Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

'O dentista passou a ter certa importância na saúde geral do ser humano', diz dr. Sergio Giorgi

Ex-professor da Faculdade de Odontologia da USP, ele alerta para a importância da higiene oral na prevenção de outras doenças e comenta a descoberta de Sars-CoV-2 no tecido gengival de vítimas fatais da covid-19

João Ker, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 19h30

"As doenças periodontais são uma agravação para todo o corpo", afirma o dr. Sérgio Mauro Giorgi. Doutor em Periodontia e ex-professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, ele explica como a saúde bucal pode influenciar todo o restante do corpo humano, causando desde doenças pulmonares e cardiológicas até o agravo da covid-19

Em março, um estudo realizado por pesquisadores da USP descobriram pela primeira vez a presença do Sars-CoV-2 na gengiva de pacientes que vieram a óbito por causa do coronavírus. A descoberta foi publicada no Journal of Oral Microbiology e abre caminho para ligar a saúde bucal à presença da covid-19 na saliva de pessoas infectadas pelo vírus.

Para o dr Giorgi, essa é mais uma evidência do quão necessária é a higiene oral adequada e focada em cada paciente de forma individual. Ele explica que, através da boca, vírus como o Sars-CoV-2, a herpes e uma infinidade de bactérias que podem ser transmitidas para a corrente sanguínea e agravar quadros já graves de doenças existentes.  

"Amostras colhidas em pesquisas nos Estados Unidos apontam a presença de uma bactéria que só existe na boca, a Porphyromonas gingivalis, no cérebro de pessoas que recentemente vieram a óbito de covid e de Alzheimer. Como ela foi para o cérebro?", questiona. 

Membro da American Academy of Periodontology, da American Dental Association e membro ativo da New York Academy of Sciences, Sérgio Giorgi explica na entrevista abaixo os principais cuidados a serem tomados na saúde bucal e o efeito da pandemia na boca dos brasileiros. 

O que a descoberta do Sars-CoV-2 na gengiva de pacientes significa, na prática? Isso pode acarretar algum dano maior para a saúde dos pacientes?

Isso pode acontecer quando o estado de manutenção da higiene da boca não é bem desenvolvido pelo paciente. O pessoal da medicina achou que o tecido gengival pode ser um alvo da doença e contribuir para a presença do vírus até na saliva. Quando o microbioma oral sofre um desequilíbrio, a boca ou o sistema imunológico não conseguem proteger a superfície oral apenas com os dentes.

Quando esse microbioma está desequilibrado é que chamamos de disbiose. Isso impede uma resposta do próprio sistema imunológico, daí a importância de cirurgiões dentistas criarem protocolos individuais, de acordo com o paciente e a capacidade de praticar a higiene. 

O que seriam esses protocolos individuais de higiene oral?

Às vezes, com a idade, o paciente perde a motivação para manter a higiene oral. É comum que os cirurgiões dentistas sejam treinados para, nas Unidades de Tratamento Intensivo, verificarem a condição de saúde bucal dos pacientes, de forma a protegê-los melhor. 

O que a má higiene da boca pode acarretar para o ser humano, além das já conhecidas cavidades dentárias (cáries)?

Amostras colhidas em pesquisas nos Estados Unidos apontam a presença de uma bactéria que só existe na boca, a Porphyromonas gingivalis, no cérebro de pessoas que recentemente vieram a óbito de covid e de Alzheimer. Como ela foi para o cérebro? 

Isso provavelmente tem a ver com a saúde bucal do paciente. Não à toa criou-se a medicina periodontal, porque hoje já entendemos que as doenças periodontais podem ser uma agravação para todo o corpo. O dentista passou a ter uma certa importância na saúde geral do ser humano. 

As doenças periodontais estão associadas a uma série de enfermidades, como a doença coronariana, doença hepática não-alcoólica, doença renal, distúrbios pulmonares e a esclerose, além de também contribuírem para cânceres da cavidade oral e outras inflamações. Por isso é importante manter o microbioma oral sempre equilibrado. 

Quais os principais sinais de que há algum problema na saúde bucal?

O mais importante é ser aconselhado por um profissional. A doença gengival é perigosa em idosos, mais de 70% dos adultos com 65 anos ou mais têm periodontite, que afeta os ossos e o enfraquecimento das fibras colares que unem os dentes ao osso. Isso provoca o enfraquecimento do sistema imunológico. Essas doenças são muito graves e mais perigosas que as cavidades, as cáries.

Além da escovação, o que pode ser feito para manter a saúde oral em dia?

Antes de escovar os dentes, o interessante é fazer uma limpeza prévia, com fio dental e limpadores interdentais que você encontra farmácia, só com esse procedimento você já evita 70% das doenças periodontais. Mas a escovação e o fio dental tradicionais podem não ser suficientes para afastar as doenças da gengiva e da boca. 

Outra coisa importante é escovar a língua, principalmente o dorso. E evitar o compartilhamento de utensílios com pessoas que estão contaminadas. Essas medidas devem ser levadas para o resto da vida, porque a qualquer momento as pessoas podem ser infectadas. Fora isso, também é importante seguir a forma correta de cuidar das escovas e higienizadores. O ideal é mantê-los imersos em água e enxaguante bucal, com clorexidina, que são bactericidas. 

Nosso mercado ainda não oferece isso, mas hoje nos Estados Unidos existem pastilhas que você tritura na boca após a escovação matinal e elas liberam bactérias vivas e "boas". São os probióticos orais

10 cuidados fundamentais para manter a higiene oral na pandemia do coronavírus:

  • Lavar as mãos: usar sabão suficiente para que a espuma cubra toda a superfície das mãos; esfregue as palmas por cinco segundos, caprichando entre os dedos, no dorso e no pulso;
  • Usar escova de cerdas macias, bem higienizada para que ela chegue à cavidade bucal;
  • Utilize pasta dental com flúor e clorexidina a 0,12%; 
  • Após o uso, lave a escova e deixe-a mergulhada em uma solução com clorexidina a 0,12%, em posição vertical;
  • Escove a língua, principalmente o dorso, onde acumulam-se placas bacterianas que podem levar à contaminação pulmonar;
  • Evite roer as unhas, hábito que pode prejudicar os dentes e levar o vírus ao organismo;
  • Antes da escovação, limpar os dentes com fio dental e limpadores interdentais;
  • Evitar o compartilhamento de alimentos e utensílios como pratos, copos e talheres;
  • Se for diagnosticado com a covid-19, use um banheiro separado ou, caso isso não seja possível, afaste itens como escova dental e toalhas;
  • Procure o seu dentista em qualquer quadro de urgência ou emergência, como sangramentos, fraturas, cáries, dor extensa etc.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.