TABA BENEDICTO / ESTADAO
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O caminho da vacina da covid em SP: avião, van e balsa até o posto de saúde

Como as doses de vacinas contra a covid-19 são distribuídas em São Paulo; logística e chegada dos lotes em cima da hora desafiam cidade e já houve episódios de desabastecimento

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 10h00

SÃO PAULO - Só dez pessoas aguardavam sua vez de receber a vacina contra a covid-19 na UBS Alcina Pimentel Piza, um posto de saúde acanhado da Ilha do Bororé, bairro no extremo da zona sul de São Paulo. Com a unidade abastecida, a fila andava rápido e sem queixas na manhã de terça-feira, 29. “Você vai tomar a AstraZeneca, tá?”, informava a enfermeira, antes de recolher o imunizante da geladeira e aspirar a dose com a seringa.

Para chegar ao braço das pessoas, no entanto, aquele lote já havia percorrido longos trajetos de avião, veículos terrestres e até de balsa - uma vez que a travessia é o caminho mais fácil para a Ilha do Bororé. Apesar de ainda pertencer à capital paulista, a região é entrecortada pela Represa Billings, tem ares de cidadezinha do interior e serve de retrato para os desafios logísticos da vacinação.

Na semana passada, São Paulo chegou a registrar falta de imunizante em pelo menos um a cada cinco postos de saúde: situação que contrasta com anúncios recentes de que toda a população adulta do Estado deve ser vacinada até 15 de setembro. A maioria dos casos aconteceu nas zonas sul e leste, em unidades da periferia, que estavam com estoque zerado e não tiveram reposição a tempo.

Mais visível na ponta da linha, cenários de desabastecimentos podem ser resultado de qualquer atraso ou falha na cadeia de distribuição de imunobiológicos. A eficiência da rede exige bons planejamentos do governo federal (responsável pela compra e envio de lotes), do Estado (que faz o repasse aos municípios) e da Prefeitura (aplica as doses).

Pesquisadores são unânimes em afirmar que o principal fator para o bom ritmo da campanha é a quantidade de vacinas disponíveis. Mas, desde o início da imunização contra o coronavírus, as cidades brasileiras têm vivido uma rotina de entregas irregulares ou até menos em volume menor do que o prometido. E, com a abertura para novos grupos por idade, a tendência é de subir ainda mais a demanda por vacina.

Em São Paulo, a gestão Ricardo Nunes (MDB) diz que o sistema municipal é capaz de vacinar até 600 mil pessoas a cada dia, mas a cidade só tem atingido a marca de 100 mil. A Prefeitura alega que o índice abaixo do potencial é por causa do número de imunizantes recebidos e da “imprevisibilidade” das entregas.

“Com planejamento, o serviço de distribuição trabalha como uma engrenagem perfeita”, afirma Luiz Artur Caldeira Filho, coordenador da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa). “Mas, se a gente só fica sabendo que a vacina vai chegar um dia antes, impacta na logística e demanda muito mais energia.”

O ideal seria receber novos lotes entre 24h e 48 horas de antecedência, como ocorre em outras campanhas vacinais, segundo profissionais da rede municipal. Em meio à pandemia, a realidade tem sido diferente. Lotes que chegam em cima da hora acabam provocando uma corrida contra o relógio para levar as doses até os postos de saúde, operação sujeita a sobressaltos e imprevistos.

Um exemplo aconteceu na última quinta-feira, 24. Na ocasião, as 121 mil doses previstas para serem aplicadas no dia só chegaram às 8 horas na Prefeitura. Por sua vez, a gestão João Doria (PSDB) culpou o governo federal pelo atraso e disse ter recebido as vacinas apenas na noite anterior, apesar de o lote ter desembarcado dois dias antes no Aeroporto de Viracopos, em Campinas.

“A nossa rotina mudou bastante: o trabalho mais do que triplicou por conta dessa demanda”, relata a enfermeira Mérian Lira, que atua no sistema da Prefeitura responsável por abastecer os postos de saúde. “A gente não recebe um quantitativo alto que permite fazer uma distribuição maior. Com a vacina da gripe, por exemplo, a grade de vacinas que chega é grande e dá para suprir a necessidade por uma ou duas semanas. No caso da covid, é diferente. Está vindo mais fracionado.”

Os desafios da entrega

As doses de São Paulo vão inicialmente para o Centro de Armazenamento e Distribuição de Imunobiológicos (Cadi), na Freguesia do Ó, na zona norte da capital. Lá, veículos já ficam de prontidão para recolher as vacinas e levá-las aos cinco centros de distribuição regionais. Por causa da distância, só esse trajeto intermediário pode durar mais de uma hora para ser concluído.

Esses centros são chamados oficialmente de Posto de Armazenamento e Distribuição de Imunobiológico (Padi). O Padi é responsável por guardar temporariamente as doses e ir repondo estoques das salas de vacina dentro das suas respectivas áreas. Na região central, são dez pontos fixos. Na zona oeste, 30. O número sobe para 92 na zona norte. Já as regiões sul e leste, mais populosas, contam com 159 e 187 salas.

Cada Padi precisa organizar a escala de entregas e abastecer as unidades pelo menos uma vez por semana. Em expedição de rotina, os veículos cobrem uma área de quatro a seis postos de saúde por vez, até completar o atendimento em todo o seu território.

Alguns percursos envolvem obstáculos que vão desde trânsito carregado, comum em certos períodos do dia, a cumprir roteiros com mata fechada, território indígena, estradas de terra ou travessias de rio. Segundo a Prefeitura, o tempo mínimo para a vacina ser entregue ao Cadi, passar pelo Padi e chegar ao primeiro posto de saúde é de 6 horas.

Todo o transporte acontece em meio à preocupação de manter os imunizantes em temperatura entre 2ºC e 8ºC - ou se corre o risco de estragá-los. Por isso, antes de fechar as caixas térmicas, as vacinas são embaladas com gelo artificial e plástico bolha. Os termômetros, que ficam ligados às caixas de isopor, são conferidos pelas equipes de saúde o tempo inteiro. 

Em um Chevrolet Spin, o carregamento de Pfizer e AstraZeneca que abasteceu a Ilha Bororé na terça-feira saiu pontualmente às 8 horas do posto regional da Prefeitura. O trânsito, apesar do horário, estava bom. A balsa, sem fila. Nessas condições, o trajeto até a UBS durou 1h15.

De acordo com o gerente Tiago Pezzo, a unidade imuniza cerca de 40 pessoas por dia e ainda não registrou episódios de desabastecimento. “A nossa demanda deve aumentar agora, com o atendimento aos públicos mais jovens. Há 4.350 pessoas cadastradas no território, mas só 13% são maiores de 60 anos”, diz.

Pelas regras de São Paulo, o morador pode se vacinar em qualquer posto de saúde - motivo pelo qual algumas unidades já foram surpreendidas por um boom de demanda em alguns dias. Para evitar baixas repentinas, o protocolo é a UBS informar o estoque disponível à Prefeitura duas vezes por dia: às 12h e às 19 horas.

Se a avaliação for que o volume disponível no posto é insuficiente para realizar o atendimento programado, o Padi pode fazer entregas extras - isso é, se houver vacinas disponíveis no centro. A estratégia mais comum, contudo, é acionar vans escolares que foram contratadas para atuar na cadeia de distribuição e fazer o remanejamento de doses entre unidades da mesma área. 

O principal argumento é que a dinâmica do remanejamento economiza tempo. Se a viagem das equipes do Padi até a sala de vacinação pode durar até mais de 2 horas, a distância entre os postos de saúde normalmente é realizada em minutos.

‘Sommelier de vacina’ atrapalha logística

Além das dificuldades para cumprir a logística em meio à realidade de doses sendo entregues em cima da hora, a Prefeitura atribui os casos de desabastecimento à alta procura verificada naqueles dias. Desde a semana passada, a capital passou a atender pessoas com menos de 50 anos.

Coordenador da Covisa, Luiz Artur Caldeira Filho afirma que o cálculo de distribuição de doses considera o número de moradores e de pessoas que se deslocam a trabalho para o bairro. Variáveis como presença de terminal de ônibus ou estação de Metrô também podem representar um incremento de até 20% nas entregas para a região.

“Mesmo com o planejamento, a gente acaba sendo surpreendido”, diz Caldeira Filho. “Como a demanda é espontânea, às vezes uma UBS pode terminar atendendo pessoas que estão passando pelo local, mas não são da região e aproveitam para entrar por uma questão de conveniência. Vez por outra, as unidades consomem rapidamente os estoques.”

Dados da Prefeitura apontam que a capital havia aplicado até terça-feira um total de 6.961.170 de vacinas contra a covid - 5,1 milhões da primeira dose, 1,7 milhão do reforço e mais 88 mil imunizantes de dose única. Para a primeira dose, a cobertura vacinal do público acima de 60 anos já teria atingido 100% da população estimada. Entre 50 e 59, o índice fica acima de 93%.

Em contrapartida, funcionários municipais relatam já ter percebido que a procura aumenta repentinamente após notícia de que chegou vacinas da Pfizer ou da Janssen em determinado local. Também têm sido frequentes casos de pessoas que se negam a receber Coronavac ou AstraZeneca.

O comportamento do “sommelier de vacina” por parte do público cria distorções desnecessárias e acaba virando dor de cabeça para os gestores da saúde. Com uns imunizantes sumindo e outros encalhados, as equipes de distribuição são forçadas a fazer o remanejamento entre os postos no tempo que deveria ser usado para organizar o planejamento das entregas regulares.

Com a urgência imposta pela pandemia e prazos apertados para cumprir o cronograma, outro desafio é evitar manter estoques. “Estamos trabalhando no cenário de ter de fazer as entregas em tempo imediato, e não naquela lógica de tempo ideal", afirma o coordenador da Covisa.

Segundo profissionais da área, manter doses armazenadas nos postos de saúde aumenta os riscos de perdas operacionais. Um dos motivos é a infraestrutura. Como nem todas unidades são equipadas com gerador, por exemplo, eventual queda de energia pode fazer com o que o lote inteiro vá parar no lixo.

Outro motivo é segurança. Cada caixinha de isopor pequena, de apenas 7 litros, é suficiente para guardar uma remessa de vacina avaliada em R$ 7 mil.

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