DIDA SAMPAIO/ESTADAO
Elciclea Baima Viana, moradora da favela do Sol Nascente, em Brasília, e família. DIDA SAMPAIO/ESTADAO

O drama de quem nem tem água em casa

Moradores da comunidade do Sol Nascente esperam a chegada do coronavírus sem ter como se proteger

André Borges, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 05h00

As horas ininterruptas de reportagens sobre o novo coronavírus passam pela tela do celular de Elciclea Baima Viana, moradora da comunidade do Sol Nascente, em Brasília. Informação não falta. Na televisão, ela também aprende sobre os cuidados necessários para se afastar da doença, as fragilidades dos idosos frente ao vírus e o hábito mais básico para sua autodefesa: lavar as mãos. Mas, para isso, é preciso ter água.

Moradora da segunda maior comunidade do Brasil, só atrás da Rocinha, no Rio de Janeiro, Elciclea vive a 1,2 mil quilômetros do mar. Ela não pode contar com o apoio de moradias improvisadas em navios atracados no litoral do Rio. Sua dificuldade em lidar com o avanço da covid-19 passa pela torneira seca, uma situação frequente para quem vive nesses locais que se espalha pelo Planalto Central, localizada a apenas 32 quilômetros do Palácio do Planalto ocupado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

Álcool gel virou item raro e caro, um luxo para quem não tem nem sequer o básico. “Aqui na minha casa e de todos que moram nesta região, a ligação da água é clandestina. Nós mesmos que fizemos, não tinha outro jeito. Estamos esperando há anos uma encanação, que não existe”, diz Elciclea. 

A exposição de Elcicleia ao avanço do novo coronavírus reflete a situação de boa parte dos mais de 100 mil moradores do Sol Nascente, com suas ruas enlameadas, à espera de uma estrutura mínima de saneamento que já virou mito.

Com 39 anos, gari, desempregada, ela tem passado os dias em casa, cuidando do filho Walace Eduardo, de 7 anos, e da mãe, Eralda Baima Viana, de 57 anos, que está doente e enfrenta problemas de locomoção. Dona Eralda está frágil, mas não é boba. Sabe que é alvo do coronavírus.

Quando perguntada sobre a covid-19, ela bota aos mãos para o céu e parece falar para si mesmo. “Se Deus quiser, não chega aqui. Não chega.”

Dentro ou fora da comunidade, o fato é que a falta de abastecimento de água é problema crônico no Brasil, uma endemia que corrói a infraestrutura nacional de um país onde mais de 35 milhões de pessoas vivem sem água encanada pelas periferias.

Para alguns moradores, a contaminação que assola o mundo tem viés religioso, uma praga para castigar os mais abastados. Como os primeiros casos de coronavírus estão ligados a pessoas que viajaram a outros países, há quem acredite que a propagação local, a chamada “transmissão comunitária”, seja uma coisa de outro mundo. 

Sem água em sua casa durante vários dias da semana, o cozinheiro José Antônio de Souza, 47 anos, diz que ele, sua mulher Crisdiane Silva Araújo, de 26 anos, e a filha Esther Araújo, de 2 anos, têm vivido normalmente e não temem o vírus. Porque são pobres. “Isso é doença de rico. Não pega na gente. Pode ver os casos. Quem está morrendo é rico. Aqui, no meio desse lixo todo, a gente não pega mais nada”, diz Souza, enquanto mostra o rio de esgoto que corta a frente de sua casa.

Com dificuldade, a comunidade se vira como pode. Guarda água em tanques e caixas. Quem pode tenta comprar seus potes de álcool em gel. E se recolhem dentro de casa. Dilza Aparecida, de 51 anos, dona de um mercadinho no Sol Nascente, comprou uma caixa com 50 máscaras, há duas semanas. Pagou R$ 16. Ontem, quando voltou na farmácia para buscar mais uma caixa, o preço tinha subido para R$ 38. Ela não comprou. E mesmo que quisesse pagar, não havia mais nenhuma à venda.

Grade

De máscara no rosto, ela mantém fechada a grade de seu mercadinho e fica sentada do lado de dentro. É mais uma forma que arranjou para manter o distanciamento das pessoas. “Chegam aqui e pedem o querem. Eu vou lá, busco e entrego. É melhor assim. Esses dias, eu tive uma gripe forte. Se Deus quiser, não foi nada. Já melhorei. Mas é melhor seguir com a máscara. Nessa semana, já cheguei até a dormir com ela”, diz.

Com a queda das vendas em seu comércio, Dilza tem pensado em fechar as portas por 30 dias e ficar completamente isolada com a filha e o marido dentro de casa. “E só sair quando tudo isso acabar.”

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Morador de favela pode ir para navio para tratar coronavírus

Governo federal estuda usar cruzeiros para isolar e tratar pessoas de baixa renda infectadas; quartos de hotéis também são avaliados

Julia Lindner e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - Para combater o avanço do novo coronavírus, o governo federal avalia que a “melhor solução” hoje é utilizar navios para isolar e tratar pessoas de baixa renda infectadas pela doença. A ideia das autoridades brasileiras é atender nas embarcações casos leves, que não exigem leitos de UTI, de pessoas que moram em regiões litorâneas. Em outros locais, afastados do mar, está sendo estudado desde o uso de quarto de hotéis, até unidades habitacionais ainda não entregues para socorrer a população. Segundo o último Censo do IBGE, em 2010, 10 milhões de brasileiros viviam em assentamentos, comunidades e invasões.

O governo já identificou com empresas de cruzeiros que há aproximadamente 20 navios disponíveis. “Temos de tratar da alimentação dessas pessoas, do monitoramento, da terapia, medicamentos que serão disponibilizados. E caso os pacientes tenham agravamento, teremos condições para que possam ser rapidamente atendidos, mesmo dentro do navio”, disse o secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo. Outra preocupação, segundo ele, é com o “tratamento dos resíduos que vão ocorrer dessas pessoas (no navio) que potencialmente estarão com a presença do vírus”.

O Ministério da Saúde considera promissora a aplicação da ideia no Rio, o segundo Estado com o maior número de infectados. Cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem no Rio espalhadas em mais de 700 comunidades. Em São Paulo, essa população era de 1,2 milhão de pessoas. O governo espera que navios sejam cedidos sem custos.

O Estado apurou que a preocupação com as pessoas de baixa renda, especialmente do Rio, foi discutida anteontem em reunião reservada do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, com integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Um dos pontos levantados é que elas não possuem sequer saneamento básico e, muitas vezes, compartilham com parentes casas com apenas um ou dois cômodos. 

“Tem várias alternativas. Mas confesso que nenhuma das que estávamos vendo é melhor do que essa, de usar navios no Rio”, disse Gabbardo. “É uma preocupação. Como colocar em isolamento o cidadão que mora em comunidades no Rio, com a quantidade enorme de pessoas na mesma residência, que muitas vezes tem só um ou dois quartos”, disse. O protocolo da Saúde prevê ao menos 14 dias de afastamento.

A iniciativa com os barcos já foi adotada na Itália, um dos países mais afetados no mundo pela pandemia. Os italianos transformaram um navio em hospital para atender cerca de mil pessoas. Segundo a CLIA Brasil (Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos), a proposta de ceder cruzeiros foi apresentada em uma reunião com o Ministério da Saúde. 

Saneamento

As preocupações com a população fluminense não se restringem aos locais para acomodar casos que precisem de acompanhamento. Como muitos centros urbanos, o Rio sofre com a precariedade do saneamento básico. Neste ambiente, hábitos de prevenção – como lavar as mãos, usar álcool em gel e permanecer em isolamento social – tornam-se inviáveis para boa parte da população. 

Na comunidade do Alemão, no Rio, a comunicadora Tiê Vasconcelos, de 25 anos, conta que água é item raro. Na casa dela, só chega de madrugada, quando é hora de fazer estocagem em baldes para o restante do dia. O relato de Tiê pode ser visto no Twitter. Ela e outras dezenas de pessoas participam da hashtag #COVID19NasFavelas, criada nas redes sociais para mostrar a realidade das comunidades do Brasil. 

“Não tem água na favela para lavar a mão? Compra! Eu não posso comprar água nem pra beber. Vou comprar pra lavar a mão? Ter água na favela pra lavar a mão está sendo luxo. Não fazem ideia da nossa realidade”, publicou. A proposta em estudo pelo governo é vista com ressalvas. O governo, diz ela, precisaria oferecer uma “grande estrutura” para que a pessoa possa “parar a sua vida”. Além de não ter acesso a itens básicos, a maior parte deles não pode se manter em isolamento e segue trabalhando para sobreviver. Além disso, em caso de uma eventual contaminação, muitos relatam que não teriam locais adequados em suas casas para se afastar dos demais.

“As três dicas para evitar exposição e proliferação não nos cabem. Lavar sempre as mãos? (falta água direto). Usar álcool gel (não tem dinheiro para). Quarentena/isolamento (Com casas de dois ou três cômodos e 6 pessoas?). Como na favela?”, questiona no Twitter o ativista Raull Santiago, que também vive no Alemão.

Como alternativa, os moradores da comunidade tentam se ajudar como podem. Nas redes sociais, a ativista Renata Trajano organiza uma campanha para reunir itens para contenção do coronavírus. Quando chega água na casa da ativista, ela divulga para que outros moradores possam buscar. “Na favela funciona assim, se eu tenho e você não, vou dividir o meu com você”, disse.

Pesquisador na área de Direitos Humanos, Dennis de Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP), afirma que apenas medidas de isolamento não resolvem a questão. Para ele, essas pessoas precisam continuar a trabalhar para sobreviver e não podem ser isoladas sem medidas para garantir algum tipo de renda. Ele citou como exemplo a moratória de dívidas e impostos tomada em países como a Itália. “O governo está pensando em ampliar Bolsa Família. Precisa de um mix que garanta renda para aqueles que terão dificuldade de se isolar”, disse.

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