Foto: Jason Szenes / EFE
Foto: Jason Szenes / EFE

Nova pesquisa relaciona poluição do ar com maiores taxas de mortalidade por coronavírus

Análise da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard foi feita com 3.080 municípios dos Estados Unidos

Lisa Friedman, The New York Times

08 de abril de 2020 | 14h00

WASHINGTON - Pacientes com coronavírus em áreas que apresentavam altos níveis de poluição do ar antes da pandemia têm muito mais chances de morrer da infecção do que pacientes em áreas mais limpas do país, de acordo com um novo estudo que relaciona pela primeira vez o impacto da exposição a longo prazo à poluição e as taxas de mortalidade por covid-19.

Em uma análise com 3.080 municípios dos Estados Unidos, pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard descobriram que níveis mais altos de partículas minúsculas e perigosas no ar, conhecidas como MP2,5, estavam associados a maiores taxas de mortalidade pela doença.

Durante semanas, as autoridades de saúde pública supuseram uma ligação entre o ar sujo e a morte ou doenças graves causadas pela covid-19, o coronavírus. A análise de Harvard é o primeiro estudo a mostrar uma ligação estatística, revelando uma “grande sobreposição” entre mortes por covid-19 e outras doenças associadas à exposição a longo prazo a partículas finas.

"Os resultados deste artigo sugerem que a exposição a longo prazo à poluição do ar aumenta a vulnerabilidade à ocorrência dos resultados mais graves da covid-19", escreveram os autores.

O artigo descobriu que, se Manhattan tivesse reduzido seu nível médio de material particulado em apenas uma unidade, ou 1 micrograma por metro cúbico, nos últimos 20 anos, o bairro provavelmente teria visto 248 menos mortes por covid-19 a essa altura no período de surto.

No geral, a pesquisa pode ter implicações significativas na maneira como as autoridades de saúde pública escolhem alocar recursos como ventiladores e respiradores à medida que o coronavírus se propaga. O artigo teve a revisão por pares acelerada e foi publicado no New England Journal of Medicine. 

Ele descobriu que apenas um ligeiro aumento na exposição à poluição a longo prazo pode ter sérias consequências relacionadas ao coronavírus, mesmo tendo em conta outros fatores como taxas de fumantes e densidade populacional.

Por exemplo, o estudo descobriu que uma pessoa que vive há décadas em um município com altos níveis de material particulado fino tem 15 vezes mais chances de morrer de coronavírus do que alguém em uma região com 1 unidade a menos da poluição por partículas finas.

O Distrito de Columbia, por exemplo, provavelmente terá uma taxa de mortalidade mais alta do que o vizinho Condado de Montgomery, em Maryland. O Condado de Cook, em Illinois, que inclui Chicago, deve ter um cenário pior do que o Condado de Lake, em Illinois. O condado de Fulton, na Geórgia, que inclui Atlanta, provavelmente sofrerá mais mortes do que o condado vizinho de Douglas.

"Este estudo fornece evidências de que os municípios com ar mais poluído sofrerão maiores riscos de morte pela covid-19", disse Francesca Dominici, professora de bioestatística de Harvard que liderou o estudo.

Francesca disse que os municípios com níveis mais altos de poluição “serão os que terão maior número de hospitalizações, maior número de mortes e onde muitos dos recursos devem ser concentrados”.

O estudo faz parte de um pequeno, mas crescente número de pesquisas, principalmente fora da Europa, que oferece uma visão de como uma vida inteira respirando ar mais sujo pode tornar as pessoas mais suscetíveis ao coronavírus, que já matou mais de 10.000 pessoas nos Estados Unidos e 74 mil em todo o mundo.

No curto prazo, Francesca e outros especialistas em saúde pública disseram que a descoberta do estudo significa que lugares como o Vale Central da Califórnia, ou o Condado de Cuyahoga, em Ohio, podem precisar se preparar para casos mais graves de covid-19.

A análise não examinou os dados individuais dos pacientes e não respondeu por que algumas partes do país foram atingidas com mais força do que outras. Também não está claro se a poluição por partículas tem algum papel na disseminação do coronavírus ou se a exposição a longo prazo leva diretamente a um maior risco de adoecer.

John R. Balmes, porta-voz da Associação Americana de Saúde Pulmonar e professor de medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, disse que as descobertas são particularmente importantes para hospitais de bairros pobres e comunidades negras, que tendem a ser expostos a níveis mais altos de poluição do ar do que as comunidades brancas e ricas.

"Precisamos garantir que os hospitais que cuidam de pessoas mais vulneráveis e com maior exposição à poluição do ar tenham os recursos de que precisam", disse Balmes.

À medida que se aprende mais sobre a recorrência da covid-19, o estudo também pode ter implicações de longo alcance para as regulamentações de ar limpo, as quais o governo Trump trabalhou para reverter nos últimos três anos, alegando que eram onerosas para a indústria.

A maioria das partículas finas vem da queima de combustíveis, como em automóveis, nas refinarias e nas usinas de energia, além de algumas fontes em ambientes fechados, como a fumaça do tabaco. Segundo especialistas, respirar esses poluentes microscópicos inflama e danifica o revestimento dos pulmões ao longo do tempo, enfraquecendo a capacidade do corpo de combater infecções respiratórias.

Vários estudos descobriram que a exposição a partículas finas coloca as pessoas em maior risco para desenvolver câncer de pulmão, ataques cardíacos, derrames e até morte prematura. Em 2003, Zuo-Feng Zhang, diretor associado de pesquisa da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, descobriu que pacientes com SARS nas partes mais poluídas da China tinham duas vezes mais chances de morrer da doença do que aqueles em locais com baixa poluição do ar.

Em uma entrevista, Zhang chamou o estudo de Harvard de "muito consistente" com suas descobertas. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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