DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Novo coronavírus faz universitários brasileiros desistirem de intercâmbio

Aluna de Relações Internacionais abandonou planos de ir para a Coreia do Sul; UFABC também cancelou visita de equipe chinesa

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - A poucos dias de embarcar para Seul, na Coreia do Sul, a estudante Letícia Stabelini, de 21 anos, acompanhava com apreensão os boletins diários do coronavírus. Aprovada para cursar um semestre de Relações Internacionais em uma universidade sul-coreana, ela confiava nas orientações dadas pela instituição, que garantia ter condições de receber os alunos estrangeiros. Com a explosão de casos no país, no entanto, ela desistiu do intercâmbio. 

Até agora, além da China, 70 países tiveram casos – metade na Coreia do Sul, que ainda relatou 26 mortes. “As epidemias em Coreia do Sul, Itália, Irã e Japão são as maiores preocupações”, disse ontem o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus. 

“Era o meu sonho ir para a Coreia do Sul, parei toda a minha vida para realizá-lo, fiz todo um planejamento, mas não posso arriscar minha saúde dessa forma”, disse Letícia. Ela foi aprovada para o intercâmbio no ano passado, em um processo seletivo conduzido pela Universidade Federal do ABC (UFABC), onde está no 3.º ano de Relações Internacionais. A instituição brasileira mantém um acordo de mobilidade com a universidade sul-coreana para a troca de estudantes. 

As aulas de Letícia teriam início nesta terça-feira, 3, mas a data foi adiada já no fim de janeiro, quando teve início o surto na China. “Enviaram um comunicado, dizendo que as aulas teriam início apenas em 16 de março para que os alunos que viessem da China ficassem em quarentena durante esse período e pudessem iniciar o ano letivo conosco”, contou Letícia. A insegurança da jovem, no entanto, começou quando o número de casos se estendeu para a Coreia do Sul. “O que adianta isolar quem vem de fora, se eles também têm muitos casos?” Ela e outros dois colegas da UFABC desistiram de viajar. Há ainda mais um estudante que cancelou a viagem para o Japão, que já tem 254 casos da doença confirmados. “Saí do meu estágio, tranquei disciplinas, corro até o risco de atrasar minha graduação. Mas é melhor do que arriscar minha saúde.”

Dalmo Mandelli, assessor de Relações Internacionais da UFABC, disse que a instituição ajudou os alunos a procurar informações seguras sobre a situação, mas deu liberdade para que decidissem sobre manter ou não o intercâmbio. “Temos cerca de cem alunos aprovados para estudar fora e não sabemos se há uma orientação única a ser dada. Estamos ajudando a analisar caso a caso.” A universidade receberia neste mês uma comitiva de professores de uma universidade chinesa para a assinatura de um acordo de mobilidade. O grupo cancelou a vinda. “Infelizmente, não sabemos se eles pretendem vir em outro momento. Era um acordo muito importante para nós, já que iria garantir mais opções de intercâmbio para alunos, professores e pesquisadores”, disse.

Em outras universidades do País também há uma sensação de insegurança. A Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani) também orientou os alunos para que observem as recomendações internacionais. Em nota, orientou que as bolsas concedidas pela agência serão mantidas e podem ser usadas em outro momento, caso seja necessário adiar a viagem.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também disse estar acompanhando o quadro, mas afirmou ainda não ter tido nenhum cancelamento ou prejuízo. Dois alunos da Unicamp estão na China, um em Pequim e o outro em Taiwan, e seguem os protocolos estabelecidos pelas universidades onde estudam. 

Surto já motivou suspensão de aulas na China e no Japão

A epidemia de coronavírus fez com que as crianças da China e Japão tivessem as aulas suspensas até que a disseminação da doença seja contida.  No Japão, a suspensão das aulas começou nessa segunda-feira, 2, e fica em vigor até o início de abril, quando se inicia o novo ano letivo do sistema educacional japonês. Autoridades de Tóquio confirmaram nas últimas 24 horas 35 novos casos da doença, elevando o total de casos para 207, com quatro mortes. 

Já a China, determinou que a reabertura das escolas fosse adiada por tempo indeterminado. O país, epicentro do surto, já tem mais de 78 mil pessoas diagnosticadas com a doença, sendo que mais de 2,7 mil morreram. O governo sul-coreano também resolveu adiar o início das aulas em duas semanas este mês para evitar o avanço da doença. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.