Paul Roger
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A urgência de ações de combate à obesidade infantil

Dois novos estudos na Dinamarca relacionaram o IMC elevado nos pequenos a um risco grande de câncer de cólon e AVC precoce na idade adulta

Jane E. Brody, The New York Times

18 Julho 2016 | 08h00

NOVA YORK - Doenças fatais, como problemas cardíacos, câncer, derrame e diabetes tipo 2, mais frequentemente afligem adultos, mas, muitas vezes, são consequências da obesidade infantil.

Dois novos estudos, feitos com mais de meio milhão de crianças na Dinamarca que foram acompanhadas por muitos anos, relacionaram um índice de massa corporal elevado nos pequenos a um risco aumentado de desenvolver câncer de cólon e sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) precoce na idade adulta. Os estudos, apresentados neste ano no Seminário Europeu de Obesidade em Gotemburgo, na Suécia, reforçam a importância de prevenir e reverter o ganho de peso excessivo em crianças e adolescentes.

Um estudo, com mais de 257.623 pessoas, feito pela Dra. Britt Wang Jensen e seus colegas do Instituto de Medicina Preventiva, em Bispebjerg, na Dinamarca, e do Hospital Frederiksberg em Copenhague, agrupou crianças de acordo com desvios-padrão de uma média de Índice de Massa Corporal (IMC), ajustado para idade e sexo.

Eles descobriram que cada unidade de aumento do excesso de peso aos 13 anos, geralmente correspondente a um incremento de dois a três pontos no IMC, ampliava o risco de desenvolver câncer de cólon em 9%, com risco de câncer do cólon sigmoide (a parte mais próxima do reto) aumentado em 11%.

O segundo estudo, envolvendo 307.677 dinamarqueses nascidos entre 1930 e 1987 e liderado pela Dra. Line Klingen Haugaard, usou um agrupamento semelhante de IMC. O risco de desenvolver um derrame no início da vida adulta aumentava 26% para mulheres e 21% para os homens para cada unidade em todas as fases da infância, mas, especialmente, aos 13 anos.

Embora nenhum dos estudos prove que o excesso de peso na infância - e não o fato de se estar acima do peso na idade adulta - seja responsável por maiores taxas de câncer e acidente vascular cerebral, crianças com sobrepeso estão muito mais propensas a se tornar adultos com excesso de peso, a menos que adotem e mantenham padrões mais saudáveis de alimentação e exercícios.

Segundo a Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente, a obesidade se desenvolve com maior frequência a partir de 5 ou 6 anos de idade, ou durante a adolescência, e os estudos têm demonstrado que uma criança obesa entre as idades de 10 e 13 tem 80% de chance de se tornar um adulto obeso.

Em uma análise publicada, em 2014, no periódico The New England Journal of Medicine, Solveig A. Cunningham e colegas da Universidade de Emory, constataram que "crianças de cinco anos com excesso de peso tinham quatro vezes mais probabilidade que as com peso normal de ser obesas aos 14 anos". O estudo, que envolveu uma amostra representativa de 7.738 crianças da pré-escola, descobriu que o risco de se tornarem obesas não diferia em relação ao status socioeconômico, raça ou grupo étnico ou peso no nascimento; em vez disso, mostrou que o ganho de peso em excesso no início da vida é um fator de risco para a obesidade mais tarde na infância em toda a população.

As crianças geralmente são consideradas obesas quando seu IMC é igual ou superior ao 95º percentil para outros da mesma idade e sexo. Atualmente, cerca de um terço das americanas apresenta sobrepeso ou obesidade. Até 2012, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), 18% das crianças e 21% dos adolescentes eram obesos.

Os efeitos adversos do excesso de peso na infância e adolescência não necessariamente aparecem apenas mais tarde na vida. Em uma revisão de complicações decorrentes da obesidade juvenil, o Dr. Stephen R. Daniels, pediatra da faculdade de Medicina da Universidade do Colorado e do Hospital Infantil em Denver, descobriu que problemas em muitos sistemas de órgãos frequentemente apareciam muito antes da idade adulta. E incluem hipertensão arterial, resistência à insulina e diabetes tipo 2, níveis elevados de triglicérides - que são prejudiciais ao coração - e baixos de colesterol protetor (HDL) no sangue, doença hepática não alcoólica, apneia obstrutiva do sono, asma e excesso de sobrecarga no sistema músculo-esquelético, resultando em desenvolvimento ósseo anormal, dores no joelho e no quadril e dor e para andar.

Os problemas da obesidade juvenil vão além do físico: adolescentes obesos têm taxas mais altas de depressão, que em si podem promover a má alimentação e baixos padrões de exercícios que aumentam o problema do peso e resultam em uma qualidade de vida pobre que persiste na vida adulta.

Em um estudo realizado em Cingapura, pesquisadores relataram que os indivíduos que eram obesos na infância são mais propensos a ter uma imagem corporal ruim e baixa autoestima e confiança, ainda mais do que aqueles cuja obesidade começou na vida adulta.

Outro estudo, feito pelo Dr. Jeffrey B. Schwimmer, da Universidade da Califórnia, em San Diego, e colegas, descobriu que adolescentes e crianças obesas relataram uma qualidade de vida reduzida, comparável à de crianças com câncer.

Tomados em conjunto, os dados falam da importância fundamental da prevenção de ganho de peso excessivo em crianças, tarefa que depende em grande parte dos pais, responsáveis pelo conteúdo e pela quantidade do que as crianças comem e em quais atividades físicas elas se envolvem.

Como foi dito por pesquisadores da Universidade do Centro Médico Groningen, na Holanda, o reconhecimento precoce, pelos pais, do sobrepeso ou da obesidade dos filhos é de extrema importância, permitindo que haja intervenções bem cedo na vida. No entanto, descobriram em um estudo com os pais de 2.203 crianças de cinco anos, que eles subestimavam o sobrepeso em 85% dos casos.

Embora pareça lógico que pais que percebam que seus filhos estão com sobrepeso façam um esforço especial para assegurar que os pequenos cheguem a um bom peso ao crescerem, a pesquisa mostrou o contrário: eles tendem a ficar ainda mais gordos, de acordo com as conclusões do Estudo Longitudinal de Crianças Australianas, divulgado em abril na revista Pediatrics por Eric Robinson, da Universidade de Liverpool, e Angelina R. Sutin, da Escola de Medicina da Universidade Estadual da Flórida.

Mesmo o fato de serem rotuladas como tendo excesso de peso pode ser prejudicial e dificultar a adoção de bons hábitos para as crianças, sugeriram os autores. Um estudo de 2014 com meninas entre 10 e 19 de idade descobriu que "independentemente do peso real, as adolescentes que relataram ter sido rotuladas de 'gorda' por um familiar ou amigo estavam mais propensas a se tornar obesas quase uma década depois".

"Encorajo os pais a mudarem o ambiente em casa. Sem serem autoritários, devem limitar alimentos calóricos, manter bebidas adoçadas fora e garantir que as crianças comam a quantidade certa de frutas e legumes e menos lanches calóricos. Também precisam prestar atenção nas oportunidades de atividade física e definir regras rígidas sobre televisão e o tempo gasto com aparelhos eletrônicos", disse Daniels, da Universidade do Colorado, em uma entrevista.

Seguir o programa diário "5210" aprovado pela Academia Americana de Pediatria, pode ajudar: tentar consumir cinco frutas e legumes por dia, manter o entretenimento eletrônico em duas horas ou menos, incluir pelo menos uma hora brincadeiras ativas, esquecer bebidas açucaradas e beber água.

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