Tiago Queiroz/ESTADÃO
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O afeto na alimentação

Fazemos confusão ao achar que certas comidas expressam nosso amor às crianças

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 03h00

Crianças e adolescentes adoram comer porcarias, não é verdade? E as porcarias das quais eles gostam, precisamos reconhecer, são umas gostosuras. Salgadinhos, biscoitos recheados, refrigerantes, lanches de fast food, doces de todos os tipos e em todos os formatos, frituras. Deu água na boca? 

Sim, esses alimentos são apetitosos, sedutores e viciantes até para muitos de nós, adultos. Imagine então para os mais novos, que sabem muito bem o que querem e do que gostam. Eles só não sabem se o que eles gostam faz bem para eles... Nós sabemos, ou deveríamos saber, para que, no convívio com eles, pudéssemos ensinar, entre outras coisas, a boa alimentação mantenedora de saúde. 

Não é o que tem acontecido, pelos dados disponíveis em pesquisas e coleta de informações em diversos cantos do mundo. Estudo da Federação Mundial da Obesidade apontou que 268 milhões de crianças estarão acima do peso em 2025, o que provocará doenças como hipertensão, gordura no fígado e diabete tipo 2 na infância. A obesidade infantil será decisiva para reduzir a expectativa de vida da população e essa geração de crianças poderá viver menos do que seus pais. É alarmante! 

Mas, afinal, por que crianças e jovens consomem tanto essas porcarias? São diversos os fatores que colaboram para isso, mas vamos, aqui, tratar do que está ao alcance das famílias, escolas e adultos que convivem com os mais novos, para promover mudanças. 

Agora, muita atenção: Eles adoram consumir essas bobagens que nós, um dia, apresentamos a eles, que nós compramos regularmente e deixamos nos armários de casa, por exemplo. 

Exemplos não faltam. A mãe de um bebê de 2 anos contou que a garotinha recusa o que a mãe oferece e aponta para o armário onde estão guardados os biscoitos. Os pais de uma criança de 3 anos sentem pena quando o garoto, no supermercado, aponta para os salgadinhos e compram para ele. A mãe de gêmeos de 9 anos, ao buscar os filhos na escola bem depois de terminadas as aulas, sempre leva como mimo um lanche de fast food. 

Na cantina de uma escola, há dois tipos de alimentos: em uma parte, frituras, pizzas, cachorro-quente, doces; em outra, salada de frutas e assados. Qual as crianças escolhem? 

Pelo jeito, fazemos uma grande confusão: achamos que alguns alimentos expressam nosso amor às crianças e adolescentes. Entretanto, não são as comidas que representam nossos afetos. O ato de alimentar é que é um ato amoroso. Acontece que alimentar das maneiras exemplificadas acima não tem honrado essa função. 

Será que nos faltam informações? Certamente, não! É que queremos, a todo custo, ver um sorriso no rosto dos filhos e a alegria deles ao receber um doce quando chegamos tarde em casa, por exemplo, e lamentamos a choradeira na hora da alimentação. E, nesse nosso jeito juvenil de ser na atualidade, optamos por soluções mais rápidas e fáceis para nós. Agimos assim, muitas vezes impensadamente, porque estamos submetidos a valores de nossa cultura, principalmente o da busca incessante da felicidade – muitas vezes confundida com alegria e satisfação ou ausência de dificuldades – e o estímulo à vida prática que o consumo ou hiperconsumo oferecem. 

Mudamos os hábitos alimentares de nosso filhos: eles mal conhecem nossa cultura alimentar familiar ou regional, para falar bem a verdade. E não somos só nós, pais brasileiros, que agimos assim. O fotógrafo Gregg Segal nos presenteou com um estudo, por meio de imagens, do alimento de cada dia de crianças em diversos países. Vale conferir aqui. Olhar para as fotos pode nos levar a diversas reflexões, base de possíveis mudanças. 

Precisamos nos perguntar: vamos seguir em frente com nossos hábitos, mesmo sabendo que serão os mais novos que pagarão a conta?

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