Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Número de transplantes de órgãos realizados no Brasil cai 37% em 2020

Dado do Ministério da Saúde faz comparação dos sete primeiros meses deste ano com o mesmo período do ano passado; redução é consequência da pandemia do novo coronavírus

Larissa Gaspar, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 18h13
Atualizado 24 de setembro de 2020 | 20h27

O Brasil registrou queda de 37% no número de transplantes de órgãos realizados entre janeiro e julho deste ano. Em 2019, foram realizados 15.827 transplantes e, no mesmo período em 2020, o número de procedimentos foi de 9.952. As doações de órgãos também tiveram queda de 8,4% em relação aos dados de 2019. Até 31 de julho, existiam 46.181 pacientes aguardando por transplante.

A redução foi consequência da pandemia do coronavírus, de acordo com nota divulgada pelo Ministério da Saúde nesta quinta-feira, 24. Os transplantes de medula óssea, pelo alto impacto imunológico, tiveram redução em 25,82%, passando de 2.130 em 2019 para 1.580, em 2020. Os transplantes de coração caíram 25,10%, passando de 231, em 2019, para 173 e os de rim, apesar da queda de 29,3%, passando de 3.569 para 2.759, seguem no primeiro lugar da lista de transplantes. 

O médico cirurgião do Hospital Sírio-Libânes e membro da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) Paulo Pêgo Fernandes comenta que os hospitais ficaram cheios com pacientes infectados pela covid-19 e as famílias tinham medo. “Não havia espaço para realização de transplantes e ainda não conhecíamos a doença para identificar se o doador possuía o vírus, como a covid-19 poderia ser passada para um paciente de transplante e como evitar isso. Hoje, estamos retomando até com um volume maior por conta da demanda reprimida”, diz. 

O paciente que irá receber um órgão recebe imunossupressores para evitar rejeição, deixando-o mais suscetível a infecções. Como forma de evitar o risco de infecção pela forma mais grave do coronavírus, os hospitais e ambulatórios tiveram que suspender os transplantes. Atualmente, os procedimentos retomaram com reforço de segurança, como a radiografia dos pulmões do paciente recebedor e doador. 

O coordenador Médico do Programa de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein,  Eduardo Afonso Jr, complementa que a imunossupressão é mais intensa justamente nos primeiros dias de pós operatório, conferindo risco ainda maior nessa fase. “Se o hospital que realiza transplantes não possui fluxos e protocolos muito bem desenvolvidos para proteção da transmissão intra-hospitalar da covid-19, transplantar um paciente na situação de pandemia pode oferecer risco aumentado de transmissão e consequentemente de morte no período pós operatório imediato”. Não há relatos, até o momento, de pacientes infectados durante a realização do transplante. Em alguns estados como São Paulo, a situação já está normalizada com resultados habituais de sobrevida. 

Os aspectos como logística de transporte de equipes, órgãos e tecidos entre Estados foi fortemente impactados pela redução no número de voos comerciais. “O Brasil é um país continental e, por isso, é imprescindível o transporte aéreo do órgão de um paciente do Nordeste para o Sul em tempo hábil”, explica Paulo. 

O Ministério da Saúde possui parceria firmada com companhias aéreas comerciais e com a Força Aérea Brasileira (FAB). Juntas, elas transportaram 608 órgãos no primeiro semestre de 2020, sendo 497 por voos comerciais e 111 pela FAB. Já no primeiro semestre do ano passado foram transportados 696 órgãos, sendo 626 por voos comerciais e 70 pela FAB.

O ministro da saúde, general Eduardo Pazuello, disse que a retomada dos procedimentos será subsidiada por protocolos rigorosos para garantir a segurança de todos. A principal adaptação é a testagem do doador e do paciente que será transplantado para a covid-19. “Pacientes no-pós operatório imediato não ficam em UTIs ou enfermarias que atendem pacientes com a doença. Visitas são reduzidas ou mesmo proibidas, para que familiares não tragam vírus para o hospital”, conta o coordenador do programa de transplantes José Eduardo.

O Sistema Nacional de Transplantes (SNT) incentivou as equipes de transplantes a acompanhar seus pacientes por meio de consultas em plataforma digital. “A utilização de telemedicina no atendimento desses pacientes para que não precisassem ir ao hospital se mostrou segura e custo-efetivo. Definitivamente, mesmo fora da pandemia, tais ferramentas continuarão sendo utilizadas e aprimoradas”, completa o coordenador. No ambulatório do Programa de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein, 70% dos atendimentos ambulatoriais passaram a ser realizados com modalidades a distância durante alguns meses da pandemia.

A medida visa a minimizar a circulação de pacientes portadores de doenças crônicas graves em unidades hospitalares. Com a instituição deste novo protocolo, pacientes assintomáticos que testaram positivo na chegada ao hospital não puderam realizar o procedimento, o que obrigou as equipes a selecionar outro paciente para o transplante.

Campanha para doação de órgãos

Há um ano, o ex-comerciante Odilon Evangelista da Silva, de 68 anos, recebeu um transplante de rim após dois anos na lista de espera. Ele conviveu com a insuficiência renal provocada pela diabetes por 5 anos, período em que fazia hemodiálise na Fresenius Morumbi. “Eu saía da clínica e ia direto para o samba. Sem o transplante eu não sei como seria a minha vida. Depois de dois anos e duas tentativas, eu achava que não tinha mais chance. No fim deu tudo certo e hoje eu levo uma vida normal, faço meu suco de limão com adoçante”, conta em referência ao “lado ruim” da hemodiálise que era não poder beber suco e água - momentos que adorava.

Todos os anos no Dia Nacional de Incentivo à Doação de Órgãos, em 27 de setembro, o Ministério da Saúde lança uma nova campanha de conscientização sobre a importância da doação de órgãos. Este ano, de acordo com a nota divulgada, “a campanha se tornou ainda mais necessária, tendo em vista o fato de que o Brasil contabilizava um número crescente de transplantes nos últimos anos”. As peças mostram a relação entre a espera da volta da vida ao normal que vivemos antes da pandemia, com a espera de alguém que aguarda pela doação de um órgão ou tecido. 

No primeiro semestre de 2020, houve um aumento na taxa de autorização de doação de órgãos de 68,2%. “É fruto de uma sociedade mais consciente do seu papel e da importância do gesto de doar. Por isso, é importante que os parentes e pessoas próximas saibam da vontade do seu familiar em ser doador”, ressalta Pazuello em nota.

O médico Paulo Fernandes reforça que o transplante começa pelo doador e por isso é importante conscientizar as famílias. “Temos estrutura e equipes, mas se não houver  doação, não tem transplante. E o brasileiro tem uma receptividade muito boa para a doação”, destaca.

Programa é garantido por meio do SUS

O Brasil possui o maior programa público de transplante de órgãos, tecidos e células do mundo, que é garantido a toda a população por meio do SUS, responsável pelo financiamento de cerca de 95% dos transplantes no país. 

O SNT é formado pelas 27 Centrais Estaduais de Transplantes; 13 Câmaras Técnicas Nacionais; 594 estabelecimentos de saúde; 1.420 equipes de transplantes; 574 Comissões Intra-hospitalares de Doações e Transplantes; e 68 Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos (OPOs).

O Ministério da Saúde repassa recursos para Estados e municípios apoiando a qualificação dos profissionais de saúde envolvidos nos processos de doação e transplante. O orçamento federal para essa área mais que dobrou em 11 anos (2008-2019), passando de R$ 458,4 milhões para R$ R$ 1,089 bilhão. 

Os recursos transferidos para o Plano Nacional de Implantação de Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos (OPO), no período de 2011 a setembro 2020, foram de R$ 148,1 milhões. O repasse para o custeio do Plano Nacional de Apoio às Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (PNA-CNCDO), no período de 2014 a setembro 2020, foi de R$ 67,5 milhões.

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