Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

O dentista que se especializou em 'bocas musicais'

Na sala de espera do consultório, em São Paulo, é comum ouvir trombones, trompetes, saxofones e outros instrumentos de sopro

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - O barulho da broca não é o som tradicional ouvido no consultório do dentista Alexandre de Alcântara, de 43 anos. Quem aguarda por consulta no local pode ouvir os pacientes tocando trombone, trompete, saxofone ou outros instrumentos de sopro. Desde 1995, Alcântara se dedica ao atendimento de músicos de sopro e usa seus conhecimentos na odontologia para resolver não só típicos problemas dentários, mas para ajudar em complicações que afetam o desempenho dos profissionais.

“Um músico foi para a Europa e tinha acabado de fazer um tratamento com um dentista na área de estética, mas voltou desesperado porque não conseguia tocar. Ele pediu para consertar em algumas partes e, depois que eu mexi, vi que poderia interferir positivamente e negativamente na forma de tocar”, relembra.

Foi a partir daí que o dentista começou a se aprofundar no estudo de instrumentos e na relação deles com a saúde bucal. Como não é músico, recebeu uma ajuda especial, pois seu pai é saxofonista. “Meu pai tem 80 anos e ainda toca. Aprendi um pouco de saxofone e trompete com ele e com meu tio para entender como funciona a passagem de ar (pela boca).”

Pouco convencional. O atendimento segue os moldes convencionais até os pacientes começarem a tocar. Eles têm a opção de levar o próprio instrumento ou usar um dos que estão disponíveis no consultório.

“O procedimento que mais faço é analisar o equilíbrio muscular de toda a região da boca. Peço para o paciente abrir a boca, movimentar a mandíbula, e tenho instrumentos para eles tocarem para avaliar se tem algo interferindo. Eles também são para os músicos que vêm de outros Estados.” 

Alcântara conta que também vê vídeos dos profissionais em apresentações para verificar movimentos que fazem quando estão em ação e podem não repetir em consultório. O trabalho ainda lhe rendeu, em 2012, um diploma de honra ao mérito da Ordem dos Músicos do Brasil, seccional São Paulo.

Tratamento. Há dez anos, o trombonista François de Lima, de 58 anos, é paciente de Alcântara. “Em um primeiro momento, ele fez um tratamento para recuperar a minha boca. Estava com perda óssea, retração de gengiva. É essencial que tenhamos um atendimento especializado, porque a relação entre boca e instrumento é uma coisa muito particular.”

Lima diz que a troca de experiências é fundamental para que o tratamento dê certo. “Se algo der errado, a gente para de tocar. Precisamos de uma pessoa de confiança para termos liberdade para falar sobre os nossos problemas e dizer o que estamos sentindo como músicos e pacientes.”

O dentista diz que avalia músicos desde a fase iniciante até os mais experientes. “Quando começa a estudar um instrumento, o músico não vai avaliar a parte dental. Ele vai escolher o instrumento pela paixão. Mas, às vezes, o bocal do instrumento pode interferir na posição dos dentes e até extraí-los.”

Um dos passos para os casos de mudanças na arcada dentária ao longo da carreira dos profissionais é, logo no início do tratamento, providenciar um molde da boca do paciente para evitar que o tratamento interfira no trabalho do artista.

Valor. O dentista prefere trabalhar com preços acessíveis em seu consultório, localizado em Santana, na zona norte da capital. Uma consulta sai por R$ 150. “Hoje, seguramente, os músicos são de 70% a 80% da minha clientela e atendo dez pessoas por dia. Cobro quase um valor simbólico para ter o maior número de artistas possível.” 

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