Hannah A. Bullock, Azaibi Tamin/CDC via AP
Hannah A. Bullock, Azaibi Tamin/CDC via AP

Entenda o que se sabe sobre a variante 'Deltacron', cepa rara e semelhante à Ômicron

Cientistas relataram o surgimento de um híbrido das variantes de coronavírus Ômicron e Delta em vários países da Europa; confira o que se sabe

Carl Zimmer, The New York Times

15 de março de 2022 | 10h00

Nos últimos dias, cientistas relataram que está surgindo um híbrido das variantes de coronavírus Ômicron e Delta em vários países da Europa. Aqui está o que se sabe sobre o híbrido, que vem recebendo os nomes frankensteinianos de Deltamicron ou Deltacron.

Como foi descoberto?

Em fevereiro, Scott Nguyen, cientista do Laboratório de Saúde Pública de Washington, D.C., estava inspecionando o GISAID, um banco de dados internacional de genomas de coronavírus, quando notou algo estranho.

Ele encontrou amostras coletadas na França em janeiro que os pesquisadores identificaram como uma mistura das variantes Delta e Ômicron. Em casos raros, as pessoas podem ser infectadas por duas variantes de coronavírus ao mesmo tempo. Mas quando Nguyen olhou com mais atenção para os dados, encontrou indícios de que essa conclusão estava errada.

Em vez disso, Nguyen ficou com a impressão de que cada vírus da amostra na verdade carregava uma combinação de genes das duas variantes. Os cientistas chamam esses vírus de recombinantes. Quando Nguyen procurou o mesmo padrão de mutações, encontrou mais recombinantes possíveis na Holanda e na Dinamarca. “Essa descoberta me levou a suspeitar que podia ser algo concreto”, disse ele.

Nguyen compartilhou suas descobertas em um fórum online chamado “cov-lineages”, no qual cientistas ajudam uns aos outros a rastrear novas variantes. Essas colaborações são essenciais para atestar a existência de novas variantes: uma suspeita de recombinante Delta-Ômicron encontrada em janeiro no Chipre acabou se revelando falsa, resultante de uma falha no trabalho de laboratório.

“É necessário levantar muitas provas para mostrar que algo é concreto”, disse Nguyen.

Estudos mostraram que Nguyen estava certo.

“Naquele dia, corremos para verificar o que ele suspeitava”, disse Etienne Simon-Loriere, especialista em vírus do Institut Pasteur em Paris. “E, sim, rapidamente confirmamos a suspeita”.

Desde então, Simon-Loriere e seus colegas encontraram mais amostras do vírus recombinante. Eles finalmente obtiveram uma amostra congelada a partir da qual cultivaram com sucesso novos recombinantes em laboratório, os quais estão estudando agora. Em 8 de março, os pesquisadores postaram o primeiro genoma do recombinante no GISAID.

Onde o novo híbrido foi encontrado?

Em uma atualização de 10 de março, um banco de dados internacional de sequências virais relatou 33 amostras da nova variante na França, oito na Dinamarca, uma na Alemanha e uma na Holanda.

Conforme relatado pela Reuters, a empresa de sequenciamento genético Helix encontrou dois casos nos Estados Unidos. Nguyen disse que ele e seus colegas estavam analisando algumas sequências de bancos de dados dos Estados Unidos em um esforço para encontrar mais casos.

É perigoso?

A ideia de um híbrido entre Delta e Ômicron pode parecer preocupante. Mas há uma série de razões para não entrarmos em pânico.

“Não é uma preocupação nova”, disse Simon-Loriere.

Para começo de conversa, o recombinante é extremamente raro. Apesar de existir pelo menos desde janeiro, ainda não demonstrou capacidade de crescer exponencialmente.

Simon-Loriere disse que o genoma da variante recombinante também sugere que ela não representaria uma nova fase da pandemia. O gene que codifica a proteína de superfície do vírus – conhecido como spike – vem quase inteiramente da Ômicron. O resto do genoma é Delta.

A proteína spike é a parte mais importante do vírus quando se trata de invadir células. É também o principal alvo dos anticorpos produzidos por meio de infecções e vacinas. Portanto, as defesas que as pessoas adquiriram contra a Ômicron – por meio de infecções, vacinas ou ambas – devem funcionar bem contra o novo recombinante.

“A superfície dos vírus é muito semelhante à da Ômicron, então o corpo o reconhecerá tão bem quanto reconhece a Ômicron”, disse Simon-Loriere.

Os cientistas suspeitam que a proteína spike da Ômicron também seja parcialmente responsável por suas menores chances de causar doenças graves. A variante a usa para invadir com sucesso as células do nariz e das vias aéreas superiores, mas não se sai tão bem no fundo dos pulmões. O novo recombinante pode apresentar a mesma propensão.

Simon-Loriere e outros pesquisadores estão realizando experimentos para ver como o novo recombinante se comporta em placas de células. Experimentos com hamsters e ratos fornecerão mais pistas. Mas esses experimentos só produzirão outras descobertas daqui a várias semanas.

“É tão recente que não temos resultados”, disse Simon-Loriere.

De onde vêm os vírus recombinantes?

As pessoas às vezes são infectadas por duas versões do coronavírus ao mesmo tempo. Por exemplo, se você for a um bar lotado onde várias pessoas estão infectadas, poderá respirar vírus de mais de uma delas.

É possível que dois vírus invadam uma mesma célula ao mesmo tempo. Quando essa célula começa a produzir novos vírus, o novo material genético pode se misturar, potencialmente gerando um novo vírus híbrido.

Não é incomum que os coronavírus se recombinem. Mas a maioria desses embaralhamentos genéticos serão becos sem saída evolutivos. Vírus com misturas de genes podem não se sair tão bem quanto seus ancestrais./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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