Scott Sinkler via The New York Times
Scott Sinkler via The New York Times

Número de adultos obesos mais que dobra no Brasil entre 2003 e 2019, diz IBGE

Um em cada quatro brasileiros com mais de 20 anos está nesse grupo; problema é pior entre mulheres

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 10h00
Atualizado 21 de outubro de 2020 | 18h44

RIO - O Brasil está cada vez mais gordo. A despeito de repetidos alertas sobre a importância de manter alimentação balanceada e de praticar exercícios físicos com frequência, a população brasileira continua engordando. Entre 2003 e 2019, o número de pessoas obesas com mais de 20 anos de idade mais que dobrou no País. Passou de 12,2% para 26,8%. Os dados estão no Volume 2 da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, divulgada na manhã desta quarta-feira, 21.

Se o número de obesos continuar crescendo neste ritmo, alertam especialistas, em quinze anos o Brasil entrará para o grupo de países onde mais de 30% da população são obesos. É o caso dos Estados Unidos, do México e da Austrália. O problema está ligado à profunda desigualdade econômica e social do País.

“A desigualdade é um grande problema. Em sociedades onde a desigualdade é profunda, a obesidade tende a crescer”, afirmou o especialista Wolney Conde, da Universidade de São Paulo (USP).

“Toda a nossa campanha de prevenção é voltada para os esforços individuais. Mas precisamos nos voltar também para as questões sociais. Ou seja, se não tem condições de preço, de oferta, de alimentos saudáveis, é difícil fazer com que pessoas comam de forma mais correta. Se a pessoa não tem tempo disponível em sua jornada diária, se não tem equipamentos disponíveis perto de casa para se exercitar, ela não vai conseguir fazer isso. O Estado precisa agir sobre esses outros aspectos para que o cidadão possa fazer as escolhas individuais a favor de sua saúde. Em condições tão desiguais, as chances de sucesso das escolhas individuais serão muito baixas.”

A pesquisa mostra que, entre 2003 e 2019, a prevalência da obesidade feminina foi a que mais aumentou. Passou de 14,5% para 30,2%. Ficou bem acima da masculina, que subiu de 9,6% para 22,8%. Atualmente, uma em cada quatro pessoas com 18 anos ou mais é obesa no Brasil.

“A gente sabe que a obesidade é uma doença crônica, complexa, que existe uma biologia que favorece o ganho de peso. Não dá para responsabilizar o indivíduo”, afirmou a endocrinologista Cintia Cercato, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). “Precisamos mais do que nunca ter políticas públicas para a prevenção da obesidade, como regulamentação da alimentação escolar, rotulagem de alimentos, marketing de ultraprocessados voltados para crianças, sobretaxação de bebidas açucaradas e até redução para os alimentos saudáveis.”

O número de pessoas com excesso de peso também vem crescendo consistentemente. Entre 2003 e 2019, a proporção de pessoas com excesso de peso na população com 20 anos ou mais subiu de 43,3% para 61,7%. Mais uma vez o aumento foi maior entre as mulheres, de 43,2% para 63,3%. Entre os homens, foi de 43,3% para 60%.

“Essas pessoas precisam ter acesso a tratamento, precisam ser tratadas, esses tratamentos têm que estar disponibilizados em linha de atendimento do SUS”, frisou Cintia. “Atualmente, o SUS só oferece tratamento cirúrgico para casos extremos e, ainda assim, em número muito reduzido.”

Embora a obesidade e o excesso de peso sejam menos prevalentes entre os adolescentes, também atingem essa faixa de idade  em porcentuais significativos. O levantamento mostra que 6,7% dos adolescentes com 18 anos ou mais são obesos. O percentual de excesso de peso é bem mais alto, chegando a 19,4%.

A prevalência de déficit de peso em adultos com 18 ou mais anos de idade foi de 1,6%, (1,7% para homens e 1,5% para mulheres). Ficou, portanto, bem abaixo do limite de 5% fixado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como indicativo de exposição da população adulta à desnutrição.

Em 2019, pela primeira vez, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) coletou informações sobre a Atenção Primária à Saúde (APS). O questionário foi aplicado aos moradores com 18 anos ou mais que tiveram pelo menos dois atendimentos com o mesmo médico em Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Unidades de Saúde da Família (USF).

As respostas dos questionários receberam valores que foram usados para calcular o Escore Geral da APS, que varia de 0 a 10. Um escore igual ou superior a 6,6 aponta boa qualidade de atenção primária à saúde. O Escore Geral da APS obtido na pesquisa no Brasil foi de 5,9 – ou seja, abaixo do ideal.

Os moradores cujos domicílios eram cadastrados em unidades de saúde atribuíram um escore geral de 6,0. Já os moradores de domicílios não cadastrados avaliaram a APS com nota 5,5. Entre aqueles que receberam pelo menos uma visita de algum agente comunitário ou membro da equipe de saúde, o indicador foi 6,1. Para os que nunca receberam nenhuma visita destes profissionais, foi de 5,7.

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