Daniel Teixeira/Estadão
Hospital de campanha de Osasco: aberto em marco de 2020, desativado por em outubro e reaberto em dezembro para casos leves Daniel Teixeira/Estadão

Nova alta de infecções pela covid-19 leva à reabertura de hospitais de campanha pelo Brasil

Municípios montam ou estendem contratos de unidades provisórias para desafogar redes pública e privada e cobram apoio do Estado; risco de explosão de infectados após as festas de fim de ano preocupa

José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 05h00

A nova alta de infecções pela covid-19 tem feito governos reabrirem ou estenderem o prazo de funcionamento de hospitais de campanha pelo País, como forma de desafogar e evitar o colapso da rede de saúde. O total de mortos pelo vírus no Brasil se aproxima dos 200 mil. As estruturas de emergência atenderam parte significativa da demanda no 1º semestre, mas também estiveram ligadas a suspeitas de desvio de verbas e falhas de planejamento. 

O atendimento de pacientes em centros provisórios foi retomado em capitais, como Fortaleza, Teresina e Belém - nessa última, para casos leves e moderados. É também alternativa no interior e em regiões metropolitanas, que têm oferta mais limitada de leitos, em Estados como São Paulo, Minas e Ceará

Em Osasco, Grande São Paulo, o hospital de campanha fechou em setembro e reabriu mês passado para atender casos leves. Tem 70 leitos, mas pode chegar a 300. No início da semana, a cidade tinha 57% dos leitos de emergência para covid ocupados. A nova gestão em Diadema anunciou intenção de erguer uma unidade. Em Bauru, o Estado renovou o contrato, que terminaria semana passada, diante do aumento de doentes. Araraquara fez o mesmo. 

Em Ilhabela, litoral norte, o plano em dezembro era montar estrutura para pacientes de outras doenças e liberar leitos a infectados pela covid. O novo prefeito, Toninho Colucci (PL), mandou desfazer a unidade, que ainda estava incompleta. Optou por instalar até 20 leitos em um prédio municipal. Diz que vai economizar R$ 900 mil e transformá-lo em hospital definitivo. Ainda não disse se seguirá a ideia da gestão anterior, de receber pacientes que não sejam de covid. A cidade tem visto crescer o fluxo de turistas nas últimas semanas, o que pode elevar a transmissão do vírus. 

Um dos problemas de hospitais de campanha é investir em estrutura que será desfeita. Walter Cintra, professor de Administração Hospitalar da FGV, acredita que as unidades provisórias podem ser necessárias com o maior contágio após as festas de fim de ano. Mas vê alternativas. “Concluir a ativação de hospitais que não estejam totalmente ativados, e reativar hospitais desativados por qualquer razão no passado. Após a pandemia, esses leitos podem ser usados para outras finalidades, principalmente no SUS que carece de vagas”, diz. 

Novo prefeito de Presidente Prudente, Ed Thomas (PSB) cobra mais leitos ou hospitais de campanha. “É competência do Estado, não do município.” Pela classificação estadual, a cidade está na fase vermelha (mais restritiva). Thomas resistiu em fechar o comércio, mas cedeu após pedido do Ministério Público. A Secretaria Estadual da Saúde disse monitorar o cenário para preparar leitos, quando necessário, e apoiar gestores. 

Em alerta

O risco da explosão de casos após o Natal e do réveillon é um dos argumentos de Varginha (MG) para estender o contrato. “Pedimos a prorrogação ao governo federal, que participa da gestão da estrutura com o envio de recursos. A situação estava controlada, mas em dezembro deu uma piorada e achamos melhor manter o funcionamento até ao menos fevereiro”, diz o prefeito Verdi Lúcio Melo (Avante). “Você dá uma volta na cidade e de cada dez, três usam a proteção.” 

Há mais dois hospitais no município: um regional, que atende cidades vizinhas, e um privado, respectivamente, com 66% e 72% de ocupação de UTIs. A unidade de campanha tem mais oito vagas - metade ocupada. 

Em Mariana (MG), até o então prefeito Duarte Júnior (Cidadania) precisou ser internado na vizinha Ouro Preto para tratar da doença em dezembro. A unidade de campanha local já estava pronta, mas só foi usada a partir do fim do ano, quando os hospitais de Mariana e de Ouro Preto ficaram com 100% das UTIs lotadas. 

O governo de Minas - que chegou a montar um hospital de campanha que não foi utilizado em Belo Horizonte - diz que agora a rede está melhor equipada do que no início da crise sanitária. “Lá no início, tínhamos um cenário de guerra. Os momentos são muito diferentes”, diz o secretário estadual da Saúde, Carlos Eduardo Amaral, em vídeo enviado pela assessoria.

Pernambuco estuda reabrir os 102 leitos de terapia intensiva no hospital de campanha de Petrolina. Conforme o governo, a ocupação de UTIs no Estado subiu para 80% e de enfermaria para 66% nas últimas semanas. Em Mato Grosso do Sul, o Hospital da Cassems, da rede privada de Campo Grande, começou a remontar a estrutura destinada a pacientes com a covid em sua área externa.

Em Cascavel (PR), um hospital de campanha que funcionou no Centro de Eventos está com a estrutura pronta para ser reativada, com macas, cilindros de oxigênio e mais equipamentos, mas só será colocada em operação se os casos continuarem aumentando, diz a prefeitura./COLABORARAM LUIZ CARLOS PAVÃO e LEONARDO AUGUSTO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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‘Não acho que a melhor estratégia seja reabrir hospitais de campanha’, diz especialista

Médico e sanitarista, colunista do Estadão avalia que cidades devam procurar criar vagas em hospitais já existentes

Entrevista com

Gonzalo Vecina Neto, médico

Luiz Carlos Pavão, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 05h00

Com o novo aumento de casos da covid-19 no País, prefeitos e governadores têm retomado a aposta em hospitais de campanha. Para o médico Gonzalo Vecina Neto, não há uma resposta definitiva, mas acredita que “o importante é acompanhar a curva de ocorrência de casos que deverá ser crescente nos próximos dias por causa do relaxamento social da população'', afirma ele, colunista do Estadão e ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo.  

"Em alguns Estados já estamos vendo algo próximo ao colapso da oferta de leitos de UTI”, alertao sanitarista. Mas,  acrescenta Vecina, a melhor saída para os gestores é investir na estrutura hospitalar já existente. 

Há demanda para reabrir hospitais de campanha neste momento? 

Começa a haver pressão para o aumento de leitos disponíveis. Não acho que seja a melhor estratégia reabrir os hospitais de campanha, de maneira geral. O que os municípios em particular deveriam fazer é estabelecer rapidamente diálogo com os governos estaduais - que têm a responsabilidade de oferecer cobertura hospitalar secundária e terciária. Muitos municípios, principalmente os de médio porte, têm estrutura hospitalar própria que, neste momento, certamente vai ser melhor usada. O mais adequado não é fazer hospitais de campanha, estruturas onerosas e temporárias, mas expandir leitos para atender pacientes com covid em hospitais já existentes, uma alternativa que se mostrou mais adequada inclusive no momento mais crítico da pandemia. 

Qual é a melhor estratégia para agora?

Estamos nos aproximando do número de casos que já tivemos, embora  com mortalidade inferior. Mas estamos com perspectiva de uma pressão importante sobre o sistema de assistência hospitalar e a resposta que os municípios devem dar é negociar com os governos estaduais e fazer o acompanhamento da pandemia em sua região, estar preparados para ampliar o número de leitos nos hospitais já existentes, inclusive na rede privada. Não é tarefa fácil. Em algumas  circunstâncias,  mais raras, pode-se sim pensar em refazer hospitais de campanha, que são mais caros e temporários. A dificuldade maior para expandir leitos e oferecer estrutura de atendimento para os pacientes não é só os equipamentos, mas também os profissionais de saúde. Particularmente com médicos que tenham boa experiência em medicina intensiva e enfermeiras, bastante raras.

Acredita que foi um erro desmontar os hospitais de campanha quando a pandemia arrefeceu? 

Não acho que foi erro desmontar os hospitais de campanha, acredito que desativar leitos de hospitais já existentes poderia ter sido de uma forma mais devagar. Porém, agora não se pode olhar para trás. Agora é tentar reativar estes leitos que foram desativados na medida que ocorrer a demanda para isso. Esta sensibilidade é que os governadores e prefeitos têm que ter a partir de agora. 

É melhor se adiantar e ter estrutura pronta para receber pacientes mesmo que os casos na região não sejam numerosos o suficiente para o seu uso do hospital?

Eu iria fazendo à medida que a demanda ocorresse. Pode ser que isso atrase um pouco o atendimento, mas manter um banco de profissionais que saibam onde estão os respiradores, os monitores, os leitos físicos para montar o mais rapidamente possível essa estrutura à medida que os casos voltem a crescer. É óbvio que não dá pra fazer mágica. Claro que é preferível se adiantar, mas há a questão da escassez de recursos. 

As denúncias de desvio de verba e falta de uso de algumas unidades pelo País fez com que os gestores ficassem desencorajados de adotar essa medida?

Sem dúvidas isso representa um risco para os gestores. Provavelmente muitos nem chegaram a desviar verba, mas faltou comprovar que as verbas foram adequadamente usadas, então existe um lapso a ser preenchido e isso terá custo político, sem sombras de dúvida. Em alguns Estados e municípios sobrou esse ‘cheiro de corrupção’. Vamos ver como os os tribunais de Contas, órgãos de controle e auditorias irão se comportar em relação a essa evidência que resta ser comprovada. 

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Rio fala em custo maior por leito e fecha última unidade provisória

Unidade do Riocentro chegou a ter 500 leitos, 100 deles de UTI; ideia é aproveitar melhor a rede pública já disponível

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 05h00

RIO - A prefeitura do Rio de Janeiro anunciou nessa terça-feira, 5, o encerramento das atividades no Hospital de Campanha do Riocentro, na zona oeste da cidade. Era a última instalação provisória para atendimento exclusivo de pacientes de covid-19 que ainda estava em funcionamento. Todos os pacientes já foram transferidos para outras unidades. Equipamentos e profissionais de saúde vão ser direcionados para outros centros de atendimento.

O município criou o hospital do Riocentro, que chegou a ter 500 leitos (100 deles de UTI), mas decidiu fechá-lo, apesar do repique da pandemia. A secretaria explicou que a decisão segue parecer de especialistas. Eles aconselham a reabertura de leitos inativos na própria rede pública, em hospitais de referência, o que trará uma significativa redução de custos.

Em coletiva ontem, a secretaria confirmou a abertura de 343 novos leitos para a covid-19- 193 deles na rede pública e 150 na rede privada - conforme já publicado no Diário Oficial. Segundo a pasta, já foram abertos 80 leitos no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla e outros 20 no Hospital Municipal Souza Aguiar.

“A estimativa é que sejam economizados R$ 250 mil por dia com a abertura dos leitos no Ronaldo Gazolla”, informou a secretaria. A pasta informou ainda que “a diária do hospital de campanha do Riocentro custa em torno de R$ 12,5 mil, bem acima da média até mesmo de hospitais particulares”.

A taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 na rede SUS no município (incluindo vagas em unidades municipais, estaduais e federais) é atualmente de 91%.

Segundo o secretario estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, e o secretário municipal, Daniel Soranz, a regulação dos leitos do SUS para covid em todo o Estado será unificada já a partir da semana que vem. Segundo a secretaria estadual de Saúde, mais de 900 leitos foram abertos desde novembro.

Em Santa Catarina, o governador Carlos Moisés (PSL) disse que o investimento será direcionado para os hospitais próprios e filantrópicos catarinenses. No fim de semana, todas as regiões do Estado estavam com mais de 85% de ocupação da rede hospitalar para a covid-19.

Governo foi alvo de denúncia

No início da pandemia, o governo estadual anunciou nove hospitais de campanha exclusivamente para o atendimento de pacientes com diagnóstico de covid-19. Só entregou cinco, mas todos já foram fechados. Um deles ficava na capital, no Estádio do Maracanã (zona norte), e os demais nos municípios de São Gonçalo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias e Nova Friburgo. Leitos instalados em São Gonçalo atenderam apenas 37 pessoas antes de serem desativados.

As estruturas chegam a ser alvo de disputa judicial em julho, quando o Judiciário determinou que dois hospitais continuassem funcionando, com recebimento de pacientes com covid-19.

Gastos com essas estruturas estão sob suspeita e investigação. O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), responde a processos na Assembleia Legislativa e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), por supostos crimes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou em 15 de dezembro o governador afastado do Rio, o presidente do PSC, Pastor Everaldo, o ex-secretário de saúde do Rio Edmar Santos e outros dez empresários e advogados suspeitos de participação em esquema de propinas na Saúde fluminense. A PGR cobra o pagamento de R$ 106,7 milhões. /COLABOROU JOSÉ MARIA TOMAZELA

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