcance do sofrimento e do medo, afetando a vida de pessoas que não seriam tocadas pela tragédia - a maioria da população. Como se não bastasse, as repetimos em looping, ampliando a intensidade do mal que podem fazer. E tudo isso sem qualquer ganho - noticiar tais eventos não alivia a dor de ninguém, não traz mortos de volta, não ajuda a prender assassinos nem a prevenir novos casos.

E aqui entra a parte mais perigosa. Esses crimes, via de regra, são modalidades de suicídio. E já se sabe que dar detalhes, mostrar métodos, especular sobre as motivações, fazer alarde, tudo isso aumenta a chance de novos casos. Sim, leitor: tudo que não se deve fazer em casos de suicídio nós temos feito quando ele é antecedido por homicídios. E estimulamos novos casos.

Mas não é só. Esses crimes têm um componente importante de espetáculo. Há uma rede de incentivo para eles, na qual se exalta a mensagem que transmitem. Sua cobertura intensiva, portanto, aumenta a chance de novas ocorrências, pois amplia o alcance da mensagem macabra. Ao darmos palco para seus autores, dando-lhes destaque na TV, nas rádios, nos jornais, fazemos exatamente o que eles querem que aconteça. E também estimulamos novos casos.

Ouso propor um desafio. Lancemos uma diretriz antes que outro massacre ocorra. Nela, nos comprometemos a não alimentar monstros reais com nossa atenção. Não mostraremos seus rostos. Não diremos seus nomes. Não divulgaremos suas cartas. Recusamos a contribuir para o sofrimento que eles causam. Todos os veículos que quisessem poderiam manifestar sua adesão.

Assim, esses criminosos perderiam um incentivo para agir, outros suicidas potenciais não seriam contagiados, e o público descobriria quem prioriza vidas ou vendas.

*DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA

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