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BioNTech / Divulgação
BioNTech / Divulgação

O casal de médicos por trás da vacina da Pfizer para combater a covid-19

Empresa BioNTech, que fez parceria com a Pfizer para desenvolver imunizante que tem mais de 90% de eficácia contra a doença, foi fundada por um turco e uma alemã

David Gelles, Do The New York Times

23 de novembro de 2020 | 12h00

Dois anos atrás, o médico Ugur Sahin subiu ao palco de uma conferência em Berlim e fez uma previsão ousada. Falando para uma plateia cheia de especialistas em doenças infecciosas, ele disse que sua empresa seria capaz de usar sua tecnologia, então chamada de RNA mensageiro, para desenvolver rapidamente uma vacina no caso de uma pandemia global.

Na época, Sahin e sua empresa, a BioNTech, eram pouco conhecidos fora do pequeno mundo das startups europeias de biotecnologia. O foco da BioNTech, que Sahin fundou com sua esposa, a médica Özlem Türeci, se dirigia sobretudo aos tratamentos de câncer. A empresa jamais pusera um produto no mercado. A covid-19 ainda não existia. Mas suas palavras foram proféticas.

Na segunda-feira, a BioNTech e a Pfizer anunciaram que a vacina para o coronavírus desenvolvida por Sahin e sua equipe apresentou mais de 90% de eficácia na prevenção da doença entre os voluntários para os quais não existiam evidências de contágio anterior. Os resultados impressionantes colocaram a BioNTech e a Pfizer na dianteira da corrida para encontrar uma cura para a doença que já matou mais de 1,2 milhão de pessoas em todo o mundo. “Pode ser o começo do fim da era da covid”, disse Sahin em entrevista na terça-feira.

A BioNTech começou a trabalhar na vacina em janeiro, depois que Sahin leu um artigo na revista médica The Lancet que o deixou convencido de que o coronavírus, que na época se espalhava rapidamente em regiões da China, explodiria numa pandemia. Cientistas da empresa, com sede em Mainz, Alemanha, cancelaram as férias e começaram a trabalhar no que chamaram de Projeto Velocidade da Luz.

“Não há muitas empresas no planeta com capacidade e competência para fazer isso tão rápido quanto nós”, disse Sahin numa entrevista no mês passado. “Então não era só uma oportunidade, mas sim um dever fazê-lo, porque percebi que poderíamos estar entre os primeiros a oferecer uma vacina.”

Depois que a BioNTech identificou várias vacinas promissoras, Sahin concluiu que a empresa precisaria de ajuda para testá-las rapidamente, obter a aprovação dos reguladores e colocar a melhor candidata no mercado. A BioNTech e a Pfizer vêm trabalhando juntas numa vacina contra a gripe desde 2018 e, em março, concordaram em colaborar para uma vacina contra o coronavírus.

Desde então, Sahin, que é turco, desenvolveu uma amizade com Albert Bourla, o diretor executivo da Pfizer, que é grego. Os dois disseram em entrevistas recentes que se aproximaram por causa de suas experiências em comum como cientistas e imigrantes.

“Descobrimos que ele é da Grécia e eu sou da Turquia”, disse Sahin, sem mencionar o antigo antagonismo de seus países de origem. “Foi uma relação muito pessoal desde o início.”

Sahin, 55 anos, nasceu em Iskenderun, na Turquia. Quando ele tinha 4 anos, sua família se mudou para Colônia, na Alemanha, onde seus pais trabalhavam numa fábrica da Ford. Ele cresceu querendo ser doutor e se formou médico pela Universidade de Colônia. Em 1993, obteve o doutorado da universidade por seu trabalho com imunoterapia em células tumorais.

Ele conheceu Türeci logo no início da carreira. Ela queria ser freira, mas acabou estudando medicina. Agora com 53 anos e médica-chefe da BioNTech, Türeci nasceu na Alemanha, filha de um médico turco que imigrara de Istambul. No dia em que se casaram, Sahin e Türeci voltaram ao laboratório depois da cerimônia.

De início, o casal se concentrou em pesquisa e ensino, inclusive na Universidade de Zurique, onde Sahin trabalhou no laboratório de Rolf Zinkernagel, que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina em 1996.

Em 2001, Sahin e Türeci fundaram a Ganymed Pharmaceuticals, que desenvolveu medicamentos para tratar o câncer a partir de anticorpos monoclonais.

Depois de vários anos, eles fundaram também a BioNTech, na qual tentaram usar uma gama mais ampla de tecnologias, incluindo o RNA mensageiro, para tratar o câncer. “Queremos construir uma grande empresa farmacêutica europeia”, disse Sahin numa entrevista ao Wiesbaden Courier, um jornal local.

A BioNTech já estava ganhando força mesmo antes da pandemia. A empresa levantou centenas de milhões de dólares e agora tem mais de 1.800 funcionários, com escritórios em Berlim, outras cidades alemãs e Cambridge, Massachusetts. Em 2018, começou uma parceria com a Pfizer. No ano passado, a Fundação Bill & Melinda Gates investiu US $ 55 milhões para financiar seu trabalho com tratamento de HIV e tuberculose. Também em 2019, Sahin recebeu o Prêmio Mustafa, um prêmio iraniano bienal para muçulmanos da área de ciência e tecnologia.

Sahin e Türeci venderam a Ganymed por US $ 1,4 bilhão em 2016. No ano passado, a BioNTech vendeu ações em oferta pública; nos últimos meses, seu valor de mercado ultrapassou US $ 21 bilhões, colocando o casal entre os mais ricos da Alemanha. Os dois bilionários moram com a filha adolescente num apartamento modesto perto do escritório. Vão ao trabalho de bicicleta. Não têm carro.

“Ugur é um indivíduo muito, muito peculiar”, disse Bourla, presidente-executivo da Pfizer, em entrevista no mês passado. “Ele só quer saber de ciência. Não gosta de falar de negócios. Não gosta nem um pouco. É um cientista e um homem de princípios. Confio nele 100%.”

A BioNTech anda tão ocupada desenvolvendo a vacina que a empresa não finalizou os detalhes financeiros de seu acordo de parceria com a Pfizer. “A confiança e o relacionamento pessoal são muito importantes nesses negócios, porque tudo está acontecendo muito rápido”, disse Sahin. “Em muitos aspectos, ainda temos apenas um termo de compromisso, não um contrato final.”

Sahin disse que ele e Türeci souberam dos dados de eficácia na noite de domingo e celebraram o momento preparando chá turco em casa. “Comemoramos, é claro”, disse ele. “Foi um alívio.” / Tradução de Renato Prelorentzou

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