O desafio é integrar as duas redes

Superlotação deve piorar com o envelhecimento da população e o Brasil não terá recurso para garantir assistência universal

Valéria França, Especial para o Estado

17 Julho 2014 | 14h14

SÃO PAULO - Foram vários os avanços da saúde no Brasil nas últimas décadas, como o aumento da expectativa de vida e a diminuição da mortalidade infantil e das doenças infecciosas. Mesmo assim fica difícil desassociar a saúde das longas filas dos hospitais públicos e, mais recentemente, dos privados. Houve uma época em que os problemas pareciam concentrados no Sistema Único de Saúde (SUS), mas a rede privada segue os mesmos passos.

O sistema de saúde suplementar, criado para dar suporte às deficiências do SUS, virou sonho de consumo, e nos cinco últimos anos atraiu 9 milhões de brasileiros. A demanda abarrotou o sistema privado, que dá sinais de fragilidade.

Sobram reclamações e dificuldades de conseguir uma boa assistência, ora pela estrutura dos estabelecimentos, ora pela ausência de especialistas. Surgiram planos baratos, que prometem mais do que cumprem. O SUS atendeu 60% a mais de pacientes com planos de saúde nos últimos cinco anos. “Os sistemas público e privado deveriam estar integrados”, diz Sergio Bento, diretor da Planisa, consultoria do setor de saúde. “Hoje eles não conversam.”

Caminhos. O aumento dos gastos com saúde é preocupação universal. “Vale ficar de olho em experiências internacionais”, diz Francisco Balestrin, presidente da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp). Nos EUA havia a necessidade de estender a cobertura a 46,3 milhões de americanos (15,4% da população). “A reforma aprovada em 2010 pelo presidente Barack Obama fez isso tornando o seguro saúde obrigatório, mas subsidiando famílias de baixa renda.”

No Brasil, os gastos em saúde cresceram de US$ 141 bilhões em 2009 para US$ 220 bilhões em 2011. O setor privado, que cobre 25% da população, desembolsa o valor maior, US$ 119,6 bilhões, ou 54,3% dos gastos. “O governo não tem dinheiro para bancar todos os brasileiros”, diz Ana Maria Malik, da Fundação Getúlio Vargas.

Os hospitais públicos sofrem com a falta de recursos. Em abril, o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro encaminhou denúncia contra o Hospital Federal do Andaraí. O setor de traumatologia estava transferindo paciente por falta de insumos para cirurgias. Além de investir em infraestrutura, é preciso formar mão de obra. “Não adianta fomentar pesquisa, desenvolver tecnologia, e não ter pessoas preparadas para aplicá-las”, diz Luiz Reis, superintendente de pesquisa do Hospital Sírio-Libanês.

Parcerias. Com o objetivo de dar mais eficiência ao SUS, o governo vem estabelecendo parcerias com Organizações Sociais de Saúde (OSS), que assumiram a administração de hospitais públicos, com ferramentas de gestão e metas de produtividade. Há pelos menos 30 estabelecimentos em São Paulo com acordos desse tipo.

“A situação vai ficar ainda mais crítica porque a população está envelhecendo”, diz Sergio Bento. Os hospitais de primeira linha estão se preparando para o novo cenário. “Temos uma área de internação especializada para idosos, onde testamos equipamentos”, diz Claudio Lottenberg, diretor do Hospital Albert Einstein.

A população brasileira acima de 60 anos passou de 11,4 milhões, em 1992, para 24,8 milhões, em 2012, crescimento de 117%. A Organização Mundial de Saúde estima que, em 2025, o número suba para 34,5 milhões , o que colocará o Brasil como o sexto país com mais idosos no mundo.

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