Cristiane Bomfim/ Hospital Albert Einstein
Cristiane Bomfim/ Hospital Albert Einstein

'O estresse é ver colegas doentes', afirma médico do Hospital Albert Einstein

Leonardo José Rolim Ferraz trabalha no departamento de pacientes graves

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 04h59

Leonardo José Rolim Ferraz, de 47 anos, médico intensivista e gerente do departamento de pacientes graves do Hospital Israelita Albert Einstein. Morador de Alphaville, região metropolitana de São Paulo. Casado, dois filhos

Sou responsável pela UTI do hospital e tenho atividade não assistencial, de definir planos e estratégias para o atendimento. Também fico à beira do leito, como qualquer outro médico, mas depende do dia. A pandemia mudou minha rotina. Bastante.

É mais fácil dividir o que tenho a dizer por tópicos. A primeira mudança foi a carga de trabalho. Permaneço no hospital todos os dias de 16 horas a 18 horas. Isso vem acontecendo há algumas semanas, seja por causa do aumento do volume de atendimento, de pacientes, mas também pela necessidade de preparação. Fizemos videoconferências com médicos da Europa. 

Confesso que não imaginava que a situação fosse tão dramática. Tenho receio da incapacidade de cuidar do paciente e também de me contaminar.

Na UTI, nós usamos uma roupa privativa, não é a roupa que vai para casa. A gente sabe que o vírus não fica na roupa, não é esse o mecanismo, mas há uma segurança psicológica. Além disso, o álcool em gel é usado de maneira quase obsessiva por todos.

O estresse das primeiras semanas foi o receio do que estava por vir. Agora, outro componente de tensão é ver colegas doentes. O impacto que isso tem é muito grande. Você pensa: "poderia ser comigo". E poderia mesmo. Por isso, mudou a relação com os outros médicos. 

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Todo mundo está mais próximo e mais interessado no jeito como o outro está
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Leonardo José Rolim Ferraz, médico do Hospital Albert Einstein

A gente se apoia um no outro. Sempre foi assim, mas agora é mais. A gente precisa estar bem para cuidar do outro. O hospital tem salas de descompressão e grupos de escuta. Eu já fazia meditação e tenho feito mais vezes por dia agora. 

À noite, quando não consigo dormir, eu medito para tentar pegar no sono. Outro fator que diminui o estresse é o carinho da família. Chegar em casa e encontrar alguém que lhe quer bem são estímulos poderosos.

Existe uma preocupação grande com a família neste momento. Sou casado com a Renata e tenho dois filhos, o João Pedro, de 11 anos, e a Caroline, de 13. Quando saio e quando chego do hospital, eles já estão dormindo. Quando eu os vejo, evito abraçá-los. Isso não é proibido, mas não é um comportamento racional, pois estou bem, sem sintomas, e usei os EPIs de forma adequada.

O contato físico acontece mais no fim de semana, quando estou mais relaxado e me sinto mais seguro para abraçá-los. Também é preciso ter uma visão otimista de tudo o que está acontecendo. A única coisa boa dessa pandemia é que o trânsito melhorou muito na cidade. Eu moro em Alphaville, distante do hospital, e estou levando metade do tempo para chegar em casa.

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