WILTON JUNIOR/ESTADAO
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O câncer que fez médico virar paciente

Filha, também oncologista, relata em livro os 121 dias da luta bem-sucedida do pai, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

RIO - Com 13 anos de experiência em oncologia e câncer de mama, a médica Sabrina Chagas, de 37 anos, se deparou com um desafio inesperado: um nódulo apareceu na mama direita do pai, o mastologista Ricardo Chagas, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia. Era câncer. Durante os 121 dias do tratamento (bem-sucedido), Sabrina trocou de lado e conheceu de perto a angústia das famílias como aquelas com quem convivia no ambulatório do Instituto Nacional do Câncer, onde atendia.

Ela relata a experiência no livro Como Estamos? O Desafio do Câncer de Mama (Editora Doc Content, 124 páginas, preço sugerido de R$ 42), lançado no mês passado. O câncer de mama em homens é raro – representa apenas 1% dos casos da doença em pacientes do sexo masculino. O Sistema de Informação sobre Mortalidade do Sistema Único de Saúde (SUS) aponta que esse tipo de câncer levou à morte 14.388 pessoas em 2013; 181 eram homens. 

Na maioria dos casos, o homem não desconfia que possa ter câncer de mama e demora a procurar atendimento médico. Quando o faz, ainda se depara com as dificuldades de acesso ao diagnóstico e tratamento – no SUS ou na rede particular. 

Chagas estava com 68 anos quando percebeu que o mamilo estava “repuxado”. Fez uma mamografia e descobriu o nódulo com 1,3 cm. Sabrina conta no livro que o médico que fez o exame tentou disfarçar a gravidade, para não preocupar o amigo. Não deu certo. “Filho da p... Só amigo faz isso! Ele colocou uma categoria abaixo no laudo para não me assustar”, emocionou-se. Sabrina levou em seu carro o material para a biópsia. O patologista era outro amigo, que fez o exame no recesso de carnaval. 

Diagnosticado o câncer, o difícil foi decidir pela quimioterapia. “O tumor era grande e ele me falou que a ideia era, então, fazer a quimioterapia. Uma que, em tese, era mais amena. Mas era quimioterapia. Era meu pai. Ele tinha 68 anos. Eu prescrevo quimioterapia todo dia para pacientes dessa idade. Exatamente a mesma. Nunca pensei que podia me assustar tanto com algo que me era tão natural”, escreveu Sabrina.

Engana-se quem pensa que a tarefa de Sabrina foi facilitada por todo o conhecimento que acumulou. “Foi difícil. Quem começa um tratamento de quimioterapia geralmente sabe que os efeitos colaterais são a perda de cabelo e enjoo. Mas a gente sabia que era isso e mais outras 500 mil coisas. E vivia a expectativa de que todos esses efeitos colaterais aparecessem”, conta. 

Muitos deles surgiriam ao longo do tratamento. Chagas teve anemia acentuada e queda brusca de hematócritos, que lhe causaram fraqueza e dificuldade para andar. Também teve um inchaço acentuado na perna, que ia da coxa aos pés.

“Eu não conseguia andar. E os médicos insistindo que eu precisava me exercitar. Eu também dizia para as minhas pacientes que elas tinham que andar. Passar por essa experiência me fez ouvir o paciente de outra maneira”, afirma Chagas.

Consolo e sensibilidade. Os pacientes de câncer se deparam muitas vezes com o distanciamento daqueles que, muitas vezes, não sabem lidar com a doença. Não foi diferente com Sabrina e o pai. “O que mais me incomodava era quando as pessoas minimizavam o sofrimento e diziam: ‘Vai passar’. Muitas vezes você só precisa que te escutem, que te abracem”, conta Sabrina. Ela também contou com solidariedade e apoios inesperados, o que a consolou em muitos momentos

O título do livro de Sabrina Chagas é uma alusão às conversas de pai e filha via WhatsApp. “Como vamos?” era a pergunta diária que a filha fazia ao pai. “Não era pergunta retórica como ‘Está tudo bem?’. Eu queria realmente saber como ele estava. E também é uma maneira de ele saber que a dor dele era a minha.”

Apesar de serem, ambos, especialistas em mama, filha e pai receberam dicas e todo tipo de “simpatia”. “E o pior é que ele seguia as recomendações”, ri a oncologista. “Fazia chá de tal erva para tirar o ‘gosto de parede’ que ficava na língua, em vez de ouvir as instruções da nossa nutricionista.” Sabrina espera que o livro seja lido por médicos. “Aprendi que é preciso mudar a abordagem com o paciente. A nossa rotina é muito dura, a demanda é grande, muitas vezes o atendimento fica mecanizado. Mas não podemos perder a sensibilidade”, afirma. 

A doença do pai ainda acendeu o alerta para Sabrina, mãe de Beatriz, de 6 anos, e Théo, de 3. Como o câncer de mama em homem é muito raro, é possível que ela tenha a mesma mutação genética do pai. Agora vai fazer o teste genético para descobrir

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