Johanna Geron/ Reuters
Johanna Geron/ Reuters

Como as crianças são impactadas pela covid-19? Pesquisadores miram dois quadros graves

Uma ampla análise constatou que jovens hospitalizados com covid-19 aguda têm sintomas e características que diferem em relação aos casos de síndrome inflamatória decorrente da infecção

Pam Belluck, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 14h00

Um amplo estudo realizado em âmbito nacional, nos EUA, descobriu importantes diferenças entre os dois principais quadros graves que as crianças desenvolvem em razão do coronavírus, descobertas que poderão ajudar médicos e pais a reconhecer melhor cada condição e entender melhor os riscos que as crianças correm com cada uma delas.

O estudo, publicado na quarta-feira, 24, pela revista científica JAMA, analisou 1.116 casos de pessoas jovens que foram tratadas em 66 hospitais, de 31 Estados. Pouco mais da metade dos pacientes sofria de covid-19 aguda, a doença predominantemente pulmonar que aflige a maioria dos adultos que adoece do vírus, enquanto 539 pacientes apresentavam a síndrome inflamatória que afetou crianças semanas após elas terem uma infecção inicial geralmente branda.

Os pesquisadores encontraram algumas similaridades, mas também significativas diferenças em sintomas e características dos pacientes que participaram do estudo, que foram desde crianças pequenas até jovens de 20 anos, hospitalizados entre 15 de março e 31 de outubro.

As idades mais frequentes dos pacientes que apresentaram a síndrome - chamada Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças, ou MIS-C, na sigla em inglês - foram de 6 a 12 anos, enquanto mais de 80% dos que apresentaram covid-19 aguda tinham menos de 6 anos ou mais de 12.

Mais de dois terços dos pacientes com qualquer das condições eram negros ou hispânicos, o que, segundo especialistas, reflete fatores socioeconômicos e de outras naturezas que expuseram de maneira desproporcional certas comunidades ao vírus.

“Ainda choca o fato de a esmagadora maioria dos pacientes serem não brancos, e isso ocorre tanto em casos de MIS-C quando de covid aguda”, afirmou Jean Ballweg, diretora médica para transplante cardíaco pediátrico e insuficiência cardíaca no Hospital Pediátrico e Centro Médico de Omaha, Nebraska, que não participou do estudo. “Há aqui uma evidente desigualdade racial.”

Por razões que não estão claras, enquanto jovens hispânicos se mostraram igualmente sujeitos às duas condições, crianças negras pareceram ter maior risco de desenvolver a síndrome inflamatória, em vez de covid aguda, afirmou Adrienne Randolph, médica que foi a principal autora do estudo, especialista em cuidado pediátrico intensivo no Hospital Pediátrico de Boston.

Uma possível pista mencionada pelos autores é que, com a síndrome de Kawasaki - uma rara doença inflamatória que ocorre na infância, similar em alguns aspectos à MIS-C - crianças negras parecem apresentar disfunções cardíacas com maior frequência e reagem menos à imunoglobulina intravenosa, um dos tratamentos padrão.

Os pesquisadores descobriram que, entre os jovens com a síndrome inflamatória, a probabilidade de não terem nenhum problema médico anterior era significativamente maior em relação àqueles com covid-19 aguda. Ainda assim, mais de um terço dos pacientes com covid aguda não tinha problemas de saúde anteriores. “As crianças saudáveis não são completamente inatingíveis”, afirmou Adrienne.

O estudo analisou casos de obesidade separadamente de outros problemas de saúde anteriores, em pacientes com 2 anos ou mais, e descobriu que uma porcentagem um pouco maior de jovens com covid-19 aguda é obesa.

Srinivas Murthy, professor associado de pediatria na Universidade da Colúmbia Britânica, que não participou do estudo, afirmou não estar convencido de que as descobertas constatam que crianças saudáveis correm maior risco de apresentar MIS-C. Isso poderia ser “principalmente um efeito dos números, mostrando a proporção de crianças infectadas e a proporção de crianças saudáveis existente, em vez de dizer se há algo a respeito da imunidade das crianças saudáveis que as coloca sob um risco desproporcionalmente alto”, afirmou ele.

De maneira geral, afirmou ele, a documentação do estudo a respeito das diferenças entre as duas condições foi útil, especialmente porque refletiu a situação de “um número razoavelmente representativo de hospitais dos EUA”.

Jovens com a síndrome inflamatória se mostraram mais propensos a precisarem de tratamento em UTI. Seus sintomas incluíram com muito mais frequência problemas gastrointestinais e inflamações - e afetaram mais a pele e as mucosas. Também é muito maior a probabilidade de apresentarem problemas cardíacos, apesar de poucos dos pacientes com covid aguda terem feito exames cardíacos detalhados, ressaltou o estudo.

Aproximadamente a mesma proporção de pacientes com cada condição - mais da metade - precisou de assistência respiratória, e pouco menos de um terço deles precisou de ventilação mecânica. Aproximadamente o mesmo número de pacientes de cada grupo morreu: 10 com MIS-C e oito com covid-19 aguda.

Os dados não refletem a recente elevação nos casos de síndrome inflamatória que se seguiu ao crescimento geral nas infecções em todo o país após a temporada de festas de fim de ano. Alguns hospitais relataram um número maior de pacientes graves com MIS-C na onda atual em comparação às anteriores.

“Espero um choque ao ver a comparação dos casos a partir de 1.º de novembro com esse grupo, porque acho que todos sentimos que as crianças com MIS-C têm apresentado quadros mais graves recentemente”, afirmou Jean Ballweg.

Um indício otimista do estudo foi que os casos mais severos de problemas cardíacos nos jovens com a síndrome inflamatória evoluíram para condições normais em 30 dias. Ainda assim, Adrienne afirmou que efeitos residuais continuam desconhecidos, e é por isso que uma das coautoras do estudo, Jane Newburger, diretora associada para assuntos acadêmicos do departamento de cardiologia do Hospital Pediátrico de Boston, está liderando um estudo nacional para acompanhar por até cinco anos crianças que apresentaram a síndrome inflamatória.

“Não podemos afirmar com 100% de certeza que tudo será normal no longo prazo”, afirmou Adrienne. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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