Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Número de atendimentos do TeleSUS despenca em meio ao avanço da covid-19

Programa dispara ligações guiadas por um algoritmo para repassar orientações e questionar a população sobre sintomas da doença. Em abril e maio, foram mais de 23 milhões de interações. Em junho, o número caiu para 2 milhões

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2020 | 12h00

BRASÍLIA – O número de atendimentos remotos e gratuitos por plataformas do TeleSUS despencou em pleno avanço da covid-19. Segundo documentos internos obtidos pelo Estadão, o serviço de “busca ativa” de pacientes foi o mais atingido. Trata-se da modalidade em que o programa dispara milhões de ligações, guiadas por um algoritmo, para repassar orientações e questionar a população sobre sintomas da doença.

Ampliado pelo Ministério da Saúde durante a pandemia da covid-19, o TeleSUS é acessado pelo telefone “136”, por um “chat” no site governo federal ou em um aplicativo para celulares. Além destes serviços, há as ligações feitas pelo programa. Segundo dados da pasta, foram feitas 67 milhões tentativas de contatos em abril e maio, por meio de todos os canais do TeleSUS. No mês seguinte, 7,1 milhões.

Também caiu o número de contatos concluídos, ou seja, quando o questionário feito por telefone, chat ou aplicativo é finalizado e o paciente recebe uma orientação. Em abril e maio, foram 23,5 milhões de interações completas. Até o fim de junho, menos de 2 milhões.

No auge do TeleSUS, o Ministério da Saúde chegou a concluir 6,5 milhões de contatos de 20 a 26 de abril. Na última semana de junho, foram 401,8 mil.

Gráficos sobre ligações concluídas pelo TeleSUS, obtidos pelo Estadão, mostram que está próximo de zero o número de chamadas repassados a um profissional de saúde e originadas pela “busca ativa”. Segundo gestores do SUS que acompanham o programa, o TeleSUS opera, hoje, praticamente apenas por meio de pessoas que buscam os canais do governo ou com chamadas de acompanhamento de pacientes que já fizeram este contato.

A queda da "busca ativa" explica-se pela falta de repasse de bases de dados do Ministério da Saúde a empresas contratadas para executar as ligações, dizem gestores de saúde e integrantes do governo. A versão é reforçada por documentos internos da Saúde. A redução das ligações acompanhou também a troca de ministros e do comando da Secretaria de Atenção Primária (SAPS), que faz a gestão do TeleSUS.

A médica sanitarista e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gulnar Azevedo, lamenta o esvaziamento do TeleSUS. "É mais um passo da inexistência de um plano efetivo de enfrentamento da covid-19", disse. A médica afirma que a vigilância epidemiológica é essencial para controle de qualquer surto. "Neste caso, como há dificuldade de deslocamento, pois pessoas indo ao serviço médico as pessoas disseminam o vírus, se investe no teleatendimento. A cada caso confirmado, deve-se buscar os contatos . É fundamental manter o serviço."

Questionamentos

O TeleSUS foi criado na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM), e está sob questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU). No fim de maio, o órgão pediu “esclarecimentos” sobre o valor dos contratos para execução do programa.

A pasta tem contrato de R$ 144 milhões com a TopMed, para realizar 6,7 milhões de atendimentos a distância. O teleatendimento é feito por médicos e enfermeiros. Além disso, o governo fechou negócio de R$ 46,8 milhões com a TalkTelecom para executar 120 milhões de ligações para contatos repassados pelo ministério. O pagamento é realizado por serviço. Questionado, o ministério não informou quando desembolsou com o TeleSUS. A pasta nega irregularidades nas contratações.

Ex-secretário de Atenção Primária e responsável por implantar o TeleSUS, o médico Erno Harzheim afirma que a ideia do programa era realizar amplo monitoramento da população durante a pandemia, para evitar que pacientes com sintomas leves fossem a locais de atendimento e fizessem o vírus circular.

Além disso, o ministério desejava orientar precocemente o isolamento de suspeitos da doença. O programa, inclusive, envia prescrições e atestados médicos de forma remota, via mensagem de celular. Estava ainda nos planos criar uma espécie de voucher para testes de diagnóstico da covid-19, que seria enviado pelo TeleSUS e apresentado em unidades de saúde.

Questionado sobre a queda de atendimentos pelo TeleSUS, o Ministério da Saúde disse "tem incentivado o atendimento e acompanhamento médico já nos casos leves". "Sobre a estratégia do TeleSUS, a oferta do serviço acompanha a demanda da população e estratégias definidas para a assistência e o atendimento dos pacientes com Covid-19", afirmou a pasta.

A TopMed informou que o volume de atendimentos caiu "especialmente no canal que faz a busca ativa", mas que o serviço continua em outras plataformas. A empresa TalkTelecom  não se manifestou  

Como funciona

"Bem vindo ao disque saúde 136. Se você está apresentando sintomas como febre, tosse, dor de garganta e dificuldade para respirar, tecle 1." 

Dita por um robô, esta frase abre o contato com o TeleSUS para quem telefona ao número "136". Pessoas que navegam pelo serviço optam por ouvir informações sobre sintomas, cuidados, tratamentos, entre outras informações da pandemia. Há ainda dados sobre outras doenças e programas da Saúde.

Se as dúvidas sobre a covid-19 persistirem ou se quem fizer o contato mostrar que pode ter a doença, a ligação é repassada para um atendente. 

O contato é feito com enfermeiros, técnicos de enfermagem ou médicos. Um algoritmo direciona a chamada a cada um destes profissionais, conforme as opções escolhidas por quem acessa o serviço. 

O Estadão questionou nesta quarta-feira, 8, um atendente do TeleSUS se um uma pessoa que teve contato recente com um caso confirmado da covid-19 deve se isolar. A orientação foi de quarentena de 14 dias. Se sintomas da doença surgirem, deve-se retornar ao TeleSUS ou buscar serviço médico, disse o profissional de saúde.

A situação simulada pela reportagem ao atendente é idêntica à de ministros, empresários e jornalistas que tiveram contato nos últimos dias com o presidente Jair Bolsonaro, que confirmou na terça-feira, 7, ter contraído a doença. O Palácio do Planalto, no entanto, afirmou que não há protocolo de isolamento por um "simples contato" com infectado. 

O algoritmo do TeleSUS, criado pelo Ministério da Saúde, ainda determina por quanto tempo e com qual frequência quem busca o serviço -- ou é procurado por ele -- será monitorado. Em casos de menor risco, o paciente recebe ligações a cada 48 horas e durante 14 dias. Um robô questiona se há sintomas da doença. Conforme a resposta, a ligação é transferida a um profissional de saúde. 

Em casos mais graves, a orientação pode ser de ligar ao Samu. E um profissional de saúde fará ligação na hora seguinte para saber se tudo corre como esperado. Apesar de ser procurado por pacientes, a busca ativa é o principal serviço do TeleSUS. O serviço responde por cerca de 20 milhões das 25,5 milhões de interações concluídas pelo TeleSUS. 

O Ministério da Saúde manteve contato remoto com 4,9 milhões de pessoas que acessaram o TeleSUS até o fim de junho. A pasta realizou ligações periódicas para questionar se os sintomas da covid-19 se mantinham. Destas, cerca de 2 milhões chegaram a ser encaminhadas para uma teleconsuta com profissionais de saúde.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.