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Novas armas para velhos inimigos

Técnica aprimorada de forma recorde está sendo testada em vacinas contra o câncer e o vírus HIV

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 08h00

A tecnologia utilizada na fabricação da vacina de RNA mensageiro pode ajudar também na luta contra velhos inimigos. Em agosto, a Moderna começou os testes em humanos de uma vacina contra HIV, vírus causador da aids, baseada na mesma tecnologia do imunizante contra covid. Essa primeira etapa terá duração de 10 meses e contará com 56 voluntários entre 18 e 50 anos que não são portadores do vírus.

Metade do grupo participante desta primeira fase vai receber duas doses iguais do imunizante, enquanto a outra metade receberá duas versões diferentes. Se os resultados forem bem-sucedidos, ainda serão necessárias mais duas etapas até que as agências sanitárias possam liberar a aplicação em geral. Na segunda fase, será analisada a resposta das defesas do organismo e a segurança do imunizante, e na terceira será feita uma testagem mais ampla para avaliar a real eficácia das doses.

Mesmo com o sucesso da vacina contra o coronavírus, o combate ao HIV é mais complexo e envolve outras abordagens. Especialistas estão entusiasmados com o uso da tecnologia de mRNA e acreditam que isso poderá acelerar o desenvolvimento da vacina, estudada há anos.

Para Rafick-Pierre Sekaly, professor de Virologia da Emory University que estudou o HIV por duas décadas, seria “loucura” não testar agora. “Tivemos um resultado tão espetacular com o coronavírus que precisamos absolutamente embarcar nesta plataforma e testá-la”, disse.

No início deste ano, William Schief, professor e imunologista da Scripps Research e diretor executivo de Design de Vacinas do Centro de Anticorpo Neutralizante da Iavi, apresentou aos investidores da Moderna dados não publicados de um teste de vacina contra o HIV. Esse ensaio, que começou em 2018, foi conduzido com 48 adultos sem HIV e servirá como base preliminar para os novos estudos e testes. Além da Scripps Research, as pesquisas atuais resultam da colaboração da Fundação Gates, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e outros parceiros.

A tecnologia utilizada nas vacinas de mRNA também poderá ajudar no enfrentamento do câncer, doença que matou quase 10 milhões de pessoas no ano passado, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Um coquetel está em testes pré-clínicos com camundongos e, de acordo com artigo publicado na revista Science Translational Medicine, o tratamento conseguiu suprimir tumores e apresentou resultados promissores.

Esse coquetel instrui as células do corpo a produzir quatro moléculas que têm como alvo tumores malignos de cólon (câncer de intestino) e melanoma (um tipo de câncer de pele). A grande questão desse tratamento é que as citocinas – que são proteínas que modulam a função de outras células – têm meia-vida curta, além de poderem desencadear efeitos colaterais quando administradas diretamente em tumores. Contudo, o RNA mensageiro pode ser uma boa estratégia para evitar que isso aconteça.

Nesse tratamento, o mRNA vai operar induzindo a produção de citocinas que ajudam o sistema imunológico no combate ao câncer. Os testes foram realizados com 20 camundongos com tumores de cólon e melanoma e, em 17 deles, houve regressão completa do câncer. Foram adicionados ao coquetel inibidores que bloqueiam os “freios” do sistema imunológico e ajudam no reconhecimento e combate das células cancerígenas.

Segundo os autores do estudo, a combinação do mRNA com anticorpos imunomoduladores aumentou as respostas antitumorais dos animais. Agora, o próximo passo é iniciar uma primeira fase de testes clínicos com pessoas que apresentam tumores, que será realizada pela BioNTech em parceria com a empresa farmacêutica Sanofi.

O mRNA será eficaz, inclusive, para o aprimoramento de vacinas já existentes. O desenvolvimento de um novo imunizante contra a gripe, por exemplo, está nos planos de empresas como a Pfizer.

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