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O drama da cloroquina

Ministério da Saúde publicou dois documentos em seu site – um de instruções voltadas para os médicos e outro que é um termo de ciência e consentimento para o uso de cloroquina a ser assinado pelo paciente

Gonzalo Vecina *, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2020 | 05h00

No dia 20, o Ministério da Saúde publicou em seu site: “Saúde divulga diretrizes para tratamento medicamentoso de pacientes com covid-19”. São dois documentos – um de instruções voltadas para orientar os médicos e outro que é um termo de ciência e consentimento para o uso de hidroxicloroquina/cloroquina a ser assinado pelo paciente. Os dois documentos trazem informações reveladoras.

No documento técnico denominado Orientações do Ministério da Saúde para Tratamento Medicamentoso Precoce de Pacientes com Diagnóstico de Covid-19 e que está endereçado aos médicos, existe um conjunto inicial de considerandos para embasar a utilização dos medicamentos em tela. O segundo considerando é primoroso: “Considerando que até o momento não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a covid-19”, ou seja, o que se proporá não deve ser utilizado – está escrito na proposta terapêutica!

Importante mencionar a fornida lista de referências bibliográficas com 76 citações. Porém todas as referentes à droga específica provêm de revistas desconhecidas e de publicações da internet. E o documento não tem a assinatura de nenhum técnico (inicialmente, o documento foi divulgado sem assinaturas e cerca de 12 horas após a divulgação, os secretários da pasta subscreveram o papel, veja abaixo). É inteligível, afinal os técnicos do ministério foram afastados e substituídos literalmente por oficiais. Independentemente da patente, todos a serviço do capitão.

O segundo documento chamado de Termo de Ciência e Consentimento é a chave de ouro. Depois de explicado pelo facultativo que irá dirigir a cura, a vítima deve assinar dizendo que concorda com tudo e inclusive com esta frase: “Compreendi, portanto, que não existe garantia de resultados positivos, e que o medicamento proposto pode inclusive agravar minha condição clínica, pois não há estudos demonstrando benefícios clínicos”. Percebeu por que vítima?

Concomitantemente, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia divulgaram manifesto declarando que a droga não só não tem efeito na virose, como pode causar efeitos colaterais graves em alguns pacientes, entre outros nos cardiopatas.

A melhor evidência para incorporar uma droga ao arsenal terapêutico é o estudo clínico randomizado (sorteado ao azar), duplo cego (nem os pacientes nem os médicos que atendem o paciente sabem quem tomou o remédio e quem tomou o placebo ou a droga contra a qual o remédio está sendo comparado). A cloroquina e a sua irmã hidroxicloroquina foram submetidas a este tipo de ensaio e, como corretamente anuncia o Ministério da Saúde em sua nefasta proposta, não foram aprovadas.

Os brasileiros que adoram brincar com tudo já produziram uma fake news que circula pela internet. Reproduz com perfeição um resumo publicado na New England relatando um estudo duplo cego randomizado de cloroquina versus tubaína realizado na República Popular do Congo, que conclui que o braço que tomou cloroquina não melhorou, mas no braço da tubaína os pacientes ficaram felizes com a bebida e foram melhor hidratados. Portanto, vamos tomar tubaína que faz bem para a saúde (Só que não! Tem carboidratos em excesso).

*É MÉDICO SANITARISTA

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