Gabriela Biló/estadão
Nelson Teich, novo Ministro da Saúde Gabriela Biló/estadão

Novo ministro da Saúde propõe 'programa de testes' para conhecer o coronavírus

Nelson Teich assumiu o lugar de Luiz Henrique Mandetta nesta quinta-feira

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 19h40

BRASÍLIA - O médico Nelson Teich, anunciado nesta quinta-feira, 16, pelo presidente Jair Bolsonaro como o novo ministro da Saúde, pretende elaborar um "programa de testes" para ampliar a quantidade de informações sobre a disseminação do novo coronavírus no País e, com isso, "conhecer a doença".

A ideia foi lançada na primeira manifestação após ser apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, como o substituto do atual chefe da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Os critérios para aplicação dos testes, porém, ainda não estão definidos, mas o plano do novo ministro é estabelecer uma política específica.

"Esse programa de testes vai ter que envolver SUS, saúde suplementar, a iniciativa do empresariado. Tem que fazer um grande programa. Tem que definir qual a melhor forma, como vai fazer a amostra, que tipo de testes, se é o paciente sintomático, se é assintomático", disse o oncologista. "Isso vai gerar capacidade de entender o momento, a doença e vai gerar capacidade de definir ações."

Por causa da escassez de testes disponíveis, a prioridade tem sido submeter a exames apenas pacientes internados com quadro de síndrome respiratória aguda grave, além de profissionais de saúde e de segurança pública. Especialistas alertam que a subnotificação de casos de covid-19 prejudica um mapeamento preciso do quadro brasileiro.

Apesar de os exames não serem disponibilizados em massa, a equipe que está de saída do Ministério da Saúde vinha exaltando a capacidade de oferecer testes. "A questão do teste é extremamente complexa. O que o Ministério da Saúde tem conseguido é motivo de satisfação", afirmou o atual secretário-executivo da pasta, João Gabbardo, na semana passada.

O Estado informou na semana passada que mais da metade dos 22,9 milhões de testes esperados pelo Ministério da Saúde não possui data para chegar no País. Além disso, a pasta detectou "limitações importantes" nos 500 mil testes rápidos doados pela mineradora Vale, fabricados na China, e pediu cautela a gestores do SUS ao aplicar o produto.

A desconfiança do governo federal surgiu após análise de qualidade de um laboratório privado, feita a pedido da pasta, apontar 75% de chance de erro em resultados negativos para o novo coronavírus. O porcentual de erro cai para 14% em exames positivos, que apontam a infecção, mesmo assim o governo sugeriu que o produto seja aplicado apenas em pessoas que apresentem sintomas da covid-19 há ao menos sete dias para evitar diagnóstico falso.

Informação

Ao longo do primeiro discurso, Teich insistiu que a carência de "informações sólidas" sobre a doença não permite ações efetivas para contê-la.

"Como temos pouca informação, a gente começa a tratar a ideia como se fosse fato. E começa a trabalhar cada decisão como se fosse um tudo ou nada. E não é nada disso", disse, antes de prosseguir: "O fundamental é que isso seja cada vez mais baseado em informação sólida. Quanto menos informação você tem, mais aquilo é discutido na emoção. Isso é ineficiente."

O novo ministro criticou a polarização entre saúde e economia nas discussões sobre a pandemia. Para ele, tratam-se de coisas complementares, que cooperam entre si. "Existe um alinhamento completo entre mim e o presidente. O que estamos fazendo aqui é trabalhar para que sociedade retome de forma cada vez mais rápida uma vida normal", finalizou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Em artigos, novo titular da Saúde já criticou isolamento vertical e elogiou Mandetta

Teich também defendeu ideias alinhas com as de Bolsonaro, como a necessidade de projeções que considerem 'o impacto de uma crise econômica nos níveis de saúde e mortalidade'

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 19h49

O oncologista que será empossado como novo ministro da Saúde, em substituição a Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich já escreveu artigos em que defende o isolamento horizontal, aponta fragilidades do isolamento vertical – modelo defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e elogiou a atuação do agora antecessor.

Em três artigos publicados na plataforma LinkedIn nos dias 18 de março, 24 de março e um 3 de abril, Teich abordou especificamente a questão da pandemia do coronavírus. No primeiro, o médico faz uma defesa da telemedicina. É nesse artigo inicial em que consta o elogio à atuação do Mandetta frente à crise.

“Impossível falar sobre o problema da covid-19 no Brasil e não comentar a atuação brilhante do Ministro Luiz Henrique Mandetta. Excepcional condução, tranquilidade, equilíbrio, eficiência e enorme capacidade de comunicar de forma clara com a sociedade”, escreveu.

No segundo artigo, ele defende a necessidade de se conseguir o máximo de informações possível sobre a doença, para “rever diariamente a realidade, os cenários, as projeções e as ações”. Esse segundo texto traz as ideias mais alinhas as que Bolsonaro têm defendido publicamente, incluindo a necessidade de projeções sobre o coronavírus levarem em consideração “o impacto de uma crise econômica nos níveis de saúde e mortalidade da população”.

Sobre a necessidade de se olhar a crise pelo aspecto econômico ou da saúde, ele afirmou: “Não me coloco aqui como alguém que defende um lado ou outro, na verdade é o oposto, não pode existir lado”.

Em seu texto mais recente sobre o tema, ele se coloca explicitamente em favor da adoção do isolamento horizontal, “onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento”. O médico ainda aponta fragilidades do isolamento vertical, defendido pelo presidente, em que apenas pessoas de grupos de risco ficam em casa. 

“Sendo real a informação que a maioria das transmissões acontecem à partir de pessoas sem sintomas, se deixarmos as pessoas com maior risco de morte pela covid-19 em casa e liberarmos aqueles com menor risco para o trabalho, com o passar do tempo teríamos pessoas assintomáticas transmitindo a doença para as famílias, para as pessoas de alto risco que foram isoladas e ficaram em casa”, explicou.

“O ideal seria um isolamento estratégico ou inteligente. Vamos falar sobre isso mais à frente”, prometeu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Novo ministro da Saúde já propôs escolha entre tratar adolescente ou idosa com doença crônica

Escolhido por Bolsonaro, Nelson Teich afirmou, ano passado, que ‘dinheiro é limitado’ e questionou em quem investir na gestão de atendimentos

Mateus Vargas e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 18h29
Atualizado 17 de abril de 2020 | 10h03

BRASÍLIA – Escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para suceder a Luiz Henrique Mandetta (DEM) como ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich afirmou no ano passado que, na gestão do sistema de atendimentos, é preciso fazer escolhas. Como exemplo, Teich questionou em quem vale investir: uma idosa, com doença crônica e complicações, ou um jovem que tem “a vida inteira pela frente” (vídeo abaixo, a partir de 4m40s).

“Como você tem o dinheiro limitado. Você vai ter de fazer escolhas. Vai ter de definir onde vai investir. Eu tenho uma pessoa mais idosa, que tem doença crônica, avançada. E ela tem uma complicação. Para ela melhorar, eu vou gastar praticamente o mesmo dinheiro que vou gastar para investir num adolescente que está com problemas. Mesmo dinheiro que vou investir. É igual. Só que essa pessoa é um adolescente, que tem a vida inteira pela frente. A outra é uma pessoa idosa, que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”, disse Teich, sem concluir.

O oncologista ainda não tomou posse no cargo, mas foi anunciado nesta quinta-feira, 16, por Bolsonaro ao comando da Saúde. Ele assumirá a pasta após semanas de disputa entre o presidente e Mandetta, em plena crise da covid-19.

Na mesma fala em que propôs escolher tratar uma idosa ou um adolescente, Teich disse que há dois pontos “importantíssimos” na gestão da saúde. “O dinheiro é limitado e você tem de trabalhar com essa realidade. A segunda coisa, as escolhas são inevitáveis. Quais vão ser as escolhas que você vai fazer? Depois que você tem esse conhecimento de quanto dinheiro você tem e qual a necessidade que você tem de sanar, aí você aloca esse dinheiro”, disse.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e doutor em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista conta com apoio da classe médica e mantém boa relação com empresários do setor da saúde. A expectativa é de que Teich traga dados que destravem debates “politizados” sobre a covid-19.

Em outro vídeo, Teich critica embate entre Mandetta e Bolsonaro

Em outro vídeo, o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, trata de forma crítica a situação política provocada pelo embate entre seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente Jair Bolsonaro. “Eu acho que tem duas coisas que as muito ruins em relação a isso. Primeiro, é você não ter uma liderança, eu digo (no) País, que você perceba uma tranquilidade, você perceba um equilíbrio”, disse. “E ai não estou falando especificamente do presidente ou do Mandetta, eu estou falando da situação, porque numa situação como essa em que se trabalha com enorme incerteza, modelos matemáticos, análises, tudo é extremamente incerto.”

As declarações foram dadas num bate papo promovido por uma empresa privada do setor de saúde, que foi divulgado no canal do YouTube. Nessa conversa, Teich ponderou que havia um falso dilema entre a defesa da economia e a da saúde num tempo de “extrema crise”. “A saúde e a economia não são antagônicas. Foi criada uma situação em que investir na saúde é (como se) não estivesse investindo na economia e vice versa. São cooperativas”, afirmou. “Você vive uma época de guerra com informação demais, que nem sempre é de qualidade.”

Ao insistir no conflito entre Mandetta e Bolsonaro, o novo ministro disse que as informações são “confusas”. “Esse conflito, onde você coloca um contra o outro, quando deveriam estar abraçados, levando esse negócio juntos e passando o máximo de tranquilidade possível, é ruim não só pela mensagem que é mandada à sociedade, mas é ruim porque, provavelmente, você não tem a cooperação máxima possível”, ressaltou. “É muito ruim.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Veja o currículo de Nelson Teich, o novo ministro da Saúde do governo Bolsonaro

O oncologista Nelson Luiz Sperle Teich deixou o cargo menos de um mês após sua nomeação; médico e presidente Bolsonaro divergiram sobre uso da cloroquina

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h24
Atualizado 15 de maio de 2020 | 15h00

Menos de um mês após sua nomeação, o oncologista Nelson Teich deixou o comando do Ministério da Saúde do presidente Jair Bolsonaro após divergências sobre a administração da cloroquina, substância que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus. A cloroquina já pode ser utilizada em pacientes internados, mas Bolsonaro defende a mudança de protocolos para incentivar a utilização da substância mesmo em pacientes com sintomas leves. O médico substituiu Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta após semanas de embates públicos com o presidente e discordava dos mesmos pontos que Teich na condução da pandemia.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista inicialmente contava com o apoio da classe médica e mantinha boa relação com empresários do setor da saúde.

"Ele tem uma ótima reputação e ouvindo o que ele já falou parece que começou bem. Ele tem um enorme desafio pela frente e sucede um ministro que sempre teve nosso apoio. Todos queremos que ele tenha um desempenho tão bom ou ainda melhor que o do Mandetta. Quando ele enfatizou a importância de continuar baseado em evidencia cientírica e critérios técnicos já responde as expectativas que nós todos temos", disse à época Rubens Belfort Jr, presidente da Academia Nacional de Medicina.

Em um artigo publicado em 3 de abril no LinkedIn, Teich criticava a “polarização” entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, escreveu. 

Teich não é defensor do isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas com doenças graves são colocadas em quarentena. O modelo é defendido por Bolsonaro e foi um dos principais fatores de desgaste entre o presidente e o ministro Mandetta, que apostou no isolamento horizontal.

Teich tinha o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, e dos militares para ser ministro logo no início do mandato. Na ocasião, Bolsonaro acabou optando por Mandetta, que era, na verdade, um perfil mais político. Desde antes de assumir o posto, Teich era visto por colegas médicos como alguém que dificilmente vai se dobrar a decisões de Bolsonaro que não se amparam em critérios técnicos.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre o isolamento vertical?

Nelson Teich publicou três artigos sobre o coronavírus em sua página pessoal no LinkedIn. No texto mais recente, de 2 de abril, o oncologista defende o isolamento horizontal como a “melhor estratégia no momento” no combate à pandemia. 

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento. Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, escreveu Teich.

Teich vê “fragilidades” no isolamento vertical, modelo defendido por Bolsonaro em que apenas idosos e pessoas com doenças graves ficariam em quarentena. O médico ressalta, no entanto, que nenhum dos modelos seria o ideal e defende um “isolamento estratégico”.

“Estamos falando aqui do uso de testes em massa para covid-19 e de estratégias de rastreamento e monitorização, algo que poderia ser rapidamente feito com o auxílio das operadoras de telefonia celular”, afirmou.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre a cloroquina?

Em um dos textos no LinkedIn, o oncologista menciona a cloroquina como uma esperança no tratamento da doença, mas não se posiciona sobre a forma como a substância deve ser usada.

Em 2016, em entrevista ao site Medscape, Teich criticou a liberação da venda da fosfoetanolamina, que ficou conhecida como a “pílula do câncer”, mas disse que o uso de substâncias sem eficácia comprovada é um direito do paciente.

“É uma decisão política e populista que quebra um processo estruturado de avaliação de medicamentos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: você, como médico, está lá para orientar o paciente. Se ele quer fazer uso da substância é um direito dele. (...) Usar algo que não tem comprovação científica é uma escolha individual”, afirmou o oncologista.

Teich, no entanto, defende que o custo da aquisição de um medicamento sem comprovação científica deve ser arcada pelo paciente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.