Esperávamos adoecimento em massa na pandemia, mas não é isso que estamos vendo

A proporção de pessoas afetadas com transtornos mentais não mudou na crise do coronavírus

Daniel Martins de Barros* - O Estado de S.Paulo

Costumo brincar dizendo que ninguém gosta de admitir quando está errado, mas que comigo acontece exatamente o contrário: ninguém gosta de admitir quando estou certo. Claro que não é verdade. A segunda parte. As pessoas não têm problema em admitir quando estou certo. Desde que isso não signifique que elas estejam erradas.

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Compreensível. Sustentar uma opinião equivocada e vê-la ser desmentida é como sofrer uma agressão. Se fisicamente nós somos o que comemos, já que os alimentos são absorvidos e utilizados na construção dos nossos corpos, mentalmente nós também somos resultado das ideias que consumimos e absorvemos, que, por sua vez, passam a constituir nossa identidade. Ver desabar alguma dessas ideias é perder um pedaço de si mesmo. O que será quase sempre desagradável. A não ser que a ideia da transitoriedade do conhecimento faça parte da nossa identidade, o que não é muito comum, infelizmente.

Muito do sucesso das fake news vem daí. Quando uma informação externa reforça nossos pressupostos, confirmando que nossa visão de mundo estava correta desde o início, nossa tendência é aceitá-la como verdade de forma imediata e acrítica. As lacunas naquela notícia passam despercebidas. Eventuais evidências em contrário são ignoradas. Natural: por que desconfiar de uma informação que só reforça o que já sabíamos?

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O advento das bolhas da internet, nas quais nos conectamos preferencialmente a fontes de informação alinhadas às nossas crenças, aumenta o problema ao nos deixar cada vez mais convencidos de algo, acreditando cada vez mais naquilo que se encaixa no quadro que criamos. E menos no que não se encaixa.

Há aumento de procura por atendimento, mas nada que configure uma epidemia, uma catástrofe dos moldes da própria covid-19 Foto: Pixabay

Esse é o outro lado da moeda. Ao ameaçar abalar os alicerces do mundo mental que construímos, as notícias que contradizem nossas opiniões acionam o alarme da incredulidade. Assim como somos prontos a acreditar no que nos conforta, automaticamente desconfiamos daquilo que nos confronta. E dessa tendência a campanha para desacreditar a mídia profissional retira sua força. Para quem não tem compromisso com a verdade fica fácil potencializar esse efeito, pois além de alimentar a dúvida pode-se oferecer informações psicologicamente mais reconfortantes.

Mas o fenômeno independe de a notícia ser boa ou ruim. Quando começaram a sair dados sólidos sobre a saúde mental das pessoas na pandemia, os resultados pareciam contraintuitivos. Depois de tanto temermos pelo adoecimento em massa, o tsunami dos transtornos mentais e a avalanche de suicídios, as pesquisas começaram a mostrar que isso não estava acontecendo.

Uma das mais recentes e bem estruturadas já vinha acompanhando a saúde mental de milhares de brasileiros há mais de dez anos e ao longo de 2020 reavaliou as pessoas em três momentos diferentes. Os resultados confirmam o que já se desenhava: a proporção de pessoas afetadas com transtornos mentais não mudou na pandemia. Há um aumento de sintomas ansiosos e mesmo depressivos associados ao estresse, claro. Mas nada que configure um adoecimento na maioria das vezes.

O irônico é que divulgar essa boa notícia sempre leva a uma enxurrada de reações negativas. Surgem pessoas de todos os lados contando que em sua cidade aconteceu isso, em seu trabalho aconteceu aquilo. São evidências anedóticas, advindas da experiência pessoal, que sabemos não passar nos critérios científicos (interessante: quando é para autorizar um medicamento, essas mesmas pessoas criticam esse tipo de dado).

A saúde mental virou um trunfo, uma espécie de carta coringa, sacada quando se quer defender uma postura, seja qual for. Quem é contra políticas de restrição de mobilidade diz que os lockdowns estão levando ao suicídio. Quem acha que as escolas devem abrir afirma que as crianças estão adoecendo. Os que pensam o contrário dizem que os professores terão síndrome do pânico. E, de um polo ao outro do espectro ideológico, vemos gente se apegando à ideia de que estamos ficando todos doentes. Aí vêm as notícias de que isso não está acontecendo e ninguém quer acreditar.

Eu sei que não é comum, mas precisamos lembrar que, às vezes, as notícias boas é que são verdadeiras.

*É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP)

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