Nova superbactéria é encontrada em paciente do Hospital das Clínicas

Resistente aos antibióticos mais usados no ambiente hospitalar, micro-organismo tem como diferencial maior poder de disseminação

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2014 | 12h15

Uma nova superbactéria, resistente aos antibióticos mais usados por médicos, foi identificada pela primeira vez no mundo em um paciente internado no Hospital das Clínicas de São Paulo com um quadro grave de infecção no sangue. O caso ocorreu em 2012, mas foi publicado na semana passada no periódico científico “The New England Journal of Medicine”.

Bactérias com resistência similar já haviam sido descritas nos Estados Unidos e em outros países anteriormente, em casos de infecção de pele. O que impressionou os cientistas no caso brasileiro foi uma característica genética do micro-organismo que faz com que ela possa estar presente fora do ambiente hospitalar e infectar pessoas saudáveis.

“Ela é única frente a outras que já eram raras. Essa característica faz com que essa bactéria tenha um potencial de disseminação muito maior do que as outras. Pode representar um problema de saúde pública”, explica Flávia Rossi, diretora médica do laboratório de microbiologia do HC e uma das autoras do artigo.

Batizada de BR-VRSA, a bactéria, do tipo Staphylococcus aureus, é resistente à meticilina e à vancomicina, dois dos mais comuns antibióticos usados em hospitais. “Quando há resistência à meticilina, a primeira alternativa é a vancomicina, por ter quase 100% de eficácia e por ter custo mais baixo. O paciente estava sendo tratado com vancomicina. Ele só não morreu naquele momento porque o laboratório analisou a bactéria, percebeu a resistência e trocou o antibiótico. No caso de uma infecção grave como aquela, ele poderia ter morrido em poucos dias”, diz Flávia.

Internado em maio de 2012 no Instituto de Psiquiatria do HC, o paciente, de 35 anos, apresentou a infecção em agosto, foi tratado com outro tipo de antibiótico, a daptomicina, e a bactéria foi eliminada. Três meses depois, porém, ele apresentou infecção urinária e pneumonia, causadas por outros micro-organismos, e acabou morrendo.

Estrutura. Flávia diz que não houve relatos de novos casos após a identificação da bactéria no paciente brasileiro, o que afasta um risco imediato de disseminação. No entanto, ela defende que o País se prepare melhor para análise de casos como esse.

“A bactéria pode ser tratada. A grande questão é a gente poder diagnosticar. Não temos no Brasil, por exemplo, um laboratório central de análise. Os Estados dependem dos centros universitários ou de laboratórios estaduais, que nem sempre têm uma boa estrutura”, afirma Flávia. “Temos que rever a nossa infraestrutura. Estamos preparados? Vamos receber durante a Copa um contingente de estrangeiros e bactéria não tem passaporte”, completa.

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