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O bonde da moral

Qualquer discussão está condenada a ser reduzida a algo como 'mas essa é minha opinião'

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2022 | 05h00

A vida foi se tornando cada vez mais complicada conforme cresceu a complexidade da sociedade. A teia de relações entre as pessoas e seus atos ganhou tantas imbricações que mal nos damos conta do que isso significa.

Um dos resultados tem a ver com o que chamamos de ética. Nesses contextos modernos, a nossa intuição moral pré-histórica por vezes se depara com grandes dificuldades para diferenciar o certo do errado. 

Qualquer discussão, de proibição das drogas a obrigatoriedade de vacinas, está condenada a ser reduzida, no fim, a algo como “mas essa é minha opinião” (quando for civilizada e não terminar reduzida, no fim, a um bate-boca acabando com o jantar em família antes da sobremesa). 

Não que seja inútil argumentar, bem ao contrário: só quando os argumentos são bons e a conversa respeitosa a gente consegue retirar do debate ideias preconcebidas e as falácias; mas há tantas implicações em cada decisão, tantas ramificações das consequências dos nossos atos, que quase sempre é impossível encontrar uma “resposta certa”.

A partir dos anos 2000 um campo de estudos sobre isso – psicologia moral – apresentou grande desenvolvimento, lançando luz sobre como e por que diferenciamos o certo do errado, o bom do mau, o ético do antiético. Um de seus experimentos mentais ficou famoso: o dilema do bonde. 

Imagine que um trem descontrolado irá matar cinco pessoas. Você está longe demais para ajudá-las, mas pode mexer numa alavanca que muda o trem de trilho, salvando suas vidas. O problema é que no outro trilho há uma pessoa, e ela acabará morta no lugar das cinco. Você puxaria a alavanca? 

Esse cenário recebeu diversas modificações, colocando pessoas conhecidas ou desconhecidas em um ou outro trilho, por vezes monitorando o cérebro dos voluntários, tudo para concluir que, bem, é complicado mesmo.

A ideia ganhou o mundo pop de tal forma que depois de aparecer em seriado de TV e vídeos no YouTube, ano passado virou um jogo de tabuleiro. 

Em Trial by Trolley (editora Galápagos, 2021), os jogadores se revezam colocando mocinhos ou vilões nos trilhos (um casal de velhinhos apaixonados; uma pessoa que maltrata animais; assim por diante) e tentam convencer o condutor da vez – que muda a cada rodada – a mandar o trem para o trilho dos adversários. 

No final, ganha o jogo quem salvou mais gente.

Sim, não é um exercício de argumentação sério e profundo como um debate na ONU. Mas dá uma ideia de como podem ser complicadas as decisões morais num mundo tão complexo, e ainda garante boas risadas em grupo. 

* É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

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