Samuel Aranda/The New York Times
Samuel Aranda/The New York Times

Ebola dizima família, deixando um liberiano vivo e sozinho

Gaye Dumbai perdeu pai e mãe, duas irmãs, um irmão, duas tias, dois tios e quatro sobrinhos, mas resistiu à doença

Helene Cooper, The New York Times

11 Abril 2016 | 07h00

Quando Gaye Dumbai caminhava pela estrada de terra, indo para o cemitério coberto de mato onde sua mãe está enterrada, os moradores saíam de suas casas para vê-lo, apesar da chuva.

"Oi, Gaye, você vai ver a cova de sua mãe?" perguntou Naomi Tama, que trabalha no mercado local, seguindo-o pelo caminho lamacento até que ele entrou pelo mato, indo em direção ao túmulo. Ela o acompanhou por mais alguns metros, então parou, desistiu.

"Ei, cara", disse ela em solidariedade. E de novo. "Ei, cara."

Nas crônicas da epidemia que varreu o país como a peste, Gaye Dumbai, de 36 anos, é considerado uma história de sucesso. Ele é um sobrevivente do Ebola. Por quase 30 dias, lutou contra o vírus, primeiro sozinho, coberto com uma manta e sentado sobre uma panela de água quente com folhas de chá, o método africano. Claro que não funcionou e aí teve que passar seis dias em um hospital local, esperando por um diagnóstico, e mais 16 em um hospital em Monróvia, lutando contra a debilitante perda de sangue e fluidos.

Porém, quando finalmente venceu o Ebola, recebeu a mesma notícia que muitos outros sobreviventes: sua família estava morta. Dumbai perdeu pai e mãe, duas irmãs, um irmão, duas tias, dois tios e quatro sobrinhos.

Essa continua a ser a grande maldição da doença que devastou a costa ocidental africana em 2014 - e dizimou famílias inteiras. Com exceção dos trabalhadores de saúde, que contraíram a doença por cuidar heroicamente de pessoas que nem conheciam, a maioria das vítimas do Ebola ficou doente porque cuidava de entes queridos. Consequentemente, grande parte dos mais de cinco mil liberianos que adoeceu, mas não morreu, se tornou um estudo de caso ambulante de como lidar com a perda imensurável.

Agora, mais de um ano depois, Dumbai, como tantos outros, voltou a viver a vida, mas, como para outros sobreviventes, ela não é mais a mesma.

Ele ainda vende roupas usadas na beira da estrada; ainda vive na mesma casa, a cerca de 50 quilômetros de Dolos Town; ainda espera conseguir um emprego melhor, em que possa usar seu diploma de Economia da Universidade da Libéria.

Entretanto, a visão de Dumbai parece falhar às vezes, uma sequela do vírus que continua a confundir a medicina - e, como a enfermeira escocesa que sobreviveu ao Ebola e recentemente foi hospitalizada com outro problema relacionado ao Ebola, ele tem crises de saúde recorrentes, incluindo fraqueza e dor nas articulações.

Dumbai, cujo comportamento era tranquilo e reservado mesmo antes de adoecer, parece ter se fechado em si mesmo, dizem os amigos. Hoje, pode passar horas sem emitir um som, mesmo quando está cercado por pessoas conversando. Seu celular raramente toca, uma anomalia em um país onde todos parecem adorar telefonemas e mensagens de texto constantes.

Foi a doença de sua mãe, Julia, que contaminou toda a família. Um ano e meio atrás, ela e uma das tias de Dumbai compareceram ao funeral de uma mulher grávida chamada Patience que teve Ebola. Como frequentemente acontece na Libéria, muitas pessoas não aceitaram as explicações médicas para a morte da mulher: diziam que ela tinha engravidado de um homem casado e que a esposa deste havia lhe rogado uma praga.

Na refeição que foi servida, a mãe de Dumbai mergulhou as mãos no balde de água que outros haviam usado para lavar as mãos e o rosto. Mais tarde, depois que ela adoeceu e seus filhos a encheram de perguntas, jurou que não havia tocado no corpo da garota e nem comido nada.

A tia de Dumbai já havia adoecido: tinha febre, vômitos, fraqueza. O tio logo ficou doente, e depois, o filho do casal.

Todos os oito filhos de Julia vieram vê-la em Dolos Town quando souberam que estava doente. As notícias sobre o Ebola já eram ouvidas em todas as rádios da Libéria e eles estavam com medo. Mudaram o pai, Samuel Dumbai, para outro quarto, sem perceber que já era tarde demais. Nos primeiros dias, Julia ainda conversava, embora ficasse cada vez mais fraca. O filho tentou alimentá-la e lhe deu chá. Ele se lembra da tarde em que tocou em sua pele.

Por toda Dolos Town, as pessoas estavam doentes e morrendo. Cada vez mais se falava sobre a esposa do homem que engravidou Patience; agora, as pessoas acreditavam que a comida no funeral tinha sido envenenada.

Na manhã de domingo, 17 de agosto de 2014, Julia morreu. A tia, o tio e o primo haviam morrido recentemente. Alguns dias depois, a irmã grávida de Dumbai, Miatta, faleceu.

Em agosto, sentindo-se doente, ele foi para o hospital local. Alternando febre e frio, vômitos e diarreias, definhou em um canto por seis dias até que o diagnóstico chegou. Transportado para o Centro Médico John F. Kennedy, em Monróvia, ouvia seu companheiro de quarto, um jovem chamado Trocon, lhe dizer para ser forte. "Deus nos deixará viver, você vai ver", disse-lhe o rapaz.

Trocon morreu naquela noite.

Mas Dumbai começou a perceber que venceria a doença. Conforme ia ficando mais forte, pensou na vida sem sua mãe e Miatta. Quem cuidaria de seu pai? Então, começou a fazer planos.

Decidiu que falaria sobre isso com o irmão, Rashid - só que ele não estava atendendo ao telefone, o que era estranho. Para piorar, quando recebeu alta em setembro, os funcionários do hospital destruíram seu celular. O Ministério da Saúde lhe deu um certificado dizendo que estava livre do Ebola e ofereceu transporte para onde quisesse ir.

Ele precisava chegar a Dolos Town para cuidar do pai. Mas então, seu primo Samuel o encontrou. "Vamos para o quarto", disse Samuel.

E foi quando Dumbai descobriu que a mãe, irmã, tia, tio e primo não tinham sido os únicos a morrer. Recordando-se daquele dia - ele falou tão baixo que era quase impossível ouvi-lo -, mencionou os 13 membros de sua família levados pelo Ebola.

"Ele me disse que meu pai havia falecido", disse, relembrando o terrível relato de Samuel.

Mais de um ano depois, ao vê-lo andar pelo mato em direção ao túmulo da mãe em Dolos Town, Naomi Tama disse que não entendia como ele estava lidando com a dor de perder tantos membros da família.

"Sinto pena dele, cara", disse ela.

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