Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Número de médicos mais que dobrou em 20 anos, mas qualidade ainda desafia serviços de saúde

Total foi de 239 mil para cerca de meio milhão; políticas de interiorização de cursos não fixaram profissionais longe dos grandes centros

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 22h40

RIO - O número de médicos no País mais do que dobrou nos últimos 20 anos, como mostra a Demografia Médica no Brasil, um levantamento feito em conjunto pela USP e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), divulgado na tarde desta terça-feira. Este aumento significativo no número de profissionais, no entanto, não se traduziu em ganho de qualidade nos serviços de saúde para a população brasileira.

Para se ter uma ideia, em 2000 o País contava com 239 mil médicos. O número saltou para 320 mil em 2010 e, agora, para 500 mil. Este número indica que temos, no Brasil, 2,4 médicos por mil habitantes, um índice alto, comparável ao de países como o Reino Unido (2,8 por mil), Estados Unidos (2,6) e Japão (2,4). No entanto, os médicos brasileiros estão altamente concentrados nas grandes cidades. São cerca de 350 mil profissionais somente nas regiões sul e sudeste.

“Esse salto quantitativo no número de médicos é muito expressivo; um aumento grande em pouco tempo”, afirmou o professor Mário Scheffer, da Escola de Medicina da USP, responsável pelo levantamento. “Isso aconteceu em parte por conta da política de abertura de escolas de medicina, principalmente no interior do País, e também na suplementação de vagas em escolas que já existiam.”

De acordo com os especialistas, no entanto, a política de interiorização das escolas de medicina não manteve mais médicos no interior do País. Segundo eles, a grande maioria dos alunos que frequentam essas escolas vêm dos grandes centros e para lá retornam depois do curso.

A concentração não é apenas geográfica. Embora a rede privada atenda apenas 25% da população brasileira a maior parte dos médicos trabalha em hospitais particulares ou consultórios próprios. A pesquisa mostrou que 28% deles trabalham exclusivamente na rede privada, 22% apenas no serviço público (sendo 10% de residentes) e 50% dos profissionais acumulam trabalho nos dois setores.

“Houve um aumento expressivo no número de médicos, mas se manteve a tendência de se deslocaram apara os mesmos locais de concentração, as capitais e as grandes cidades, a maioria na rede privada”, disse Scheffer. “Ou seja, esse aumento não beneficiou de forma heterogênea nem a população no interior, nem o sistema de saúde. Temos 500 milhões de médicos, mas faltam médicos na atenção primária nos municípios sem assistência, nos serviços do SUS e nas periferias.”

Para o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Ribeiro, deveria haver uma política pública para que os médicos fossem para o interior. “O médico é um profissional como outro qualquer, não é um sacerdote; temos médico onde o mercado regula”, constatou Ribeiro. “Onde o mercado não regula, cabe ao governo federal ter políticas públicas para prover médicos e estrutura de trabalho. Se não for assim, dificilmente um médico vai querer trabalhar num lugar onde não tem emprego, nem formas de se sustentar com a clínica privada.”

Além do mais, argumenta Ribeiro, o número excessivo de profissionais pode ser prejudicial. No futuro, a projeção é de que mais da metade dos novos formandos não tenham onde fazer residência. Uma outra tendência apontada pela pesquisa é a da  feminização da profissão. Os homens ainda são maioria (53% contra 47%), mas, desde 2010, a maioria dos novos registros médicos é de mulheres. Atualmente, esse número é de 58%.

 

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